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Com histórias em comum, apaixonados por aviação enfrentaram desafios para realizar sonhos, em Manaus

Dono da Parintins Táxi Aéreo, Mauro Paulino morava no bairro São José Operário, na Zona Leste, e cortava caminho, de bicicleta, pela estrada do Aeroclube de Manaus. Já Edson vendeu a casa para ‘voar’ atrás do sonho de ser piloto. 23/10/2015 às 16:36
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O Azul do céu do Amazonas sempre foi uma fixação desses aficcionados pela aviação
Luana Carvalho Manaus (AM)

As histórias de vida do empresário Mauro Paulino, 37, e do piloto Edson Portela, 33, retratam dois homens simples, mas cheios de objetivos. Movidos pelo sonho de alçar voos pela imensidão azul do céu de Manaus, nunca desistiram ao encontrar obstáculos em terra. Pelo contrário: as dificuldades os ajudaram a serem pessoas realizadas. Hoje, eles agradecem a Deus e a esta cidade, que completa 346 anos. 

Dono da Parintins Táxi Aéreo, Mauro Paulino morava no bairro São José Operário, na Zona Leste, e cortava caminho, de bicicleta, pela estrada do Aeroclube de Manaus, onde gastava alguns minutos do trajeto observando os aviões. “Eu limpava terrenos e pintava muros em algumas casas naquela região. Todo dia fazia esse caminho de bicicleta quando a estrada ainda era de barro”, relembra. 

O que ele não imaginava é que, aos 17 anos, um dos donos das casas que ele limpava o convidaria para trabalhar como abastecedor de aviões no aeródromo de Flores. “Fui chamado pelo ‘seu’ Márcio e comecei em 1995, abastecendo e lavando avião. Desde então, vim para cá e não saí mais”.

Com tempo e disposição de sobra, Mauro passava os dias e as noites no trabalho. “Vinha trabalhar na segunda-feira de manhã e só saia no domingo à noite para levar algum dinheiro pro meu pai e retornava”.  Ele dormia dentro de um hangar, que hoje o pertence. “Esse hangar era de madeira e eu arrumava um jeito de dormir aqui. Essa foi minha rotina durante uns sete anos”. 

Sonho

 Determinado, Mauro tinha convicção de que um dia teria seu próprio avião. “Arrumei um emprego com o Cleiton Sérgio, que tinha uma aeronave. Naquela época os garimpos na região de Maués e Itaituba estavam em alta e ele sempre fazia viagens para lá, levando e trazendo encomenda. Foi quando comecei a ajudá-lo e montamos o primeiro escritório dele, no qual fui gerente, em 2002”, revela. 

Depois de acumular experiências, o empresário pediu desligamento da empresa em 2008 e, com o dinheiro da rescisão e ajuda das economias que fez, comprou a empresa Parintins Táxi Aéreo, sem nenhuma aeronave. “Como eu já tinha conhecimento e alguns clientes, arrendei uma aeronave, e o que sobrava, dava para pagar a empresa. Nessa época, voltei a trabalhar diurnamente”. 

Atualmente, Mauro é proprietário de cinco aeronaves bimotor e também tem uma oficina de manutenção de aviões.  Dos nove empresários do ramo em Manaus, ele é o único nascido aqui. “Para mim, ser dessa cidade já é gratificante. Eu digo para todo mundo que aqui é um lugar de oportunidades. Basta querer trabalhar. Estamos numa cidade acolhedora, de um povo de bom coração, sem desconfianças. Quem tiver determinação, se dá bem nesse lugar”, garante. 

Troca ousada 

No roçado do pai, em Mojuí dos Campos, interior do Pará, Edson Portela, 33, plantava arroz, milho e feijão todas as manhãs para, durante a tarde, ir à escola. Os aviões, que passavam bem distante, são as melhores lembranças da infância. “Eu não perdia um olhar para eles. Era uma alegria muito grande quando conseguia ver um avião”. 

Em 1997, ele, os pais e sete irmãos resolveram buscar uma vida melhor em Manaus. Foram morar no bairro Cidade de Deus, na Zona Norte. “Naquela época era o início da invasão. Cheguei com 14 anos e fui vender picolé no Centro para ajudar meu pai. Depois fui bombonzeiro. Meu pai ficava preocupado porque eu só tinha 16 anos. Então arrumei um emprego como estoquista, em um mercadinho no próprio bairro”, relata.

Aos 18 anos, se alistou e serviu ao Exército Brasileiro. Lá, ele foi designado para a garagem e tirou todas as categorias de habilitação. Em 2007, quando saiu do quartel, foi trabalhar como motorista de carreta. “Passei cinco anos transportando contêiner, mas queria ir um pouco mais alto”, lembrou.

Diferente do estereotipo que muitos imaginam, de que todos os pilotos são de famílias ricas, Edson teve que batalhar muito e desistir de alguns sonhos para concluir o curso. “Eu queria meu certificado de piloto comercial e, na época, estava construindo minha casa e já tinha família. Vendi a minha casa para viajar para São Paulo, onde os cursos eram mais baratos”, explicou. 

Exemplo de que nunca é tarde para começar, no início deste ano, com 33 anos, Edson conseguiu seu emprego como piloto. Ele ainda mora alugado e não conseguiu refazer os bens dos quais abriu mão para a realização do sonho, mas a palavra ‘arrependimento’ não faz parte do vocabulário do piloto.  “Nem ouso falar isso, pois nunca me arrependerei do que fiz pelo meu sonho. Apesar de ter começado tarde, minha carreira está em ascensão e, graças à minha família, a Deus, a esta cidade e à minha dedicação, consegui chegar onde estou hoje. Serei eternamente grato”.



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