Segunda-feira, 22 de Julho de 2019
FAMÍLIAS EM RISCO

'Refugiados': venezuelanos relatam dia a dia na área próxima da Rodoviária

Local no coração de Manaus está ocupada por centenas de venezuelanos, que lá vivem de forma precária



_rea_1_B84F2E46-EBB2-4B68-90CA-B09B7F87E1A2.JPG Área próxima a viaduto e da Rodoviária está tomada por barracas. Fotos: Sandro Pereira/freelancer - 12/jun/2019
16/06/2019 às 14:51

Um acampamento improvisado tem sido por meses a casa de centenas de venezuelanos nas proximidades da Rodoviária de Manaus, no bairro Flores. Sozinhos ou em família, eles passam frio, fome e riscos ao atravessar as ruas movimentadas do local. Muitos comem apenas uma vez ao dia ou somente quando alguém resolve passar para deixar doações.  Em meio ao relento, eles, por muitas vezes, precisam sair das barracas para conseguir se abrigar da chuva repentina, frequente na nossa capital. O improviso virou rotina na hora do banho ou de fazer a comida, quando ela existe.

O que eles querem? Emprego. Moradia. Voltar a ter uma vida normal. Foram essas as palavras ditas por alguns deles durante a presença da equipe de reportagem no “acampamento”. As crianças brincam em meio à grama e as barracas enquanto os pais conversam, tentam passar o tempo que parece não ter fim. Algumas, sozinhas, atravessam a avenida sem a presença dos pais, correndo risco em meio aos ônibus que entram na rodoviária ou aos carros que circulam em alta velocidade por ali. 


Para ter acesso à água,  imigrantes precisam atravessar a via movimentada  

A rotina arriscada é diária já que o banheiro improvisado fica em uma parte externa da rodoviária, próximo a um galpão, que, segundo informações preliminares, vai ser reformado para servir de moradia aos venezuelanos desabrigados. No local, eles tomam banho, lavam seus pertences, retiram água para beber e fazer a comida.

A jovem Ana Rodrigues, 30, vive essa rotina há pelo menos cinco meses com os três filhos e o marido. Os cuidados com os pequenos de 12, 9 e 4 anos são redobrados, segundo ela, que no dia da entrevista ainda não tinha feito uma refeição com as crianças, já que esperava o marido chegar com o pagamento de um bico para conseguir comida. “A gente ficou um mês morando de aluguel, mas acabou o dinheiro e tivemos que ficar aqui. É arriscado, sem conforto, mas não temos para onde ir. Eu fico o tempo todo de olho nos meus filhos, pois os carros passam em muita velocidade. A gente só quer um emprego para melhorar a vida, ir para um local melhor e um dia poder voltar para a nossa casa que ficou abandonada na Venezuela. Soube até que roubaram todas as nossas coisas por lá, o que me deixa mais triste, mas temos esperança”, relatou.


Venezuelanos vivem em condições subumanas e muitas vezes passam fome

O português já é presente na vida de muitos deles, como na do jovem Vicente Menezes, 21. Morando em uma barraca com a companheira que conheceu em Manaus, a esperança dele é poder arrumar um trabalho para ter onde dormir e se alimentar adequadamente. Ele conta que o emprego está difícil, pois muita gente olha para ele e para todos que estão ali com preconceito. “Isso acontece muito. Estou aqui em Manaus faz um ano e quatro meses, morei de aluguel um tempo, tinha um emprego no centro, mas o dono do estabelecimento me enganava, dizia que eu tinha comida então não me pagava. Por isso saí e tive que voltar para a rua. Vim ficar aqui, mas não é fácil, às vezes eu passo o dia todo sem comer nada. Passamos muitas dificuldades. A minha vontade hoje é ter um emprego e conseguir mudar de vida. Sair daqui e poder pagar um aluguel”, disse o venezuelano.

Ele, assim como as mais de 500 pessoas (segundo estimativa dos órgãos públicos) que vivem no acampamento, ainda tem muitos familiares morando no país venezuelano. Eles relatam que mesmo com todas as dificuldades em que vivem hoje ainda é melhor estar aqui do que no país de origem.

