Sexta-feira, 24 de Maio de 2019
ESTELIONATO

Homem usa até CNPJ da Moto Honda para aplicar golpe de venda de motos na Olx

Três boletins de ocorrência foram registrados contra Thales Alexandre Gomes Santiago, que anuncia a venda na Olx e "some" após receber comprovante de pagamento



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03/04/2018 às 16:57

"Essa é a minha PCX, né? Ela é 2018, né? É a DLX marrom, né? Peço nela R$8.900, né? Ela é zero zero quilômetros e não está emplacada". É assim que a negociação de um estelionato começa com um suspeito de aplicar golpes na venda de motos pelo site de comércio livre OLX. Em Manaus, só em março, foram registrados três boletins de ocorrência contra o mesmo homem, identificado como Thales Alexandre Gomes Santigo, de 36 anos. 

O golpe de estelionato -  quando um crime que possui objetivo de atingir o patrimônio de alguém a partir de enganação, golpes, fraudes e outros meios -, muito bem elaborado, vem com a marca e comercialização de motos da Honda, de onde Thales diz ser ex-funcionário. Todas ofertas com o mesmo valor e modelo. O anúncio é feito, o comprador entra em contato, e é direcionado para um "agente financeiro" que também diz ser da empresa de produção dos veículos. Os documentos são falsificados, mas críveis.

                                                      

O comprador entra em contato via aplicativo de mensagens com o vendedor que, no site, se apresenta como "Cristina Lima". Thales diz que é sua esposa. No anúncio vem a seguinte descrição:  

"Vendo Honda PCX 150 2018 0km. Entrada de 50%, mais parcelas fixas. Aceito moto de menor valor mais volta (sic). valor avista (sic): 8,900,00. Enteressados (sic) entrar em contato por via whatzap (92)99154-7961". 

A moto, do mesmo modelo e configurações, na concessionária, custa R$ 11 mil. Ainda assim, há quem caia na proposta de Thales Alexandre. 

A reportagem tentou entrar em contato com a assessoria de imprensa da Moto Honda, mas as ligações não foram atendidas. 

Como funciona o golpe:

A vítima entra em contato via whatsapp ou telefone com o suspeito. Ele indica um número fixo para que a negociação seja feita "oficialmente". A chamada é direcionada para uma linha que inicia com uma gravação de falso autoatendimento da Honda.Em seguida, uma longa espera termina sem resposta ou atendimento.

A negociação, então, se dá diretamente com Thales Alexandre. É ele quem faz os trâmites "legais" e direciona os "clientes" para um suposto funcionário do financeiro da Honda, com nome de Sergio Lombardi. É com ele que as vítimas tratam o pagamento. A partir desse momento, inicia uma troca de emails com documentações sobre a venda.

Os documentos usam o CNPJ e todas as informações da empresa Moto Honda. Thales, como vendedor, é quem assina a venda. O comprador, então, assina digitalmente e encaminha junto com o comprovante de depósito. O silêncio é total depois.

                                                                   

Relato de vítima

Um dos compradores, que prefere se manter anônimo - vamos chamar de João -, foi a mais recente vítima do golpe. Antes deles, dois outro BO's foram feitos. Todos com o mesmo relato, todos com o mesmo nome que aparece repetidamente: Thales Alexandre. A Polícia Civil já investiga o caso, que é apurado por diferentes Distritos Integrados de Polícia (DIP). 

"Esse pessoal está aplicando um golpe duro, que pode acabar com uma pessoa. É muito grave. Eu caí porque tudo pareceu muito legítimo. As documentações, as ligações. Tudo indicava uma venda séria. Foi quando o silêncio começou que a ficha caiu: eu tinha sido pego num golpe", relata a vítima.

Foram depositados R$ 8 mil, com os outros R$900 a serem pagos após a entrega da motocicleta. Quando João* se deu deu conta do golpe, foi ao 19º DIP para registrar o caso. Foi quando ficou sabendo de outros casos.

Investigação da Polícia Civil

Em consulta ao Sistema Integrado de Segurança Pública (Sisp), foi verificado que constam três Boletins de Ocorrências (BO´s) de estelionato em nome de Thales Alexandre Gomes Santigo, 36, registrados no mês de março deste ano.

A primeira ocorrência foi registrada no 29º Distrito Integrado de Polícia (DIP) no dia 2 de março deste ano, por um homem de 41 anos. Ele informou que estava negociando uma motocicleta com Thales, por meio de um site de compra e venda, mas o veículo não foi entregue para ele.

Os outros dois BO´s, registrados, respectivamente, no 16º e 19º DIP, relatam a mesma situação sobre a negociação de uma motocicleta. Os casos estão sendo investigados pelos DIP´s da área das ocorrências. 

Novos Nomes 

No BO de João consta o relato de que a transferência bancária foi para uma conta no nome de Laís Montebello Oliveira Ribeiro. O nome dela também consta na documentação "oficial" da venda. Ela, junto com Sergio Lombardi, seriam os representantes do financeiro da Honda indicados por Thales. A empresa, no entanto, só possui conta em nome social, sem chances de transferências serem feitas a terceiros.                                                                  

Contato direto com o vendedor

O anúncio de venda da moto PCX, uma scooper bem popular de fabricação da Honda segue no ar, online, com as mesmas informações que foram passadas aos clientes que caíram no golpe.

