Domingo, 15 de Setembro de 2019
DADO PREOCUPANTE

Casos de suicídio entre estudantes alertam para saúde mental nas escolas

O preocupante número de suicídios entre jovens alunos da rede estadual de ensino no primeiro semestre deste ano acendeu o alerta da Seduc, que criou uma coordenadoria de atenção psicossocial.



foto1_688BB3F9-BE8B-44F4-88E4-C7DBE5B200B6.JPG Foto:Euzivaldo Queiroz/A Crítica
11/08/2019 às 14:37

Baixo autoestima, abuso sexual, ansiedade, bullying, pais ausentes, falta de perspectiva ou vulnerabilidade social. A lista ainda é pouca para abarcar todos os fatores que podem desencadear a depressão, a ideação suicida ou a automutilação entre alunos amazonenses. O alerta vermelho para pais, professores e psicólogos foi aceso com a divulgação de um dado preocupante: entre fevereiro e julho desse ano, foram registrados sete suicídios de estudantes matriculados na rede pública estadual com faixa etária entre 15 e 17 anos, segundo levantamento da Secretaria de Estado de Educação e Qualidade de Ensino do Amazonas (Seduc–AM).

Tanto que no início do mês passado, a Seduc-AM implantou a Coordenação de Atenção Psicossocial Escolar (Capse) com o objetivo de desenvolver ações de prevenção e promoção da saúde mental nas escolas públicas do Estado. “Eu entendo que as políticas de promoção da saúde mental precisam ser feitas de maneira ordenada e tratadas como prioridade e é isso que estamos fazendo”, disse o titular da pasta Luiz Castro, que também foi autor (quando deputado estadual) da emenda nº 83/2014, que inclui assistentes sociais e psicólogos nas escolas da rede pública de ensino.

Além disso, através de uma equipe composta por 15 profissionais entre psicólogos e assistentes sociais, a Seduc-AM oferece, aos alunos, acolhimento, escuta especializada e encaminhamento para a rede pública de saúde. Contudo, essa equipe tem que dar conta das 232 escolas espalhadas nos sete distritos de Manaus, que abrangem um universo de 220 mil alunos (no interior são 227 mil).

Segundo o secretário Luiz Castro, a Capse surge também para implantar uma política de promoção à saúde mental. “A coordenação passou, desde o começo de julho, a colher informações com o intuito de analisar e conseguir identificar o que está acontecendo [nas escolas] para, assim, implantarmos uma política mais assertiva”, comentou.

Iniciativas

Enquanto isso, iniciativas voluntárias, vindas de professores e alunos, tem dado um apoio no acolhimento e na prevenção ao suicídio entre adolescentes. Como é o caso do projeto Ame (sigla que significa ‘Alunos Mais que Especiais’), um projeto tocado por 30 alunos na Escola Estadual Benedito Almeida, no bairro Mauazinho, Zona Sul de Manaus. Surgido dentro do Grêmio Estudantil Voz Ativa, incentivada pelo professor de sociologia Girleno Menezes, a ideia do projeto é, além de promover a saúde mental na escola, estender a mão aos alunos que emitem sinais de depressão (tais como mudanças bruscas de comportamento, queda acentuada do desempenho acadêmico, isolamento, entre outros).

Entre as atividades desenvolvidas pelo grupo está a recepção positiva, realizada pelo menos uma vez por mês, com direito a tapete vermelho e cartazes com palavras de incentivo, como “você é importante”, “te amo” ou “tenha um dia produtivo”. Nessas ocasiões, os alunos formam um grande “corredor polonês do bem” e distribuem abraços, sorrisos, beijos no rosto e tapinhas nas costas nos colegas e servidores que chegam à unidade de ensino (inclusive, este repórter foi alvo dessa recepção amorosa quando foi visitar a escola para a produção dessa reportagem).

“Muitas vezes esses alunos só precisam de um abraço ou de um tempo de escuta”, destacou a gestora da escola Lucicleide Avelino, ao lado dos estudantes do segundo ano Lídia Oliveira, 17, e Micael Araújo, 16, respectivamente presidente e vice-presidente do Projeto Ame.