É o caso da jovem Nairobys Figueira, 29. Grávida de cinco meses ela ainda não conseguiu fazer o pré-natal e mora em uma barraca com uma das duas filhas, há pelo menos seis meses.  A outra, uma menina de 13 anos, vive na casa de uma amiga em Manaus. “Eu fui buscar elas esses dias porque na minha cidade não tinha mais como ficar. Tive que ir e voltar de carona, mas foi sufoco poder entrar no meu país de novo. Aqui vivo com minha menina de sete anos, mas não tem sido fácil. Quando chove a gente tem que sair correndo se abrigar na rodoviária. Essa minha amiga só pode ficar com uma das meninas, por isso ela foi”, contou.

Município acolhe 807 imigrantes

Atualmente três espaços de acolhimento provisório são administrados pela Semasc. São  144 indígenas venezuelanos da etnia Warao, acolhidos em um espaço localizado no Centro, 471, da mesma etnia em um abrigo no Alfredo Nascimento, Zona leste, e 192 venezuelanos não indígenas no abrigo do Coroado.

Todos os espaços de acolhimento provisório contam com alimentação diária, e os acolhidos são acompanhados por uma equipe de profissionais de diversas áreas, segundo a Semasc. Isso acontece porque o município trabalha com a execução do Plano de Ação Humanitária ao Fluxo Migratório de Venezuelanos (interiorização), criado junto ao governo federal para promoção de apoio ao acolhimento temporário aos migrantes venezuelanos que se encontram em situação de vulnerabilidade.

O plano, segundo a prefeitura de Manaus, contemplaria o acolhimento temporário total de 400 venezuelanos, sendo 200 indígenas da etnia warao e 200 não-indígenas, com o período de execução de maio de 2018 a maio de 2019. Entretanto, segundo o órgão, atualmente 807 venezuelanos estão nos três espaços de acolhimento provisórios administrados pela Semasc, um número superior ao que contempla o plano humanitário que já finalizou.

Órgãos planejam acolhida

O poder público, nas três esferas, afirma que tem traçado metas para fazer a “Operação Acolhida” e retirar os venezuelanos do local.  Capitaneada pelo governo federal, por meio da Casa Civil e Ministério da Defesa, a ação em Manaus deve acontecer nos próximos meses, asseguram.

Segundo o que informou a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos (Sejusc), neste primeiro momento, a proposta é organizar a área da rodoviária, criar um posto de triagem e informação, banheiros e lavanderia, para que este público seja atendido. “A nossa proposta é fazer o reordenamento e organizar o entorno da rodoviária com o intuito de levar um atendimento digno a essas pessoas, para isso, uma comitiva de militares está em Manaus para, junto com órgãos e instituições, organizar essa operação. Acredito que o trabalho integrado é fundamental para o sucesso desta operação, que tem o objetivo de interiorizar refugiados, uma vez que o Amazonas não vai mais receber interiorizados de Roraima e, sim, encaminhar para o resto do País”, explicou a secretária Caroline Braz.

Segundo ela, além várias ações de sensibilização, saúde e conscientização, são feitas constantemente no entorno da rodoviária. Ações, em conjunto com diversas secretarias, como consultas médicas e serviços como a regularização de documentos, inserção no Cadastro Único, além do mapeamento de famílias e encaminhamento para a rede de proteção.

No fim de maio, uma comitiva do governo, representada por membros das secretarias de Justiça, Assistência Social (Seas) e Casa Militar, foi para Boa Vista conhecer as instalações de acolhimento dos refugiados venezuelanos na “Operação Acolhida”. A intenção do grupo foi verificar as medidas adotas na cidade e a possibilidade de trazer o modelo para Manaus.

A Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (Semasc) informou que já está em tratativas com os demais órgãos da prefeitura, do Estado e Ministério Público Federal (MPF)  para ações estratégicas para implantação de uma célula da “Operação Acolhida” na cidade.

Planos foram entregues

Segundo a Semasc, no último dia 10 de junho foi encaminhado um novo plano para o Ministério da Cidadania para acolhimento de venezuelanos indígenas da etnia Warao, que vivem no acampamento, que está em análise pelo governo federal. Já o Governo do Estado, segundo a Sejusc, enviou um plano para o acolhimento dos venezuelanos não-indígenas no local.

Receba Novidades

* campo obrigatório
Repórter de A Crítica

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.