Sexta-feira, 19 de Abril de 2019
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DE TRADIÇÃO AO ESQUECIMENTO

Com problemas de infraestrutura, mercados municipais de Manaus são o retrato do descaso

Sem investimento da prefeitura e perdendo espaço para supermercados e feiras ao ar livre, o mercadões não são mais tão movimentados como há alguns anos


03/04/2017 às 05:00

Os mercados municipais de Manaus correm o risco de ficar apenas na história e na memória de comerciantes e dos clientes mais antigos. Sem investimento da prefeitura e perdendo espaço para supermercados e feiras ao ar livre, o mercadões não são mais tão movimentados como há alguns anos.

O mercado municipal Walter Rayol é um dos mais antigos e conhecidos da cidade, mas é, também, um dos que mais sofre com a falta de gestão e investimentos. Segundo o comerciante Antônio Pereira, 73, que trabalha há mais de 43 anos no local, a prefeitura de Manaus simplesmente abandonou os mercados.  “O Arthur (Neto) já está no segundo mandato e nunca apareceu aqui. Como administrar se não conhece a estrutura? Estamos abandonados aqui”, disse.

O comerciante afirmou que não há qualquer planejamento ou estratégia por parte da prefeitura para atrair os clientes para lá. “Eles não fazem nada em prol desse mercado, mas também não deixam a gente administrar. Nós estamos aqui e sabemos o que deve ser feito, mas eles não deixam. Eu mesmo já fui suspenso porque critiquei a administração”, contou.

Com o passar dos anos, o comerciante  sentiu no bolso o reflexo da falta de investimento no mercado e a migração dos clientes para outros comércios. “Os banheiros são horríveis, a feira é quente, não tem estacionamento, quem vai querer vir aqui? Ninguém. Eu sustentei a minha família com a renda do comércio, mas hoje é impossível”, contou.

Resistência
Outro mercado que vem sendo esquecido é o Cunha Melo, localizado na Constantino Nery. Anísio Alves, 83, um dos comerciantes mais antigos, que ainda insiste em abrir o box de frutas e verduras diariamente, contou que no auge da fama do mercado ele chegou a levar “sacos de dinheiro” para casa, mas hoje, com muita sorte, vende uma caixa de verduras. “Vendia de caixas, mas hoje só os clientes mais antigos e fiéis permanecem vindo aqui”, disse.

No Mercado Dorval Porto, localizado na avenida Djalma Batista, a realidade não é diferente dos outros. Os comerciantes precisam disputar espaço com ambulantes que vendem fora do mercado. “Todo mundo tem que ganhar seu sustento, mas isso é injustiça. Eles ficam lá na entrada, abordando os clientes”, disse uma comerciante, que não quis se identificar.


Migração de consumidores
O mercado  municipal Maximino Corrêa, localizado na rua Emílio Moreira, na Praça 14, quase não tem mais fluxo de clientes. Há dez anos trabalhando no mercado, o açougueiro Fernando Guedes, 67, lamentou a atual situação do espaço. “Só piora, não tem mais clientes, eles estão indo para outros lugares. Precisamos de ajuda, senão isso tudo aqui vai fechar”, disse o comerciante.

No bairro Educandos, o mercado Jorge Moraes vai encolhendo e gerando medo nos comerciantes que ainda insistem em abrir seus comércios. Tereza Cortêz Negreiros, 54, comercializa produtos medicinais há mais de 30 anos, mas teme que o mercado feche as portas a qualquer momento. “Já foram mais de 300 pontos, hoje são apenas 30 e cada vez vai diminuindo. Tem muitas outras feiras por aqui”, disse.


Saudades dos bons tempos        
Um dos cartões postais do Amazonas, o Mercado Municipal Adolpho Lisboa, localizado no Centro de Manaus, tem deixado de gerar lucro aos seus permissionários. Apesar de muitas opções de artesanato, frutas, verduras, carnes e peixes,  muitos clientes preferem comprar na Feira da Banana ou em bancas montadas irregularmente por ambulantes no entorno do mercado.

Segundo José Costa, 88, que  trabalha no mercado há 62 anos, não é de hoje que as pessoas passam no Adolpho Lisboa apenas para fazer fotos. “As vendas têm caído bastante. As pessoas preferem comprar lá fora, dizem que é mais barato, mas eles (ambulantes) não pagam taxas, nós sim”, disse.

Para a comerciante Lídia Lisboa, 43, a concorrência é injusta e afeta todos os permissionários. “Lá fora eles conseguem vender um quilo de pirarucu seco por R$ 20, eu não consigo. A gente até compra do mesmo fornecedor, mas não dá para vender por menos que R$ 25, pois eu pago as taxas”, disse.

Lídia é de uma família tradicional na venda de peixes no Mercado. Segundo ela, o avô começou o comércio, mas foi por meio do pai que ela se apaixonou pela mercado e pelas vendas. “Meu pai começou a trabalhar aos 8 anos com meu avô. Eu cresci nesse mercado. O comércio corre nas minhas veias”.

Segundo ela, o faturamento atual da banca de peixe não lembra em nada os anos anteriores. “Meu pai chegava em casa com saco de dinheiro. O negócio era bom. Na verdade, todos os vendedores do mercado ganhavam bem”, recordou.

Além da economia do País “não estar bem das pernas”, Lídia atribui a queda nas vendas às feiras próximas do mercado e, principalmente, aos ambulantes do entorno, onde os vendedores não têm o gasto com taxas que os permissionários do Mercado Adolpho Lisboa. “Com certeza as pessoas preferem comprar deles, eles conseguem vender por menos”.

 

 

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