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Manaus
Cenário desolador

Vazante coloca em ‘pé de igualdade’ duas regiões distintas da orla de Manaus

O lixo revelado pela descida dos rios iguala duas realidades bem distintas da orla manauara: a foz do Mindu, que “ganhou” um parque e o “esquecido” igarapé do 40 09/10/2016 às 05:00 - Atualizado em 09/10/2016 às 13:53
Silane Souza Manaus (AM)

Enquanto um tem em sua foz uma orla com equipamentos para atividades de lazer e esportivas, além de mirante com visão para o rio Negro, o outro possui uma área degradada e com guarda-corpo em petição de miséria, colocando em risco a vida de quem passa pelo local. Contudo, nesse período de vazante, ambos retratam a grande poluição que atinge, entre outros, os igarapés do Mindu, que deságua no bairro São Raimundo, Zona Oeste, e do 40, no bairro de Educandos, Zona Sul, respectivamente.

Andando pelas áreas onde esses dois grandes igarapés da cidade deságuam é possível encontrar de tudo um pouco. Barcos e flutuantes que ficaram encalhados com a descida das águas, muitos com pessoas morando dentro, catraieiros fazendo a travessia de um lado para outro nos igarapés, a fim de sustentar a família com o dinheiro ganho, catadores de materiais reciclados, que ajudam nas despesas de casa com esse trabalho, e, principalmente, muito lixo espalhado por suas margens.

No período de cheia, a autônoma Sônia Freitas da Silva, 53, mora sobre as águas do igarapé do São Raimundo, onde o Mindu deságua. Na seca, o flutuante da família fica em terra e em meio a um grande volume de lixo. Para ela não há vantagens nessa época do ano. “A gente vive doente por causa da poluição. Tem muito lixo e ninguém passa aqui para retirar. Nós até limpamos o espaço onde ficamos, mas toda vez que chove a chuva traz mais lixo e a sujeira aumenta ainda mais”, comenta.

O catraieiro Geraldo Lopes, 64, ganha o “pão de cada dia” atravessando pessoas de um lado para o outro na foz do igarapé do 40, no Educandos, ou levando-as a qualquer lugar da orla da cidade. Ele afirma que, na vazante, o trabalho fica mais difícil de ser executado. “Quando está seco, há dificuldades para tudo, pois o igarapé fica muito estreito. É melhor quando está cheio, que a água fica mais limpa e dá mais gente para levar de um canto a outro”, conta.

De Oeste a Sul

Assim como no São Raimundo, na extremidade do Centro com o Educandos também impera o acúmulo de resíduos sólidos. Garrafas PETs e plásticos são os tipos de lixo mais comuns encontrados às margens dos igarapé, onde também se acha de tudo: de roupas velhas a eletrodomésticos quebrados e, até mesmo, carcaças de veículos. “É muito lixo. Quando dá uma enxurrada vem mais ainda, principalmente garrafa PET. Também vem pau, eletrônicos e até bicho podre. Tudo o que não presta, que as pessoas jogam dentro do igarapé, vem parar no rio Negro”.

Personagem

Dos 64 anos vividos pela catraieira Matilde Seixas Ramos, 31 foram trabalhando na foz do igarapé do 40. Ela leva as pessoas do Centro ao Educandos ou vice-versa numa canoa. Nesse percurso,  aproveita para juntar latinhas de alumínio pelo caminho para vender e complementar a renda. Matilde é natural de Anori e ainda não conseguiu se aposentar. Para ajudar a família, ela pega no batente às 8h e só larga às 17h.

“Quando vim para Manaus, trabalhei três anos como cozinheira em barco de pesca, mas como queria ficar na cidade, aluguei uma canoa e fui trabalhar como catraieira. Estou há 31 anos nessa beira fazendo a travessia a remo, não quero motor. Todo mundo se admira, diz que eu tenho coragem, mas eu nasci e me criei trabalhando em roçado, toda hora é hora de trabalhar, não sei o que é preguiça. Aqui eu catraio e junto latinha”, relata ela, que só reclama do lixo jogado nos igarapés. “Quando está seco trabalhamos em meio à lama e o lixo. Eu fico fedendo a lama o dia todo porque fico catando latinha. Na cheia é melhor porque tem mais passageiro e a água é menos poluída”.

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