Sexta-feira, 23 de Agosto de 2019
Desigualdade

CMM aprova PL que proíbe a discussão sobre ideologia de gênero nas escolas municipais

A aprovação da proposta garante, segundo o idealizador do PL, vereador Marcel Alexandre, que as crianças sejam privadas da 'ideologização de gênero' e que hoje a educação brasileira, aliada a psicologia, engatinha nessa discussão, não possuindo, portanto, base científica



1019273.jpg Com a aprovação da Casa Legislativa, o PL segue para a sanção do prefeito Artur Neto (Foto: Tiago Corrêa/CMM)
12/12/2016 às 15:28

A Câmara Municipal de Manaus (CMM) aprovou, nesta segunda-feira (12), o projeto de lei que proíbe na grade curricular das escolas municipais a discussão sobre ideologia de gênero. A aprovação da proposta garante, segundo o idealizador do PL, vereador Marcel Alexandre (PMDB), que as crianças sejam privadas da “ideologização de gênero” e que hoje a educação brasileira, aliada a psicologia, engatinha nessa discussão, não possuindo, portanto, base científica.

Com a aprovação da Casa Legislativa, o PL segue para a sanção do prefeito Artur Neto (PSDB).

“Nós lidamos com ensino básico e o que temos hoje são conceitos biológicos, e querem fazer uma ideologização de gênero. Isso é arriscado, hoje não temos absolutamente nada que fundamente essas percepções novas e eu não acho que a gente deva expor as nossas crianças a filosofias de interesse de A, B ou C. Devemos privá-los e ensinar o princípio, demais discussões se vão a nível universitário, que já estão pensando em fazer pós-graduação no tema para melhorar as discussões. A psicologia americana está muito mais avançada que a gente, o que temos hoje são militâncias nas escolas, então devemos proteger os nossos alunos dessa coisa indefinida. Quando tivermos alguma coisa científica, que respalde, aí podemos transformar isso em conhecimento. Por hora é aventura, militância, é gramscismo imbecilizante, e não posso expor as nossas crianças”, disse o vereador.

Desigualdade
Segundo a mestra em antropologia Flávia Melo, a ideologia de gênero é um conceito levantado em âmbito Legislativo para atacar a teoria de gênero, essa sim, um campo de estudo acadêmico que se fortificou a partir da década de 1960 no Brasil. Na época, chamada apenas de estudos sobre mulheres, a teoria adveio da vontade de pesquisar sobre a desigualdade social entre os sexos e proveu uma base forte ao movimento pelos direitos femininos.

Curiosamente, esse lado simplesmente não aparece nos debates legislativos, que se atêm quase que de forma exclusiva à repressão de assuntos relacionados a comportamentos homo e transexuais.“A gente tem que questionar porque se privilegia tanto a disseminação desse pânico moral em relação à homoafetividade a ponto de eclipsar toda a contribuição desses estudos para a garantia dos direitos das mulheres e dos direitos LGBT. Isso não é acidental”, afirmou a pesquisadora.

Ela reforça que são os mecanismos de desigualdade entre os sexos estudados e combatidos pela teoria de gênero que geram casos como os recentes e hediondos casos de estupro coletivo, ocorridos no Rio de Janeiro e no Piauí, em 2015 e maio deste ano, que chocaram o País.

“A cultura do estupro é indissociável dessas formas conservadoras de pensar a sexualidade e da recusa sistemática em tratar desses temas. Nesse sentido, é fundamental que a gente pense o que autoriza aos homens, em termos culturais, sociais e comportamentais, a esse tipo de conduta, e que autoriza que esse tipo de episódio apareça de forma jocosa em programas de humor e seja aplaudido, inclusive por mulheres”, disse Flávia.

Para ela, o maior legado dos estudos de gênero é a problematização dessas questões, essencial para um maior respeito e entendimento das diferenças. “Eu acredito que banir o gênero da educação brasileira e invisibilizar experiências de vida que revelam outras formas de sexualidade e de gênero é ser conivente com a cultura do estupro”, declarou.

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