Domingo, 25 de Agosto de 2019
CASA DE ACOLHIMENTO LGBT

#CasosMarcantes 2017: Casa de Acolhimento LGBT+ é exemplo de luta pela diversidade

Coletivo lançou projeto que abriga LGBTs em situação de vulnerabilidade em Manaus. Coordenador destacou rejeição do poder público e fala das perspectivas para 2018



29/12/2017 às 15:53

Uma ideia, determinação de sobra e o espírito militante para dialogar contra o preconceito. Ao invés de armas, o coletivo Manifesta LGBT+ usou desses três pilares para colocar em prática o projeto da Casa de Acolhimento Miga, prevista para ser inaugurada em janeiro do próximo ano e acolher pelo menos 10 LGBTs em situação de vulnerabilidade. À frente do projeto, o porta-voz do movimento, Gabriel Mota, foi um dos destaques de 2017 e afirma que a luta deve continuar até chegar à cúpula do poder.

Se o objetivo for concretizado, a Casa Miga será a primeira da Região Norte focada nesse tipo de atendimento. “Miga”, inclusive, é uma analogia à gíria utilizada entre o público LGBT e também faz menção ao “M” de Manifesta LGBT+.

Atualmente, segundo Gabriel, a casa está em fase de projeto e captou R$ 12 mil reais desde junho deste ano, quando as ações para arrecadação de recursos tiveram início. Embora o movimento tenha conseguido móveis, eletrodomésticos e materiais para a casa, o dinheiro é pouco para manter seis meses de aluguel.

“Ainda é pouco porque o projeto pra funcionar por um ano, sem precisar de muita coisa ou de ajuda de fora, foi orçado em 110 mil. Conseguimos reduzir esse orçamento pra R$ 75 mil que a gente já tirou das doações que chegaram de festa. Com esse valor a gente consegue manter por um ano e insistindo com o poder público para assumir essa casa”, disse ele.

Negligência

A ideia da Casa de Acolhimento LGBT surgiu justamente da negligência do Estado e Prefeitura de Manaus com o problema. O cenário motivou integrantes do grupo a pesquisarem sobre o assunto em âmbito acadêmico, e foi então que eles descobriram que muitos LGBTs expulsos de casa, violentados ou excluídos do seio familiar não possuíam qualquer espaço público para buscar abrigo, acabando por recorrer aos amigos e até mesmo às ruas.

“A gente chega falando sobre a depressão, sobre as expulsões de casa, mas o secretário de Direitos Humanos quer que envie as pessoas LGBT pros Capsis (Centro de Atendimento Psicossocial) da cidade, mas esses lugares não estão preparados para receber pessoas LGBTs. Imagina, lugares que são tomados por pessoas conservadoras, muitas vezes fanáticas religiosas, e chega uma pessoa transexual. Essa pessoa vai dizer que ela tem que orar, porque ela está perdida”, declarou.

Segundo o porta-voz do Manifesta LGBT+, as pessoas a serem recolhidas na Casa Miga são maiores de 18 anos, mas vêm de classes sociais diferentes. Isso mostra que a exclusão causada pela orientação sexual ou identidade de gênero não afeta apenas pessoas humildes, e sim qualquer grupo.

“Quando você sai do seio familiar, torna-se uma questão de proteção social e especial que o Estado precisa fornecer. Por isso, a casa contará com profissionais que tentarão encaminhar essas pessoas para estudos, mercado de trabalho. É bom sempre esclarecer que não vamos bancar a galera LGBT. Há muitos comentários sobre isso. Não podemos acreditar que vivemos numa meritocracia. As pessoas vivem em contextos diferentes e por isso elas precisam de apoios diferentes”.

Sobre isso, Gabriel explica que cada pessoa ficará na casa por até seis meses. “Nesses seis meses vamos articular o que for possível até atingir o seio familiar para reintegrar essas pessoas na sua família. Não vamos sustentar, e sim dar meios para essas pessoas terem autonomia das suas próprias vidas. Isso se chama direitos humanos, quando você tira a pessoa da vulnerabilidade e mostra que com determinados caminhos ela pode recuperar sua vida sem depender de outras pessoas”.

