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Manaus
‘Com os dias contados’

‘Com os dias contados’, feiras de Manaus amargam abandono e falta de clientes

Devido problemas estruturais em excesso e consumidores em falta nas feiras tradicionais da cidade, feirantes têm fechado seus boxes e procurado outras atividades 13/06/2016 às 20:17 - Atualizado em 14/06/2016 às 09:00
Juliana Geraldo Manaus

“Às moscas”, “entregue às baratas” e “com os dias contados”. Essas são algumas das expressões usadas por comerciantes e frequentadores de feiras tradicionais da capital amazonense. Com problemas estruturais em excesso e consumidores em falta, feirantes ouvidos por A CRÍTICA contam histórias de abandono nas estruturas e temem que feiras com mais de 40 anos de existência fechem suas portas por falta de público e de vendedores que, sem incentivo, têm fechados seus boxes e procurado outras atividades.

Manoel Quintela de Moura, 71, que há 40 anos vende carne na Feira Municipal do Japiim 2, na avenida Rodrigo Otávio, Zona Sul, diz que a situação é de sobrevivência. “Lucro mesmo é muito pouco. Já cheguei a lucrar R$ 1,8 mil em um fim de semana e hoje consigo no máximo R$ 60 em um domingo. É triste”, lamentou.

Segundo ele, além da concorrência de supermercados e açougues próximos, a situação deficitária no espaço tem espantado clientes e feirantes. “Falta estrutura básica, um bom estacionamento para os fregueses, uma energia elétrica que não ‘caia’ toda hora, estragando os produtos. O resultado por enquanto é esse: mais da metade dos 60 boxes fechados em um dia de domingo e freguesia apenas nas bancas de café da manhã”, analisou.

A presidente da comissão gestora do espaço, Elza Melo, 50, que trabalho no local há 17 anos, não acredita que a feira chegue a fechar as portas por falta de clientela ou de feirantes, mas diz que manter o espaço em funcionamento é cada vez mais difícil. “A secretaria de feiras e mercados mantém a água e a luz (energia elétrica), mas todo o resto nós é que custeamos. Cada permissionário paga R$ 8 por semana, mas como muitos têm entregado seus espaços, a conta tem ficado apertada”, queixou-se.

‘Cadê o peixe?’

Na feira municipal do Coroado 3, na Alameda Cosme Ferreira, Zona Leste, a sensação de vazio é ainda maior. Nas manhãs de domingo, menos de dez boxes dos 52 existentes abrem para atender o público. Há poucas mercadorias disponíveis e apenas na parte frontal da feira, não há venda de peixes ou carnes e nem café da manhã.

A feirante Adriana Gomes, 37, diz que uma das principais razões para o esvaziamento do local foi a mudança estrutural provocada por uma reforma realizada há dois anos, que teria “escondido” os vendedores de peixe nos fundos da feira, deixando de atrair compradores. “O peixe é a ‘alma’ da feira. A pessoa vem para comprar peixe e depois acaba precisando levar outros itens, como cebola e cheiro verde. Mas com os boxes de peixe nos fundos, ninguém vê e não entra na feira e aí o vendedor também não quer ficar. As secretarias precisam trabalhar junto com o feirante quando forem mudar alguma coisa. Nós que vivemos o dia a da feira é que sabemos o que funciona”, explicou.

Para ela, existe, sim, o risco de a feira deixar de existir e passar a ser somente um espaço para bares e alimentação. “Pra comprar mesmo vem pouca gente. Antes, eu comprava 300 quilos de pimentão e oito caixas de tomate para dar conta da demanda. Hoje, com dez quilos de pimentão e uma caixa de tomate eu passo o mês todinho para conseguir vender”, comparou.

Suplício por melhorias

Tanto comerciantes quanto fregueses pedem dos órgãos responsáveis medidas que possam permitir a continuidade desses espaços tradicionais. Mas, independente dos reparos, avisam que não vão desistir.   “Enquanto eu estiver em pé, vou continuar trabalhando na feira”, garantiu Anísio Alves, 82, que há 50 anos vende legumes e verduras no Mercado Municipal Senador Cunha Melo, na avenida Constantino Nery.

Ele diz que enfrenta dificuldades diárias para vender os poucos produtos que ainda traz para a feira, mas que não pretende parar. “Se eu parar de vir pra cá eu morro. Essa feira é minha vida”, emociona-se.

Já a aposentada Cleide Lima, 65, diz que ainda é vantagem comprar algumas coisas na feira, mas que com uma estrutura melhor e principalmente condições de higiene, muitas pessoas ainda poderiam se beneficiar. “Infelizmente só posso comprar aqui produtos lacrados ou verduras com casca que eu possa lavar em casa porque o local está literalmente entregue às baratas e elas passam por cima dos produtos. É triste”, lamentou.

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