Quinta-feira, 04 de Junho de 2020
INOVAÇÃO

Cientistas do AM comprovam efeito anti-hipertensivo do gengibe amargo

Nova fase do estudo investiga se o óleo essencial de gengibre amargo tem capacidade de reverter os danos causados pela hipertensão em órgãos alvos da doença



12345_6D71C281-A921-4CC2-9F29-B6856E207F08.JPG Foto: Carlos Cleomir/Fapeam
10/03/2020 às 12:29

Um estudo experimental com animais em laboratório demostrou que uma substância isolada do óleo essencial do gengibre amargo, planta de origem asiática, mas adaptada à região Norte, tem efeito anti-hipertensivo, ou seja, é capaz de reduzir a pressão arterial. A nova fase do estudo, que tem o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), investiga se a substância tem capacidade de reverter os danos causados pela hipertensão em órgãos alvos da doença, como o coração, os vasos sanguíneos e os rins.

Os pesquisadores responsáveis pelo estudo avaliaram a atividade biológica do óleo essencial e seu composto majoritário sesquiterpeno, sobre a função vascular, renal e metabólica em linhagem de ratos Wistar.



O projeto “Avaliação da atividade biológica de Zingiber Zerumbet (L.) Smith sobre o sistema cardiovascular e renal em ratos normotensos e hipertensos” foi desenvolvido no Laboratório de Farmacologia Experimental do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e, amparado pelo Programa Universal Amazonas, Edital nº 030/2013.

O processo de extração, purificação, isolamento e caracterização química do produto vegetal foi realizado em parceria com o Laboratório de Bioprospecção de Produtos Naturais do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), sob orientação do prof. dr. Carlos Cleomir de Souza Pinheiro, ainda com a colaboração da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo – Ribeirão Preto (SP), Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Goiás (UFG) e Instituto Leônidas e Maria Deane (Fiocruz-Amazônia).

Em 2017, o estudo recebeu da Pró-Reitoria de Pós-Graduação em Pesquisa (Propesp) o prêmio de melhor dissertação da Ufam desenvolvida no Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Imunologia Básica e Aplicada (PPGIBA).

Gengibre amargo

De acordo com o coordenador do projeto, José Wilson do Nascimento Corrêa, as doses testadas revelaram que o óleo essencial obtido dos rizomas (raízes) do gengibre amargo apresentaram efeito anti-hipertensor, com significativa redução da pressão arterial de ratos hipertensos (pressão arterial elevada), sem modificar a pressão arterial de ratos normotensos (pressão arterial normal), logo nos três primeiros dias de tratamento. Os estudos foram capazes de isolar o composto majoritário presente no óleo e, a partir daí, explicar como o efeito de redução da pressão arterial acontece.

Os experimentos in vitro e in vivo demonstraram que o sesquiterpeno isolado, presente no óleo essencial, possui capacidade vasodilatadora sobre as aortas de ratos, ou seja, o efeito dessa substância parece estar associado à capacidade do composto em promover a dilatação dos vasos sanguíneos, isto é, aumenta o diâmetro do vaso, reduzindo a tensão provocada pela hipertensão na parede das artérias.

Os resultados promissores do experimento podem vir a favorecer, futuramente, a utilização dessa substância por pacientes que sofram de doença cardiovascular, talvez como estratégia adicional para o tratamento da pressão arterial.

“Cabe aos pesquisadores analisar a toxidade da substância, a ocorrência de possíveis efeitos adversos sobre o organismo e, definir a dose ideal a ser utilizada em um possível medicamento para o tratamento em humanos”, disse Corrêa.

Metodologia

Para avaliar a atividade biológica, in vivo, ratos Wistar machos foram divididos em dois grandes grupos: hipertensos e controle (pressão normal). O grupo hipertenso foi submetido a um procedimento cirúrgico para indução da hipertensão arterial e, o grupo controle passou por procedimento semelhante, exceto uma etapa e, portanto não desenvolveu a hipertensão. Os animais hipertensos e controle foram subdivididos em outros dois grupos, totalizando quatro grupos experimentais.

Conjuntamente, os subgrupos de animais hipertensos foram tratados durante 21 dias, por via oral, com óleo essencial do gengibre amargo ou veículo (solução utilizada para diluir o óleo). Ratos do grupo controle (normotensos) não apresentaram alteração em sua pressão arterial, seja com o tratamento com veículo ou com o óleo essencial.

Entretanto, ratos do grupo hipertenso que receberam apenas o veículo se mantiveram com pressão elevada, acima de 200mmHg, enquanto os ratos hipertensos que receberam o tratamento com o óleo essencial tiveram sua pressão reduzida ao nível dos ratos com pressão arterial normal (normotensos).

Importância do estudo 

Indivíduos com hipertensão estão mais propensos a desenvolver problemas no do coração, vasos sanguíneos e rins. Eventualmente, isso pode contribuir com a disfunção e falência desses órgãos causando, por exemplo, derrames cerebrais, doenças cardiovasculares como infarto, insuficiência cardíaca (aumento do coração), angina (dor no peito), insuficiência renal ou paralisação dos rins e alterações na visão que podem levar à cegueira.

Mesmo em tratamento, as pessoas podem necessitar da combinação de vários tipos de medicamentos para controlar a pressão arterial. O uso de vários fármacos pode contribuir com o aparecimento de reações adversas e interações medicamentosas que podem prejudicar ainda mais a saúde desses indivíduos, o que indica a necessidade constante de pesquisas e inovação nesta área.

“Por este motivo, a nova fase de nosso estudo busca entender se o componente majoritário do gengibre amargo ou seu óleo essencial, ao atuarem diretamente sobre os órgãos, seriam capazes de protegê-los dos malefícios causados pela hipertensão”, explicou José Wilson.

Universal Amazonas

O programa tem o objetivo de financiar atividades de pesquisa científica, tecnológica e de inovação, ou de transferência tecnológica, em todas as áreas do conhecimento, que representem contribuição significativa para o desenvolvimento socioeconômico e ambiental do estado do Amazonas, em instituição de pesquisa ou de ensino superior ou centros de pesquisa, públicos ou privados, sem fins lucrativos, com sede ou unidade permanente no estado. A última edição do Programa foi lançada em junho de 2019.

*Com informações da assessoria

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