“Nós percebemos que houve um aumento de casos de depressão na escola. Diante disso, tivemos a ideia de elaborar um projeto em que nós mesmos ajudássemos esses jovens. Nós desejamos que essa ideia não fique somente em nossa escola, mas que seja espalhada para outras”, disse Micael, destacando que o Projeto Ame está sendo implantado na Escola Estadual Professor Cleomenes do Carmo Chaves, localizada no bairro Jorge Teixeira, na Zona Leste de Manaus.

Emocionada, Lídia lembra que, em pouco tempo, o Projeto Ame já tem uma lista extensa de relatos de alunos que buscaram a ajuda do grupo e encontraram aquilo que eles, mesmo sem saber, sempre procuraram: um momento de escuta.

“Também criamos a ‘Sala do Fale Sem Medo’, onde quatro voluntários do projeto ficam em uma sala recebendo os alunos que precisam desabafar ou só querem um abraço. Alguns adolescentes já entram na sala chorando. Certa vez, uma aluna passou mais de duas horas desabafando, e depois ela nos contou que nunca havia confidenciado a dor dela com ninguém. Nós estamos conseguindo ajudar alguns colegas e isso é incrível”, recorda.

Estresse e ansiedade durantes os estudos

Segundo o relatório do Programa de Avaliação Internacional de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês), divulgado no começo do ano, os alunos do Brasil estão entre os que ficam mais estressados durante os estudos: 56% dos entrevistados relataram o problema. Os jovens brasileiros também ocupam o segundo lugar no ranking dos ansiosos para as provas, mesmo quando se preparam.

Jovens: mais vulneráveis

Promover a saúde mental entre os adolescentes nas escolas é urgente porque é nessa fase da vida que o desenvolvimento social e escolar passa por mudanças bruscas. É justamente nesse período de construção e consolidação da própria identidade que a depressão pode ser particularmente perigosa. Tudo porque eles têm menos recursos para lidar com os problemas da vida – ao contrário dos adultos que, na maioria das vezes, já estão encaminhados. É comum que os sintomas depressivos sejam acompanhados de uma tendência ao consumo exagerado de drogas bem como aumento do risco de suicídio.

A balconista Jeniffer Bordini Sales, de 22 anos, não guarda boas lembranças do ambiente escolar até hoje. Diagnosticada com depressão aos 13 anos de idade, foi no segundo ano do ensino médio que o seu quadro começou a piorar significativamente. “A coordenação da escola entregou o meu laudo aos professores para que eles me ajudassem na adaptação. Nessa época eu tinha depressão, ansiedade e síndrome do pânico. Essa ‘atenção’ nunca ocorreu porque os professores mal tinham que lidar com quase 40 alunos em sala de aula, e o fato de eu ser tímida me fez ficar ainda mais isolada”, lembra.

Nesse período turbulento, sem perspectiva e sem amigos, Jeniffer começou a faltar às aulas. “Eu cheguei a um ponto que eu me sentia sufocada e eu só queria morrer. Era horrível ir pra aula e, ao mesmo tempo, horrível ficar em casa. As minhas notas caíram. Cheguei a tentar suicídio no meu último ano do ensino médio”, diz ela, que conseguiu concluir os estudos com a ajuda de um psicólogo e diz que, na época, a escola não ofereceu nenhum apoio. Hoje ela segue com o tratamento psicoterapêutico e tenta retomar o curso de farmácia (trancada duas vezes por ter desenvolvido fobia de sala de aula).

Um caso mais recente é o do estudante Nil Miranda, de 15 anos, que, ano passado, ficou um mês longe da escola por ter sofrido bullying. “Eu desenvolvi depressão quando os meus amigos na escola se afastaram de mim. Isolado, eu me escondia, evitava ser visto, tinha vergonha e medo de mim mesmo; era inseguro com tudo”, relata ele, que conseguiu voltar à escola e segue em tratamento psicoterapêutico até hoje. “Me sinto melhor, mas ainda tenho alguns bloqueios com a sala de aula, sempre fico com um pé atrás com as pessoas, e isso às vezes é desgastante”.