‘Conservadorismo atrapalha a meta’

A Casa de Acolhimento LGBT é apenas um dos projetos defendidos pelo movimento. Considerado apartidário, ou seja, sem vínculo com partidos, o Manifesta ainda defende a criação de políticas públicas a favor dos LGBT, e para isso, menciona em suas atribuições argumentos contra o conservadorismo enraizado na camada política brasileira.

Estudante de Letras, Gabriel Mota cita medidas como a aprovação da Frente Parlamentar Evangélica na Assembleia Legislativa do Amazonas, bem como a reforma da Previdência e do Trabalho como um “retrocesso” para os direitos humanos. O porta-voz argumenta que as medidas condenam o valor dos direitos humanos. “Quando vamos pedir ajuda do Estado e município, eles alegam que não têm orçamento para ajudar. E por que não tem orçamento? Porque o orçamento está sendo reduzido a aprovar emendas parlamentares de interesse do governador, e isso se reflete nas nossas políticas públicas para os direitos humanos”.

Avanços

Por outro lado, se a classe LGBT viu em 2017 medidas que afetam diretamente a luta pela liberdade e igualdade no Brasil e em âmbito mundial, com a eleição do republicano Donald Trump, o público também viu a sociedade discutir sobre transgêneros através de novelas, acompanhou uma drag queen brasileira se apresentando no maior festival de música do mundo, e mais do que isso, assistiu sua bandeira ganhando mais cor num País que mata 1 LGBT a cada 25 horas. O dado é da ONG Grupo Gay da Bahia (GGB).

Sobre isso, Mota acredita que a mídia tem papel fundamental, e acrescenta que o reconhecimento por meio da arte contribuiu para dar visibilidade aos LGBTs, principalmente aqueles que vieram da periferia.

“Hoje quando você vai numa festa, independente do público, Pabllo vai estar lá tocando, e as pessoas têm que saber quem é, e quando veem que ele tem um nome que se refere ao masculino, mas tem performance feminina, você está quebrando paradigmas. Quando você vê uma Mulher Pepita, que tem uma questão da estética, da periferia, representando uma classe marginalizada, também dá visibilidade, e principalmente pra sigla “T”, de travestis e transexuais, que hoje são as que mais morrem no Brasil”, disse.

De forma individual, Gabriel diz perceber um avanço da sociedade após a criação do projeto da Casa Miga. Pelo Instagram, rede que ele considera o local onde ele consegue instigar as pessoas, ele percebe que a ideia da Casa de Acolhimento é a ponta de um iceberg, porém, é capaz de permitir a evolução de políticas públicas ainda mais sérias no sentido de alertar a sociedade.

“E eu recebo feedback positivo da importância de ter uma casa. Já recebi feedback de pessoas que disseram que LGBTs queriam privilégios. Um amigo dessa pessoa foi expulso de casa, e aí ele entendeu que não era privilégio, e sim uma realidade. Então está abrindo muito os olhos das pessoas”.

Objetivos e perspectivas

Embora os cenários político, social e artístico ainda indiquem longos caminhos a serem percorridos, Gabriel Mota acredita que o Amazonas pode avançar em medidas que auxiliem os LGBTs.

Segundo ele, a implementação de lugares voltados para a assistência ajudaria na aplicação de leis como o Plano Nacional de Políticas Públicas LGBTs, de 2009. Ele cobra ainda a efetivação do Sistema Nacional LGBT, lançado em 2013 pelo Governo Federal, mas que nunca foi colocado em prática no Estado.

“No Brasil o movimento LGBT teve uma importância fundamental na ditadura. O ideal para Manaus é que tivéssemos um Centro de Diversidade, um centro onde a população LGBT agredida na rua ou expulsa do emprego procurasse e tivesse uma assistência do estado pra ver o que poderia ser feito, e a partir desse Centro as leis fossem colocadas em prática. E ao lado esse centro, ter uma casa de acolhimento para pessoas expulsas terem esse apoio”.

Para ele, o LGBT só será ouvido quando a sociedade enxergar os direitos humanos como um todo. “A perspectiva é essa. Pensar nos direitos humanos como um todo. O LGBT que é negro, que é mãe, que é pai, que é idoso, deficiente, e que no final das contas é um ser humano”.

Como doar

O Coletivo Manifesta LGBT continua arrecadando doações para a Casa Miga. Para quem quiser contribuir, os interessados podem depositar qualquer valor na página da Casa de Acolhimento no site de financiamento colaborativo Vakinha

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