Terça-feira, 16 de Julho de 2019
Manaus

Casais de homossexuais oficializam união no AM

Vencendo preconceitos, Sumaia e Magaly oficializaram o casamenti civil, o primeiro no Amazonas depois da resolução 175 do CNJ



1.jpg Magaly e Sumaia superaram as adversidades e preconceitos de familiares ara ficarem juntas e oficializaram a união
28/07/2013 às 15:06

A união da motorista de táxi Sumaia Ram os, 38, e da professora aposentada Magaly Cabral da Silva, 52, seguiu todos os trâmites de um casamento tradicional e, desde sexta-feira, elas são oficialmente casadas. Magaly, inclusive, adotou o sobrenome Ramos, da companheira, com quem vive há oito anos. As duas formam o primeiro casamento homossexual realizado no Amazonas sob novas as regras da decisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que determinou aos cartórios a celebração do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo.

As duas deram entrada nos papéis e em pouco mais de 40 dias até a marcação da cerimônia, ocorrida ontem, conseguiram ver o sonho ralizado. Magaly já foi casada e é mãe de três filhos, sendo que o mais novo, de 14 anos, vive ainda com ela e, a exemplo da mãe, é apaixonado por Sumaia. Mas a união das duas sofreu revezes, como a atitude do ex-marido de Magaly, que praticou a chamada alienação parental, tentando manipular o garoto para afastá-lo da mãe, criticando a opção sexual dela. “Foi um sofrimento tão grande para ele, que o juiz não teve dúvidas e deu a guarda do garoto para a mãe”, lembra Sumaia.

DESAFIOS

A certeza de que estão fazendo o que o coração pede dá a elas tranquilidade para vencer o que chamam de “maus tratos” da sociedade. Sumaia disse que desde criança sabia da sua homossexualidade, mas foi vencendo resistências, até por contar com o amor materno. Quando encontrou Magaly não teve dúvidas de que era a mulher da vida dela. “Somos tão parecidas que gostamos das mesmas comidas, dos mesmos programas. Temos tanta sintonia que até repetimos os mesmos gestos”, brincou Sumaia, sob a concordância da companheira.

Para completar a oficialidade da união, as duas, sempre trocando sorrisos, participaram de uma festa com almoço e depois partiram para a tradicional lua de mel, que vai acontecer num hotel situado na área rural da cidade.

“Esperamos  que outras pessoas que vivam  na mesma condição possam se inspirar e decidir ser felizes.  A sociedade que maltrata os homossexuais é minoria, pois ela está amadurecendo para saber que o amor entre as pessoas do mesmo sexo não é doença, é opção. Não acredito que deixaremos de sofrer com essas atitudes, mas se exigirmos respeito, as coisas vão mudar. Acreditamos que fomos feitas uma para a outra e a vida só tem confirmado isso”, disse Sumaia.

Juiz emocionado na cerimônia

O casamento das duas foi oficializado pelo juiz Luís Carlos Chaves, da 4ª Vara da Família, com testemunhas, além de familiares e amigos. Para ele, cujo primeiro ato como juiz em 1998 foi realizar um casamento, no Município de Humaitá (a 600 quilômetros de Manaus), este foi o mais marcante entre os mais de quatro mil já celebrados.

“Todas as pessoas têm direito à felicidade, não importa a forma, a cor, o que importa é assegurar aos cidadãos a possibilidade de ser feliz, seguir seus caminhos e escolhas”, disse o magistrado, lembrando que as opções quanto a amor são de caráter pessoal. “O que o ser humano deseja mesmo é ter alguém para compartilhar sonhos e projetos de vida, em última análise, ser feliz”, argumentou ele, emocionado com o acontecimento.

Para a oficiala do 8º Cartório de Registro Civil, Juliana Follmer, a importância dessa celebração vem do fato de ser o primeiro casamento homossexual, ocorrido de acordo com a resolução do CNJ. Antes dessa legislação, não havia casamento, mas união estável. “Agora, é um casamento celebrado por um juiz de paz ou de direito”, explicou ela.

Discriminação da família

Depois de relacionamentos héteros, dos quais teve três filhos, a professora Magaly Cabral Ramos é quem mais sofre com a discriminação. Segundo ela, a família não aceita e se afastou, enquanto o sentimento entre ela e Sumaia só se solidifica.

Os relatos das duas reabrem feridas como a de um familiar que chegou a dizer para que ela escolhesse entre a família e a namorada. “Não preciso nem responder qual foi a minha escolha”, sorri a professora, citando que nunca nem considerou a possibilidade de ter uma relação homossexual até conhecer Sumaia. “Foi uma situação tão inusitada que aguardamos algum tempo para ter certeza de que era isso mesmo que queríamos”, disse a professora, reafirmando a convicção de estar fazendo a coisa certa por seguir o coração.

Outros casais homossexuais já buscaram reconhecimento

Em dezembro do ano passado, dois casais homossexuais que viviam juntos há algum tempo, foram os primeiros a conseguir converter a união estável em casamento civil. Em decisão autorizada pelo juiz Dídimo Santana Filho, à época respondendo pela Vara de Registros Públicos e Precatórias de Manaus, do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM), os casais passaram a ter assegurados os direitos e deveres relativos ao casamento.

Os dois casais, um junto há cinco anos e outro há quase duas décadas, conseguiram um fato inédito para aquele momento. Um deles é formado pela advogada Mônica Godoy, 45, e a fisioterapeuta Monalisa Godoy, 30.

A oficiala de registros, Juliana Follmer, do 8º Registro onde constava o requerimento de conversão de união estável homossexual em casamento, informou, em entrevista ao jornal A CRÍTICA naquela época, que os casais cumpriram as exigências legais para a habilitação ao casamento, com apresentação de documentos e publicação de editais. O Ministério Público Estadual (MPE) opinou favoravelmente ao pedido.

No Brasil, a união civil homossexual foi reconhecida por força da justiça, tendo sido autorizada diversas vezes, tanto pelo Superior Tribunal de Justiça quanto pelo Supremo Tribunal Federal, a partir de 2011.

Na maior parte das sociedades, só é reconhecido o casamento entre um homem e uma mulher, mas em países como Portugal, Espanha, Bélgica, Noruega, Dinamarca, Suécia, Islândia, África do Sul, Canadá e a Argentina, há o reconhecimento para o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, como acontece agora no Brasil.

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