A redação do portal A Crítica entrou em contato com o número. A conversa se desenrolou com o aviso de que o valor seria de R$8.900, com garantia de moto zero, mas sem emplacamento. Confrontado com a acusação de estlionato por golpe online, Thales encerrou a ligação. Confira a transcrição na íntegra da convera:

THALES: É isso, R$8.900.

REPORTAGEM: Toda legalizada? Como funciona a venda?

THALES: Ela está toda quitada. só não está emplacada ainda. o comprador vai ter que fazer o emplacamento dessa motocicleta.

REPORTAGEM: a compra é negociação direta com você ou é com a Honda?

THALES: a negociação é diretamente com a Honda, lá do Distrito. Eu sou ex-funcionário da Honda, fui mandado embora agora dia 20. E fiz o pedido dessa motocicleta, quitei, paguei e só não cheguei a faturar ela, né? Ia dar para a minha esposa. Fui desligado dia 20. Então conversei com seu Sérgio Lombardi, que é gerente administrativo da Honda, né? Eu falei que não teria mais interesse em ficar com a moto e queria meu valor de volta. Ele me explicou que o valor não conseguiria me devolver. Ele daria 30 dias, que era o prazo da minha homologação, para encontrar um comprador. Então minha esposa anunciou a motocicleta. Estamos tentando vender pelo mesmo valor que pagamos.

REPORTAGEM: Como funciona esse processo de negociação com eles?

THALES: Ele me informou que eu teria que passar meus dados, nome completo, rg e o telefone dele. O interessado teria que entrar em contato com ele e explicar para poder gerar a nota fiscal.

THALES: Se tiver interesse... Tem whatsapp?

REPORTAGEM: Tenho.

THALES: me chama nesse meu número aqui

REPORTAGEM: qual o prazo para entrega moto?

THALES: Isso é com eles lá. Como está no distrito...Eles resolvem.

REPORTAGEM: E por que que já foram abertos três boletins de ocorrência contra você, no seu nome, por pessoas que tentaram comprar a moto e passaram por esse processo com a Honda e nunca receberam a moto?

THALES: Como?

REPORTAGEM: Três pessoas. Três boletins de ocorrência por não receber a moto depois de fazer o depósito.

THALES: Não, não... B.O contra eu não tem não.

REPORTAGEM: Temos os documentos. A denúncia é de que você está aplicando golpe da venda pela internet.

THALES: Tem até os recibos. Eles tem meu endereço. Tá bom? Tchau.

Após a publicação deste material, a Olx retirou do ar o anúncio e bloqueou o usuário que praticava o golpe. Em nota, a empresa alerta para casos e esclarece que não tem participação em transações feitas entre os usuários. Leia:

A OLX esclarece que a atividade da empresa consiste na disponibilização de espaço para que usuários possam anunciar e encontrar produtos e serviços de forma rápida e simples. Diariamente, cerca de 500 mil novos anúncios são inseridos na plataforma. Toda negociação é realizada fora do ambiente do site, assim, a empresa não participa das transações feitas entre os usuários.

A empresa reforça que a ferramenta foi criada para auxiliar no desenvolvimento social e econômico do país e que os usuários devem respeitar os Termos e Condições de Uso do site (http://www.olx.com.br/copyright.htm). Infelizmente, algumas vezes as ferramentas da Internet são utilizadas por terceiros de má índole. A empresa condena este tipo de atitude, pois ela vai contra as regras da OLX.

O objetivo da empresa é que os usuários tenham a melhor experiência possível, por isso a OLX sugere algumas dicas para o momento da negociação:

  • Verifique se o vendedor é o proprietário legítimo do veículo. Você pode checar se o documento do carro é verdadeiro entrando em contato com o DETRAN. Aproveite também para verificar, pelo Renavam, se o veículo tem multas e IPVA pendentes;
  • Ao entrar em contato com o vendedor, evite negociações com terceiros. 
  • Cuidado ao pegar contratos de consórcios e prestações. Pesquise a documentação e o histórico da empresa envolvida;
  • Fique atento aos vendedores que dizem trabalhar nas montadoras de veículos e que, a partir disso, conseguem automóveis mais baratos;
  • Cuidado com anúncios que oferecerem frete grátis para a entrega do veículo;
  • Evite realizar qualquer tipo de depósito antecipado (pagamento de entrada) sem antes ver o veículo de perto. Certifique-se de que o veículo existe, está em bom estado e contém todos os acessórios anunciados;
  • Caso esteja negociando com uma concessionária, busque sempre ir ao local e evite realizar depósitos em contas de pessoas físicas;
  • Faça uma revisão com um mecânico de confiança antes de efetuar o pagamento;

 Mais dicas estão disponíveis no link: http://bit.ly/dicas-comprar-OLX

 Vale lembrar que a OLX também disponibiliza um botão de denúncia em todos os seus anúncios, possibilitando que qualquer pessoa denuncie eventuais práticas irregulares ou conteúdos indevidos. Nestes casos, a empresa consegue deletar o anúncio e banir o usuário da plataforma.

No caso em questão, a OLX já deletou o anúncio e bloqueou a conta do usuário.

A OLX reforça que está sempre à disposição das autoridades para colaborar no que for necessário para a apuração dos fatos.


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