Sábado, 24 de Julho de 2021
ALERTA

Cheia do rio Negro coloca em xeque estrutura de prédios e construções históricas de Manaus

Especialistas ouvidos por A CRÍTICA alertaram pela necessidade de reformas e modificações nos alicerces das estruturas mais antigas, anualmente afetadas pela água ácida do rio Negro



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19/06/2021 às 05:45

Todos os anos acontece na capital e no interior do Amazonas o fenômeno da cheia dos rios. Na última sexta-feira (18), o nível do Rio Negro atingiu a cota de 30,02 metros - quebrando mais uma vez o recorde centenário. Diversos são os problemas que as cheias causam na sociedade amazonense. Mas, dentre eles, um grande impacto sentido apenas a longo prazo é a deteriorização da estrutura de prédios e construções históricas do Centro de Manaus.

Segundo o presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Amazonas (CAU/AM), Jean Faria dos Santos, os prédios históricos do centro de Manaus estão submetidos a diversos impactos em sua estrutura devido a acidez do rio Negro durante a cheia.



“Os prédios antigos localizados na área central da capital podem ser afetados nas suas bases, fundações, armaduras de ferro e argamassas de ligação, seja reboco ou as pedras que compõem a sua alvenaria. Como a água do rio Negro é ácida pode, ao longo do tempo (isso ficando muito tempo submerso) e vários anos seguidamente, sem algum tipo de manutenção prévia ou aplicação de alguma película que proteja, pode ser afetada sim”, afirmou o presidente.


Antigo prédio da Receita Federal, no Centro Histórico de Manaus, também é um dos afetados pelas águas da cheia. Foto: Junio Matos

Jean Faria, que é arquiteto e urbanista, não descarta a possibilidade de até desmoronamentos destes prédios históricos caso não sejam cuidados.

“Esse risco em função do tempo de inundação e ao longo dos anos podem em último caso deixar o solo mais mole e esse solo sentar ou fazer com que o prédio desloque um pouco e assim desmoronar. Isso é algo longo, não vai acontecer ano que vem. Mas daqui a dez, quinze anos isso pode vir acontecer”, alertou o arquiteto.

Um dos fatores que podem implicar na deterioração dos prédios históricos é a obstrução do escoamento das tubulações de saída de drenagem por conta do alto nível do rio Negro.

A gerente de hidrologia do Serviço Geológico do Brasil em Manaus (CPRM), engenheira civil Jussara Cury, relembra um caso de prédio histórico que teve que ser demolido no passado, após o surgimento de uma cratera causada por essa obstrução.

“Esse prédio foi construído em cima de um poço de visita da rede de drenagem, que devia está obstruído em alguns anos, a água servida ficou erodindo a base do prédio que tinha aterro e uma estrutura não tão boa”, comentou a engenheira.

A Feira da Manaus Moderna é um outro ponto que, apesar de não correr o risco de desabamento, também sofre pelo mesmo problema.

“Olha essa situação da Feira da Manaus Moderna, o nível do rio está muito próximo ao nível da rua, a tubulação da saída de drenagem está com escoamento retido porque o nível do rio atualmente está acima dessa cota de saída. Uma das causas de retenção”, destacou a gerente de hidrologia.


O prédio da Alfândega portuária de Manaus é um dos primeiros a sofrer com a chegada das águas. Foto: Junio Matos

Soluções 

Para evitar que possíveis desastres aconteçam, Jean Faria propõe a sanitização de igarapés como uma das soluções para tentar mitigar os efeitos da cheia nestas construções.

“Seria muito tranquilo se utilizássemos nossos igarapés para ajudar a receber essas cheias. Nossos igarapés estão comprometidos, cheio de lixo, matas ciliares comprometidas. Uma boa mitigação é fazer um rebaixamento do igarapé para que ele possa voltar ao normal. Se conseguirmos fazer com os igarapés recebam essa capilaridade toda, a gente pode amenizar o volume de água que entra ali no centro. Além do incentivo a educação da nossa população”, propôs o presidente do CAU/AM.

Outro meio de evitar esses problemas é a manutenção preventiva dos espaços que sofrem com a inundação do rio Negro.

“A solução que tem é a manutenção preventiva. Isso com a ajuda do Patrimônio Histórico com profissional habilitado. Quando o rio retrocede, ver o que aconteceu, fazer o reparo, aplicar uma camada impermeabilizante de proteção para fazer com que esses prédios tenham uma vida útil mais longa. A gente sabe que se continuar essas cheias históricas todos os anos, vai ser preciso mais ainda as manutenções preventivas”, acrescentou o arquiteto.

Além destas, a engenheira civil Jussara Cury ressalta a importância de estações elevatórias que possam bombear a água retida.

“Não sei bem o que os órgãos estão pensando, mas o ideal seriam soluções para a água servida não ficar retida. Bombear por meio de estações elevatórias no centro comercial, como a do bairro Educandos que fica próximo à orla”, concluiu a engenheira civil.

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Repórter de A Crítica
Amazonense, nascido e criado em Manaus. Graduado em Jornalismo e mestrando em Antropologia Social, ambos pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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