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Câncer bucal deve fazer 100 vítimas no Amazonas atá o fim do ano

Evento de Estomatologia e Patologia Oral na capital traz a doença como tema principal de discussão; projeção é que a neoplasia atinja 100 pessoas, com grande predominância do sexo masculino 04/07/2016 às 20:32 - Atualizado em 05/07/2016 às 10:45
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À dir., o presidente da Sobep, Cassius Pereira, na abertura do Congresso em Manaus (Fotos: Antonio Menezes)
Paulo André Nunes Manaus (AM)

O câncer bucal é uma preocupação para os especialistas que estão participando, até a próxima sexta-feira (8), do 42º Congresso Brasileiro de Estomatologia e Patologia Oral no Manaus Plaza Shopping. No evento, inédito em Manaus e que tem a presença de representantes de todos os Estados brasileirosa Sociedade Brasileira de Estomatologia e Patologia Oral (Sobep), o tema “Câncer Bucal: Um desafio multidisciplinar” é tratado de forma especial.

Segundo os últimos dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca) divulgados pela Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado (FCecon),  a estimativa é que só neste ano o número de pessoas acometidas de câncer bucal chegue a 100 casos no Amazonas. Desse patamar, a previsão é que a maioria desses universo – 70 casos – atinja os homens e os outros 30 as mulheres.

Na projeção feita pelo Inca o câncer bucal (classificado entre os médicos como “cavidade oral”) é a quinta neoplasia mais frequente no universo masculino, estando atrás do câncer no estômago, cólon/reto, traquéia/ brônquio/pulmão e de próstata.

Entre as mulheres, a “campeã” das neoplasias malignas é o câncer de mama feminino, seguido do colo do útero, traquéia/ brônquio/pulmão, colo/reto e estômago até chegar à cavidade oral (6º).

Preocupação

O Instituto Nacional do Câncer (Inca) divulga, a cada dois anos, a projeção para os números do câncer no Brasil. De acordo com o patologista bucal e professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Thiago Novaes Pinheiro, o de boca sempre figura entre os 10 tipos de câncer mais prevalentes na população do País. “Estamos falando de milhões de pessoas afetadas anualmente, principalmente homens, que fumam e bebem mais que as mulheres, o que influencia. Se você for no (Fundação) Cecon, no setor de cabeça e pescoço que é quem opera esse tipo de câncer, vai ver que está entre os cinco tumores que têm necessidade de ser tratado lá. Essa doença está na população e precisa ser combatida”, destaca o especialista, demonstrando ainda mais sua preocupação ao salientar que, diferente de outras neoplasias, o câncer bucal não vem tendo diminuição no número de casos.

“Apesar da evolução do tratamento do câncer de uma forma geral, o bucal foi o que não conseguiu um resultado melhor na diminuição das mortes. Se você pegar alguns tumores como linfomas, câncer de próstata, de mama, todos eles vêm nos últimos 30 anos demonstrando queda na mortalidade. O de boca, não. Mesmo com os avanços que temos não conseguimos baixar. Então, é preciso envolver as pessoas para que o diagnóstico precoce aconteça mais facilmente e que possamos salvar mais pessoas e evitar esses tipos de morbidade com a nossa população”, observou o patologista.

“Infelizmente, prossegue o professor e patologista bucal, o câncer de boca tem um componente difícil de lutar porquê envolve o tabagismo, doenças sexualmente transmissíveis, e envolve nível cultural das pessoas. Infelizmente, também, quem mais sofre com essa doença são as pessoas mais pobres. Precisamos fazer com que mais facilmente seja reconhecido.O cirurgião-dentista tem um papel essencial nisso pois tem contato com a boca dos pacientes frequentemente. Se você esperar que uma lesão dessa apareça e incomode o suficiente para o paciente buscar um médico, isso pode deixar a mesma lesão crescer muito. Aí está o papel do cirurgião-dentista, profissional ideal para identificar essas doenças”, esclarece ele.

Em nível mundial

O cirurgião-dentista e especialista em patologia da região buco-maxilo-facial, Jeconias Câmara, é membro há 36 anos da Sociedade Brasileira de Estomatologia e Patologia Oral (Sobep) e preside o 42º Congresso Brasileiro no Amazonas, pontuou que o câncer bucal é preocupante em nível mundial.