Olhar diferenciado dentro da sala de aula

É importante salientar que casos mais graves, em que a depressão já está instalada e há ideação suicida, a intervenção de um profissional é necessária. Nessa esteira, há um projeto chamado “Escuta Emergencial nas Escolas” capitaneado pela psicóloga Elayne Pensador, que tem buscado cada vez mais ampliar o número de psicólogos e psiquiatras para, voluntariamente, atuarem nas escolas públicas de Manaus com palestras, orientação vocacional e escuta terapêutica. Atualmente, o grupo conta com 48 voluntários.

“Existe a necessidade de um olhar mais diferenciado em sala de aula. De observar mudanças bruscas de comportamento dos alunos ou uma queda acentuada no desempenho acadêmico. Tem certos casos que fogem à alçada de professores e colegas. É nesta lacuna que o profissional da psicologia entra em cena. As escolas precisam, urgentemente, dessa atenção psicológica, tanto que o lema da minha vida é ‘ouvir é amar’”, destacou Elayne.

Para a coordenadora psicossocial da Seduc–AM Jeane Brito, a divulgação da primeira estatística de suicídio entre adolescentes no Estado é alarmante. “Enquanto trabalhamos a prevenção com alunos de uma escola, em outra já há índices altos de automutilação, depressão e ideação suicida. Somos apenas 15 pessoas no núcleo psicossocial para atender mais de 220 mil alunos só na capital. E só dois psicólogos foram chamados no último concurso. Nosso papel, no momento, tem sido convidar alunos, profissionais e instituições para atuar, voluntariamente, nas escolas públicas para, assim, a gente alcançar todos os estudantes”, disse.

Rede municipal

Nas unidades municipais de ensino, a Secretaria Municipal de Educação (Semed) informou que integra o Programa Saúde na Escola (PSE), que têm em suas diretrizes a saúde mental. Projetos de prevenção como palestras, oficinas e rodas de conversa também têm sido desenvolvidos.

Os alunos das escolas municipais contam com o apoio dos profissionais dos Centros Municipais de Atendimento Sociopsicopedagógico (Cemasps), cuja atuação é focada no combate ao abandono escolar por meio de ações pedagógicas, psicológicas, sociais e fonoaudiológicas. Porém, as atividades não se restringem à evasão escolar, mas abrangem o trabalho preventivo que contempla o bem-estar psicossocial dos alunos, bem como realiza a orientação familiar.

Entre os anos de 2018 e 2019, cerca de 2.178 crianças e adolescentes foram atendidos no Centro de Atenção Psicossocial Infanto-juvenil Leste (CAPSi), administrado pela Secretaria Municipal de Saúde de Manaus (Semsa). Desses, 921 pacientes foram diagnosticados com depressão; 19 com alguma fobia e 125 apresentaram queixas associadas aos transtornos de ansiedade. Nenhum desses jovens foram encaminhados pela Semed.

O número pode ser bem maior porque ainda há uma certa resistência, por parte de algumas famílias, em enxergar a depressão como uma doença que precisa de tratamento (o que impede o registro de muitos casos). É comum que pais e responsáveis associem o isolamento e a inconstância emocional do adolescente a comportamentos inerentes à idade ou confundem a recorrente indisposição para atividades com preguiça, quando na verdade podem ser sinais de que há algo errado. Quem alerta é a médica psiquiatra Alessandra Pereira, especialista em suicidologia.

“É assombroso o número de adolescentes que tem tirado a própria vida em Manaus. Semana retrasada tivemos três casos. Semana passada, mais dois. Todos adolescentes e sem a família perceber a depressão instalada na vida desses jovens. Vamos ter em mente que a ideação suicida é um dos quadros mais graves em saúde mental, e requer intervenção profissional habilitada imediata e acompanhamento psicológico dobrado”, alertou.

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Repórter do caderno de Cidades - Jornal A Crítica

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