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Manaus
CONTRASTE SOCIAL

Cem toneladas de alimentos estragam nas feiras de Manaus todos os meses, diz estudo

Brasil está entre os dez países que mais desperdiça alimentos. Todos os anos são cerca de 40 mil toneladas 29/08/2017 às 21:29 - Atualizado em 30/08/2017 às 08:55
Lorenna Serrão Manaus (AM)

 Brasil saiu pela primeira vez do Mapa da Fome em 2014, quando a  prevalência de pessoas subalimentadas no País foi inferior a 5%, segundo a FAO (Organização das Nações Unidas da Agricultura e Alimentação). Mas a fome não deixou de ser um problema. Por fatores como o desemprego, muitas famílias ainda sofrem diariamente sem ter o que comer. E se por um lado falta comida, por outro, há um desperdício enorme. O Brasil está entre os dez países que mais desperdiça alimentos. Todos os anos cerca de 40 mil toneladas de comida são jogados fora, segundo dados do World Resorces Institute (WRI), uma instituição de pesquisa internacional.

Para se ter uma ideia, somente nas feiras de Manaus, mensalmente são desperdiçados pelo menos 100 toneladas de frutas e verduras, segundo informou a Secretaria de Produção, Abastecimento, Feiras e Mercados (Sempab).  

A CRÍTICA foi até a feira da Manaus Moderna, no Centro da cidade, e constatou o desperdício. Mas a nossa equipe também percebeu que nem tudo é jogado fora, há uma quantidade que é reaproveitada por catadores, pessoas que “acampam” próximo ao local de descarte do que, segundo os feirantes, não tem mais condições de ser comercializado. Além disso, alguns alimentos são doados  para igrejas e instituições de caridade. Porém, ainda existe uma boa quantidade de produtos aparentemente saudáveis que vai direto para o caminhão de lixo.


Grávida, Auricélia cata frutas e verduras para vender no Valparaíso

Os feirantes separaram em caixas o que vai ser vendido e o que vai para o lixo. Assim, as frutas e verduras que aparentam não ter mais condições de serem comercializadas são levadas por carregadores para o caminhão de lixo, que fica estacionado bem na frente da feira. No caminho, entretanto, antes dos carregadores despejarem os alimentos no lixo, há uma espécie de triagem feita por homens, mulheres e até crianças. Pessoas desempregadas e que encontraram nas feiras uma opção para sobreviver.

É o caso da dona Maria Elias, 47, que há mais de seis anos sobrevive com o que consegue catar nas feiras. Todos os dias ela chega cedinho   à  Feira da Manaus Moderna para pegar frutas e verduras, que iam para o lixo. 

“A gente não tem trabalho e também não pode roubar. Então, eu venho pra feira para pegar frutas e verduras que ainda estão boas para depois vender. Faço sacolão com o que consigo juntar e vendo de R$ 5 e R$ 10. O que não está tão bom, eu vendo para um senhor que cria porcos. Chego aqui por volta das 5h e fico até às 16h. É assim que consigo todos os dias R$ 20 para pagar o quarto onde durmo com as minhas filhas (de 16 e 22 anos)”, disse dona Maria, que não quis revelar quanto ela consegue juntar por dia.


Dona Maria Elias separa as verduras boas que depois serão ensacoladas e vendidas

Assim como dona Maria Elias, Auricélia da Silva, que está grávida de oito meses, também encontrou na feira o que precisava para sustentar a família. “Meu marido e eu estamos desempregados, a situação está bem complicada. A minha  vizinha me falou sobre a feira, vim um dia e vi que dava pra juntar muita coisa boa e agora venho sempre. Chego bem cedo, por volta das 5h, porque moro no Valparaíso, separo as frutas e verduras, coloco nas caixas e pago alguém pra levar até a parada de ônibus, faço isso pelo menos duas vezes por semana”, contou Auricélia, mãe de quatro filhos e que está a espera do quinto. À nossa equipe ela revelou que fatura em média 70 reais por dia.

Até 30% apodrece

Francisco Ferreira , 48, é feirante há 40 anos e há 26 trabalha na Manaus Moderna, ele conta que a laranja é o que estraga mais rápido. “Trabalho com limão e laranja, vendo um saco com 100 unidades por R$ 35. Chego a vender 60 sacos por dia, mas perco pelo menos dois. A laranja estraga rápido. Às vezes, no caminho até a feira já perdemos 100 frutas. Ela amadurece rápido e, se não vendermos logo, apodrece”, comentou o feirante.

Tarso Lima, 45, trabalha na Manaus Moderna há oito anos, vende verduras e também faz doações para igrejas e instituições. “Vendo pimenta e pimentão, no fim do mês as vendas são fracas e isso também contribui para que muita coisa vá para o lixo, temos um desperdício maior nessa época. Mas também fazemos doações, sempre tem gente por aqui pedindo verdura para fazer sopão em igrejas e casas de caridade”, contou o feirante, revelando que diariamente perde 30% da mercadoria.

Doações ajudam moradores de rua

Na avenida Sete de Setembro, não muito distante da feira da Manaus Moderna, por volta das 10h30 uma fila, formada em sua maioria por dependentes químicos, chama a atenção de quem passa pelo local. A aglomeração é em frente à Comunidade Restaura-me, que desde 2009 realiza um trabalho de evangelização com a população de rua adulta. De terça-feira a sexta-feira, o local distribui almoço para os moradores de rua. Segundo informações da assistente social da comunidade, Adriele Carvalho, são preparadas 100 refeições diariamente.

A comunidade, que pertence à  Igreja Católica de Santa Luzia, só consegue realizar esse trabalho por conta das doações. Fiéis, comerciantes e feirantes da Manaus Moderna doam o necessário para fazer as refeições.

Dona Vângela Maria de Lima, 52 anos, é a responsável por preparar o almoço. Desde que a Comunidade foi fundada ela trabalha como voluntária. “Quando comecei nem sabia que tinha esse dom, nunca imaginei que fosse trabalhar cozinhando, mas desde o início senti vontade de fazer isso, de ajudar o próximo sem esperar receber nada em troca. E é uma satisfação muito grande fazer parte desse trabalho”, contou Vângela, com os olhos cheios de lágrimas e acrescentando que o cardápio depende muito do que as pessoas doam.

“A gente decide o prato do dia de acordo com os ingredientes que temos. Hoje preparei um vatapá de frango, salada de pepino, farofa, arroz e macarrão. Nos dias mais difíceis a gente conta com a providência divina, que nunca falha”, disse a mulher.

Todas as quartas-feiras, missionários da Comunidade Restaura-me vão até a feira da Manaus Moderna pedir frutas e verduras. “Tem feirante que doa aquilo que não vai mais vender, o que eles jogariam no lixo, mas que ainda está em um estado bom. Mas muitos doam frutas e verduras da banca mesmo, aquilo que iriam vender”, revelou a assistente social Adriele Carvalho.

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