“O Amazonas, por ser o maior Estado, tem o maior índice de câncer bucal na região Norte. Mas a situação não é preocupante só no Amazonas, mas no mundo inteiro. O principal câncer dessa região se chama carcinoma epidermóide. Um total de 95% dos casos de câncer dessa região são representados esse carcinoma, que é o mesmo tipo que ocorre na genitália feminina, na mesma proporção na genitália masculina, mucosa oral, lábio e orofaringe. O índice é muito elevado e nem se compara com essas outras regiões anatômicas. Geralmente são acometidas pessoas de idade mais avançada, a partir dos 40 e 50 anos, e naturalmente o câncer de boca também. Mas pode aparecer em idades mais amenas”, esclarece o cirurgião-dentista.

O câncer está relacionado a tabagismo e alcoolismo (que juntos se potencializam e aumentam em 250% a possibilidade de qualquer ser acometida do câncer bucal), radiação solar, raios ultravioletas e hpv.

Prevenção

Jeconias Câmara alerta que a melhor forma de prevenção contra o câncer bucal é, sem dúvida, a educação sanitária da população e a preparação dos profissionais de saúde para identificar as lesões numa fase mais precoce. “Hoje sabemos que o câncer, de uma maneira geral, são curáveis, e podem ser curáveis 100% desde que sejam diagnosticados precocemente e tratados, naturalmente, também precocemente. Em um bom número de vezes os pacientes já chegam (ao atendimento médico) em um quadro já avançado, e há uma demora na identificação, trazendo muita morbidade, muitas seqüelas, e às vezes, a mortalidade, embora tenha havido grande evolução nos procedimentos terapêuticos”, acrescenta o especialista.

Câmara lamenta o tipo de atendimento que é repassado a quem enfrenta o câncer no Brasil. “Os nossos pacientes ainda enfrentam filas enormes”, declarou ele.

“Os dados do câncer como um todo no Amazonas ainda são muito fragmentados, não são consolidados ainda. A dificuldade que se tem da notificação compulsória são muito grandes, de forma que os números que são revelados pelo Inca não refletem a realidade. Precisamos melhorar e avançar muito com as notificações de todas as doenças, mas sobretudo dessa que deixa grandes seqüelas. O número é grande: no Brasil e na América do Sul ele é o terceiro lugar de incidência nos homens e o quinto nas mulheres. A razão é óbvia e está ligada naturalmente ao tabagismo, que é o principal agente carcinógeno dessa lesão tanto de orofaringe quanto de mucosa oral, vindo depois outros carcinógenos virais como hpv, seres microscópicos produtores de nitrozamina, enfim. Há relações muito estreitas com condições, relações de hábitos, de costumes. Isso faz com que na China e na Índia, por exemplo, a incidência do câncer bucal seja de 42% em relação aos demais cânceres. Por outro lado, na Inglaterra , a incidência é de 2%”, explicou o representante da Sobep.

O Congresso

Mais de 720 pessoas estão inscritas participando do 42º Congresso Brasileiro de Esmatologia e Patologia Oral, sendo que metade delas vêm de fora do Amazonas, informa Jeconias Câmara.

A estomatologia é a parte das ciências médicas que tem a preocupação de estudar as doenças da boca e fazer seu diagnóstico clínico e tratamento. Ela corresponde, no Brasil, ao que nos Estados Unidos é chamado de “Medicina Bucal”. Já a patologia é uma outra especialidade que trata do diagnóstico morfológico, feito a nível de microscopia sobre fragmentos denominados de biópsias, sendo um procedimento secular e que tem 90% de segurança quando se quer fechar um diagnóstico de doenças diversas, mas sobretudo para o câncer. É o mais seguro para esse tipo de doença, informou o espeialista.

BLOG: Thiago Novaes Pinheiro, professor da UEA e patologista bucal

“Esse é o maior evento da área de estomatologia e patologia bucal do Brasil. Ele já aconteceu na região Norte em Belém e agora está ocorrendo em Manaus e mobilizou muito a classe odontológica local. Estamos tendo um recorde tanto de participação de profissionais quanto de trabalhos sendo apresentados. As pessoas que estão aqui envolvidas e atendendo esse congresso estão tendo a oportunidade de atualizar seus conceitos, de ver o que tem de mais novo no mundo sobre o assunto com ênfase no diagnóstico e tratamento do câncer de boca”.

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