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Manaus
MEDICINA INDÍGENA

Centro de Medicina Indígena tem alta procura de não-índios, dizem coordenadores

Segundo criadores do Centro Bahserikowi’i, que fica no Centro Histórico de Manaus, 90% das consultas realizadas são de mulheres não-indígenas 21/08/2017 às 19:52
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Kummuã Ovído Barreto, 78, é um dos mestres da medicina indígena da etnia Tukano que atende no Centro Bahserikowi’i. Foto: Antônio Lima
Kelly Melo Manaus (AM)

Criado há pouco mais de dois meses, o primeiro Centro de Medicina Indígena da Amazônia - Bahserikowi’i – já atendeu mais de 300 pacientes com doenças físicas e da alma, segundo os idealizadores do projeto. Mas o que mais chama a atenção é que 90% do público atendido é formado por pessoas não-indígenas. Há pacientes que vêm até de São Paulo em busca da cura não alcançada pela medicina tradicional.

Idealizador do Centro, João Paulo Barreto, da etnia Tukano e filho de um dos Kummuã (ou pajés), acredita que a busca pela medicina indígena se deve ao fato de muitos pacientes serem  “desenganados” pelos médicos ou não encontrarem respostas positivas para curar os males que os acometem. Segundo ele, através da cultura indígena, é possível encontrar até a cura para doenças como o câncer.

Um dos motivos para a criação do Centro de Medicina Indígena é a não aceitação das técnicas dos povos tradicionais pelo Sistema de Saúde. “A medicina oficial enxerga a medicina indígena como alternativa, ou seja, complementar. Mas estamos desenvolvendo estudos para comprovar que temos outros conceitos, outros conhecimentos, e isso precisa ser levado em consideração”, disse o Tukano, que é doutorando em Antropologia.

O consultório indígena funciona em uma casa no Centro Histórico de Manaus, na rua Bernardo Ramos, e conta com uma equipe de recepcionistas, dois intérpretes e dois pajés (ou Kummuã) que realizam os atendimentos diariamente. Durante as consultas, o Kummuã ouve o paciente e receita o medicamento (à base de produtos naturais) ou faz o benzimento (Bahsese) para afastar as dores e os incômodos que a pessoa esteja sentindo.

De acordo com a equipe,  dos 339 atendimentos realizados até a última semana, 90% são de mulheres com mais de 30 anos que buscam, principalmente, resolver problemas ligados à infertilidade. Os outros 10% são atendimentos a crianças e adolescentes (9%) e homens (1%).

Satisfação

O Kummuã Ovídio Lemos Barreto, 78, que também pertence à etnia Tukano, afirmou que se sente com o dever cumprido quando  os pacientes retornam e afirmam que foram curados. “Nós estamos prontos para atender e ficamos felizes como o resultado porque muitas vezes as pessoas chegam aqui desacreditadas. Nós fazemos o possível  para cumprir o nosso papel”, relatou ele. “Essa é a prova de que o nosso conhecimento, nossa experiência, tem um resultado positivo e que a nossa medicina é eficiente. Estamos consolidando o nosso espaço”, destacou o Kummuã.

Embrionário

Um drama ocorrido em 2009, na família de João Barreto,   foi o embrião para a criação do Centro, quando sua sobrinha, Luciane Trurril Barreto, 12, teve a perna direita picada por uma jararaca na comunidade São Domingos, em São Gabriel da Cachoeira. Trazida para Manaus, os médicos não aceitaram o tratamento conjunto.  O caso foi parar no Ministério Público Federal (MPF) que recomendou que o tratamento fosse aceito.

Centro Bahserikowi’i também oferece artesanato indígena

Além dos atendimentos com os Kummuãs,  no Centro de Medicina Indígena, no Centro,  também é possível encontrar medicamentos naturais a partir de ervas medicinais como a copaíba, andiroba, sucuuba, entre outras, trazidas da  comunidade indígena  São Francisco Tauamirim. Além disso, índios de várias etnias como Baniwa, Dessana,  Tukano, Tuyuka, expõe para venda produtos de artesanato.

A casa fica aberta no período da manhã, das 8h às 12h, e da tarde, das 13h às 16h, mas os atendimentos também podem ser feitos a domicílio, de acordo com a necessidade do paciente.

Os tratamentos podem durar uma semana ou até um ano e são cobrados dependendo da complexidade da doença apresentada pelo paciente.

O Centro de Medicina Indígena é o primeiro criado na  Amazônia. “Isso representa o resgate da nossa cultura que não pode morrer e tem que ser vista da melhor forma possível”, salientou João Paulo Barreto, idealizador do projeto.

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