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Manaus
Sumiu em bueiro

Com aproximadamente mil bueiros abertos, drama de menino de 7 anos era esperado

Após o desaparecimento de Gustavo Silva Araújo, 7, a Seminf enviou equipe à rua Louro Chumbo, no Monte das Oliveiras, Zona Norte, para colocar o gradil no bueiro onde a criança caiu 25/10/2016 às 09:48
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Parentes e amigos ajudam bombeiros nas buscas pelo menino de sete anos (Foto: Aguilar Abecassis)
Janaína Andrade Manaus (AM)

Apaixonado como muitos meninos de sua idade por brincar de bola, Gustavo Silva Araújo sonhava em ser jogador de futebol. No domingo, a tarde, aos sete anos, desapareceu após cair em um bueiro quando brincava com seu primo em frente à casa da avó materna, na rua Louro Chumbo, no Monte das Oliveiras, Zona Norte.

Gustavo é o quarto, de cinco filhos do casal Elenice Alves da Silva, 33, e Antônio Araújo, 43. Desde que desapareceu, o pai e outros parentes ajudam o Corpo de Bombeiros nas buscas, que duram mais de 48 horas. A mãe não consegue dormir e toma somente água com açúcar como calmante, enquanto aguarda, sentada na escada de casa com uma toalha pequena para enxugar as lágrimas, o filho voltar.

“Se Deus ajudar, ele vai voltar. Eu não perdi as esperanças, quero que meu filho volte para a família dele. Não penso em mais nada. Mas Deus sabe o que faz, né? O meu menino vai voltar”, disse Elenice, ontem à tarde,.

A criança é descrita pela mãe como um filho “carinhoso e que adorava brincar”. “De manhã ele ia para a escola, chegava em casa e sempre adiantava a tarefa. E se ele não estava jogando bola no final da tarde, sentava com o lanche dele na frente da TV e ficava assistindo desenho. Ele adorava assistir desenho, era a segunda coisa que mais amava fazer”, relatou a mãe.

Elenice e Antônio moram há treze anos numa casa de alvenaria com cozinha, um banheiro e dois quartos, sendo um improvisado, na avenida Preciosa, paralela a rua Loura Chumbo. O casal sustenta Gabriel, 14, Douglas, 10, Hellen Vitória, 1, e Gustavo com a venda de banana frita no centro da cidade. A filha mais velha, Elissandra, de 16 anos, é criada pela avó paterna.


Família do pequeno Gustavo (Foto: Evandro Seixas)

“Nós nunca conseguimos emprego de carteira assinada, mas nunca paramos de trabalhar por conta própria na venda de banana. Quando o Gustavo desapareceu ontem (domingo à tarde) nós tínhamos saído para trabalhar, vender banana”, afirmou.

Na noite de domingo para segunda-feira, Elenice contou que a caçula, de um ano, que dormia com Gustavo na cama do casal, não dormiu.

“Ela sente a ausência do irmão. Os meus outros filhos estão angustiados, só querem que ele volte. O Gustavo e ela dormiam na cama comigo e o meu marido. Ela só sabia dormir encostada nele. E ele só sabia dormir no ombro do pai. Ele sempre foi muito carinhoso com o pai”, contou emocionada.

Ontem, mesmo após escurecer, Elenice, ao lado de familiares e vizinhos, permanecia sentada em frente da casa da mãe, onde aguardava notícias das equipes de busca.

“Vou ficar aqui. Esperando meu marido voltar com o Gustavo...vivo. Ele só é uma criança”,

Serviço feito após tragédia

Após o desaparecimento de Gustavo Silva Araújo, 7, a Secretária Municipal de Infraestrutura (Seminf) enviou equipe à rua Louro Chumbo, no Monte das Oliveiras, Zona Norte, para colocar o gradil no bueiro onde a criança caiu.

Além do bueiro onde Gustavo caiu e desapareceu, a Seminf iniciou a implantação de gradis em outros bueiros de ruas vizinhas do bairro.

A tia de Gustavo, Eline Alves da Silva, 39, lembrou que não apenas este bueiro, mas outros de ruas paralelas assombram os moradores.

“Foi preciso o meu sobrinho cair aqui, desaparecer, e até agora não o acharam, para a prefeitura vir. Uma moça caiu nesse mesmo bueiro há sete anos e até hoje não havia sido colocado um novo gradil, agora colocaram, solucionaram. E ‘pro’ meu sobrinho aparecer vivo? Como que faz?”, desabafou Eline.

Familiares afirmaram que servidores da Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (Semasdh) também estiveram no local.

“Falaram que a gente poderia contar com eles para o que precisasse. Trouxeram um colchão de solteiro e deixaram na minha casa. Deixaram também o telefone para contato. Mas isso não alivia a minha agonia”, disse Elenice Alves da Silva, mãe de Gustavo.

Ontem, o Corpo de Bombeiros encerrou as buscas por Gustavo às 17h30, de acordo com o soldado Denys. As buscas, segundo ele, retornam nesta terça-feira, às 8h. As buscas contam com uma equipe de 25 bombeiros, divididos em botes e também por terra. Parentes também ajudam nas buscas.

A menina que ‘nasceu de novo’

A estudante Isabel Pinheiro, 13, passou pelo mesmo drama que o ocorrido com o pequeno Gustavo Silva Araújo, mas sobreviveu para contar a história. Há seis anos, quando tinha os mesmos 7 de anos do garoto, ela também estava brincando na mesma rua, a Louro Chumbo, quando escorregou e foi tragada pelo mesmo bueiro no qual ele caiu. E desde aquele tempo, até o último domingo, o local continuava aberto.

A menina percorreu os cerca de 200 metros de tubulações até desembocar no igarapé do Passarinho, onde passou por mais apuros: só não morreu afogada porquê segurou em um galho, o tempo bastante para ser socorrida por moradores que jogaram uma corda em direção a ela. “Eu pensei que ia morrer. O lugar onde eu caí era escuro e pequeno e a água caía no meu ombro. Fiquei orando e Deus me ajudou. Depois eu parei de brincar na rua. Fiquei traumatizada”, conta ela, que até hoje não sabe nadar.

“Esse fato de agora me fez relembrar o que aconteceu comigo. Fiquei triste. Foi horrível. Enquanto há vida, há esperança”, diz ela, pedindo providências para tapar os bueiros “boca de lobo” abertos.

Números

3 Crianças, nos últimos seis meses, foram vítimas de bueiros destampados na periferia de Manaus. No final de abril, André Pereira Crescenço, 6, morreu ao cair em um bueiro no bairro Novo Aleixo, Zona Leste. Situação semelhante tirou a vida, em maio, de Guilherme Guerreiro, 7 anos, no Alvorada 2.

Colaborou: Paulo André Nunes

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