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Manaus
LAZER

Passado rico e presente escasso: veja a história dos parques infantis de Manaus

Até o século passado, a capital tinha diversos espaços para o lazer das crianças, mas governos transformaram o uso dos locais, deixando a cidade carente de ambientes do gênero 14/10/2018 às 11:24
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A pedagoga Kelly Rocha Matos e seus dois filhos: ela é autora de um estudo sobre os parques infantis no Estado do Amazonas. Foto: Jair Araújo
Paulo André Nunes Manaus (AM)

A cidade de Manaus tem uma carência gigantesca por espaços apropriados destinados ao lazer das crianças. Se formos entrar no campo dos parques, essa distorção é ainda maior: a capital amazonense conta com apenas um parque infantil, o “Cidade da Criança”, na avenida André Araújo, bairro Aleixo, Zona Centro-Sul. É como se os pequenos ficassem órfãos desses locais. Mas nem sempre foi assim.

Até o século passado, os parques infantis existentes na capital eram caracterizados por atividades desportivas, preocupação com a saúde e a existência de médicos e o contato com a natureza, bem como a arborização.

O primeiro parque infantil oficial de Manaus existia no antigo balneário do Parque Dez de Novembro, tendo sido inaugurado em 19 de abril de 1943, data natalícia do então presidente da República, Getúlio Vargas, com ato de criação do ex-prefeito Antônio Botelho Maia, no qual deixa claro que o espaço era destinado para ser um parque infantil.


O famoso e grandioso balneário do Parque Dez, que abrigava o primeiro parque infantil de Manaus. Foto: Corrêa Lima

“Mas, com as mudanças de governo, o uso desse espaço foi se transformando ao longo das décadas. Aqui no Amazonas havia uma preocupação com as crianças que ficavam nas ruas. E no Estado era grande a quantidade delas, pobres, que eram recolhidas pelo Juizado de Menores. O juiz André Araújo teve um papel primordial de defender a existência desses espaços, pois acreditava-se que o menor vigiado e controlado não iria cair na delinquência”, explica a pedagoga Kelly Rocha de Matos Vasconcelos, autora de um estudo sobre o histórico dos parques infantis de Manaus de 1940 a 1996.

O trabalho gerou uma dissertação de Mestrado em Educação pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e que teve como orientadora a professora doutora Pérsida da Silva Ribeiro Miki.

Outros parques

Já em 6 de setembro de 1944, em comemoração à Semana da Pátria, inaugurava-se, onde hoje é o bairro da Cachoeirinha, o Parque Infantil Ribeiro Júnior, depois chamado de Velódromo Álvaro Maia.

Na década de 1950, na administração de Gilberto Mestrinho, começaram a inaugurar os playgrounds nas praças de bairros e se passou a chamá-los parques infantis, distanciando-se do que estava acontecendo no restante do País, onde os parques infantis eram instituições não-formais nas quais as crianças iam ter acesso à educação, saúde e atendimento médico.    

O curioso desses parques, destaca a pedagoga Kelly Rocha, é que eles tinham a característica de serem sempre inaugurados em datas cívicas, como próxima ao Dia das Crianças, Semana da Pátria ou ao Natal. Também houve a inauguração em instituições de amparo social, como no Educandário Gustavo Capanema e Casa da Criança. 

Na Praça Heliodoro Balbi, a popular “Praça da Polícia”, havia um playground chamado "Janguinho".


Foto de 1958 do parque "Janguinho", que ficava em frente da Praça da Polícia, no Centro de Manaus. Foto: Reprodução/"O Jornal"

Poucas pessoas lembram, mas em 24 de dezembro de 1963 foi inaugurado o Parque Infantil da Prefeitura Dom João de Souza Lima, no antigo Aviaquário Municipal, onde hoje funciona a paróquia de Nossa Senhora da Conceição, na Catedral Metropolitana de Manaus. Além de banquinhos e aparelhos para brincar, como balanços e gangorras, o local tinha até uma piscina onde a meninada se divertia. Em setembro de 1971, o parque passa a ser denominado como “D. Basílio Pereira” e, a partir de 1980, não foram mais encontrados indícios da existência dele no local.


Inauguração do Parque Infantil D. João de Souza Lima, em 1963 (Foto: Reprodução/"O Jornal"

Governantes faziam dos parques as suas 'vitrines políticas'

A partir da década de 1960, houve uma grande proliferação de parques infantis no Amazonas tanto nos bairros quanto no interior, em praças próximas a escolas ou a igrejas. “Mas como não havia uma preocupação quanto à manutenção desses espaços, eles foram deixando de existir”, disse Kelly Rocha.

Ela concluiu a sua dissertação mostrando que os parques infantis (PIs) existiram ainda como instrumentos de recreação nas praças públicas, em internatos, instituições educacionais e comerciais.

“De diferentes formas os PIs se configuraram como espaços de recreação e lazer para a criança com extensão aos jovens e adultos e foram utilizados para dar visibilidade política aos governantes de cada época, por meio da imprensa, cujas inaugurações eram cuidadosamente pensadas para acontecerem em datas comemorativas, reforçando o sentimento de nacionalidade na população Amazonense”, afirma.

Hoje, o lazer é demasiadamente capitalizado, frisa Kelly. “Se quisermos proporcionar um lazer para criança é necessário um ônus com isso. A carência de espaços públicos de lazer é gritante. Eram para existir bastante parques infantis pela cidade, em vários bairros. Pelo menos um em cada bairro será o mínimo aceitável”.

Se for seguir a proposta original da década de 1940, talvez, diz a especialista, “o único local que se aproxima é a Cidade da Criança, com uma educação não-formal, com profissionais especializados para promover esse tipo de recreação com atividades culturais e espaço amplo, arborizado. Só não tem piscina”.

Único parque infantil vai fazer sete anos

Inaugurado em dezembro de 2011, o Parque Cidade da Criança é o único espaço de recreação infantil do município. Ele tem acesso gratuito para a população desfrutar de um ambiente com momentos de entretenimento e lazer. Atualmente o local possui uma equipe com cinco recreadores que buscam resgatar brincadeiras populares, desenvolvendo atividades que estimulam a criatividade infantil, tornando o ambiente mágico e encantador.

Com 19.637.00m², o espaço possui hall de entrada, teatrinho, praça de alimentação, a Vila Feliz, banheiros, biblioteca, brinquedoteca, anfiteatro, tirolesa, Casa do Tarzan, Forte Apache, museu, parede de escalada, quadra de futebol, camarim/acervo, fraldário e Labirinto do Minotauro.

Para se manter em bom estado e atrativo para o público, o espaço coordenado pela Secretaria Municipal de Juventude, Esporte e Lazer (Semjel)  conta também com o apoio da Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos (Manauscult), do Fundo Manaus Solidária, da Casa Militar, do Manaustrans e das secretarias municipais de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas), Comunicação (Semcom), Saúde (Semsa), Limpeza Urbana (Semulsp) e de outros órgãos.

Diariamente o Parque da Criança recebe, em média, 400 crianças em agendamento e visitação de escolas públicas e privadas. O parque fica aberto ao público sempre de terça a sexta-feira, de 8h às 18h, e no final de semana, sábados e domingos, de 10h às 21h. A entrada é gratuita.

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