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“Combatemos o tráfico de drogas e a corrupção”, diz delegado do AM

Primeiro amazonense a dirigir a Polícia Federal,  Delegado Sérgio Fontes vai gerir  a Academia Nacional da corporação. Ele concedeu entrevista à A Crítica e falou sobre o tráfico de drogas e a corrupção, entre outros assuntos 02/11/2013 às 20:53
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Sérgio Fontes
Joana Queiroz Manaus (AM)

O delegado  Sérgio Fontes, 47,  vai deixar a Superintendência (SR) de Polícia Federal no Amazonas para ser o gestor da Academia Nacional da Polícia Federal, em Brasília, segundo ele, com o mesmo empenho mostrando no comando da PF , porém o coração vai continuar  aqui no  Estado onde nasceu, construiu família  e para onde pretende voltar assim que se aposentar.

Durante os seis anos e sete meses em que ficou no posto ele diz ter conseguido grandes realizações, como a repressão ao crime organizado, o tráfico de droga,  crimes ambientais e a corrupção. Um dos feitos contabilizado por ele é a desarticulação da organização criminosa do peruano Jair Ardela Michue, o “Javier”, especializada no tráfico de droga em território brasileiro e peruano e responsável por dezenas de mortes.

Fontes também fez projetos para melhorar a qualidade de vida do servidor, a reforma e ampliação do prédio onde funciona  Polícia Federal e a aquisição de embarcações de combate. Confira a entrevista:

Como foram  os  anos na  superintendência?

  Estou saindo com o sentimento do dever cumprido. É o resultado de trabalho conjunto.  A superintendência é a que  tem o  maior déficit de material humano do Brasil -  comprovado pelo  estudo lotaciograma. Porém  foi a terceira no índice de produtividade em 2012 e está em primeiro lugar no índice de produtividade operacional desse ano.

Como  atingiu esse índice?

É resultado do dinamismo e a força de trabalho em equipe e as parcerias que formamos. Nós trabalhamos muito  com as polícias Civil e Militar e Forças Armas. Parcerias são muito importantes, sem elas não conseguíamos trabalhar. Os recursos vêm minguando de 2008 pra cá, mas é aquela questão: administrar com recursos sobrando qualquer um administra, difícil é administrar com pouco recurso, com pouco efetivo humano. Aí é difícil e a gente tem de mostrar um pouco mais de compromisso, de capacidade de produzir e eu acho que nós fizemos isso.

Quais as suas principais realizações?

 Desde 2003 nós  vínhamos  fazendo grandes operações.  Começamos com as operações  Rio Negro e Águia. Vale a pena ressaltar que fazíamos as operações, mas estávamos esquecendo-se da ferramenta mais importante que é o ser humano. E  me orgulho muito do que fizemos nessa administração pelo ser humano. Conseguimos fazer  a reforma e a ampliação da sede. Fizemos a Base Garatéia em 2009. A nova Base Anzol que é flutuante.  Inclusive vou deixar como sugestão para o meu sucessor que ele traga a base Anzol pra cá na época da Copa do Mundo e coloque na frente de Manaus.  Fizemos um novo posto em São Gabriel da Cachoeira, está novinho e pode ser um dos postos da Polícia Federal mais bonito do Brasil.  Renovamos toda a nossa frota de embarcações. Hoje nós temos  30 embarcações operando 100%, cinco lanchas rápidas, cinco  flex boots com metralhados calibre 762   e mais três Boston Weler,  as mesmas usadas pela Guarda Costeira Americana.  


E na parte operacional?

Nesse ano apreendemos 1,4 tonelada  de entorpecentes só aqui em Manaus e mais 800  em Tabatinga.  Combatemos também a corrupção em órgãos públicos, o crime organizado e os crimes ambientais.

Qual é a situação da fronteira?

É o nosso calcanhar de Aquiles. É enorme e com pouca gente. O trabalho lá é extremamente difícil, mas com a base Anzol a gente conseguiu fazer prestar um bom serviço e combater os crimes transnacionais numa região complicada.

Que organizações criminosas foram desarticuladas?

A operação Vorax em Coari  merece destaque porque  nós aprendemos R$ 7 milhões em malas  escondidas no forro de uma casa abandonada. Eu pessoalmente nunca vi R$ 7 milhões abandonados em uma casa desabitada em um conjunto  popular. O nível de corrupção que se instalou  no município (em Coari) foi muito grande.

 Além da Vorax?

Depois da Vorax veio a organização do peruano Jair Ardela Michue, o “Javier”, que foi totalmente desbaratada.  Era o pessoal mais violento que já me deparei nesses meus anos todos de polícia. O Javier  começou como matador de um narcotraficante e depois acabou matando esse homem. Ele esqueceu que estava no Brasil e mandou matar quem tentasse tomar os 300 quilos de droga dele e a PF foi lá e tomou a droga dele e os nossos policiais Leonardo Matzunaga Yamaguti, 26; e Mauro Lobo, 43, foram mortos, mas também ele perdeu o dinheiro, a liberdade e os 300 quilos.

Falando de crime organizado no Amazonas, quais deles prevalecem?

 O crime organizado no  Amazonas gira em torno do narcotráfico. Temos de travar uma guerra sem trégua contra  organizações criminosas de traficantes, principalmente o Primeiro Comando Da Capital (PCC) e Família do Norte (PCN).

O senhor reconhece a PCN como  organização que  atua no Amazonas?

Sim reconheço. O pior que se pode fazer é não reconhecer essa organização criminosa como lesiva  a sociedade. Ela está se fortalecendo, mas estamos  indo bem, vários líderes foram presos e transferidos e  podemos reverter esse quadro.  Mas a ausência do poder do estado continua nas áreas de fronteiras onde muito raramente as Forças Armas e a Polícia Federal passam  por lá.  E isso é ruim.

Que outros crimes predominam no  estado?

O narcotráfico eu diria que é o zero um.  Temos quase 10 mil hectares de coca plantados no vale do Javari  a dez metros de distância da nossa fronteira com uma capacidade que vai de 50 a 100 toneladas por ano,  todas voltadas para o consumo brasileiro.


Quem comanda o tráfico aqui?

Em Manaus há várias facções pequenas que se tornam fortes. O Zé Roberto foi um exemplo, mas hoje está tão pulverizado que eu posso citar uns 20 nomes, mas não vou fazer para não atrapalhar as investigações que estão em andamento. Nanico é um matador que até um dia desses não tinha nenhuma expressão a não ser pela violência.

Quais os momentos mais difíceis?

Passamos por momentos difíceis como a perda dos colegas Leonardo Matzunaga Yamaguti, e Mauro Lobo, em 2010, a explosão do laboratório  em 2009 quando  perdemos três  colegas: Antônio Carlos de Oliveira, Max Augusto Neves Nunes e Maurício Barreto da Silva Júnio.  Também   passamos a viver com novas realidades com  as plantações de coca na fronteira do Brasil com o Peru no vale do Javari. Elas não existiam e agora é uma realidade totalmente nova.

Qual foi o grande desafio.

Desarticular a organização de Javier. E a maior satisfação  foi vê-lo  preso. Eu estava na selva na fronteira do Peru.  Essa foi a maior alegria dos quase seis anos  como superintendente.

Por conta do seu trabalho o senhor fez mais amigos ou inimigos?

Espero ter feito mais amigos. Não sei quem são os meus inimigos.

Quem vai ser o seu substituto?

O mais provável, considerando o conhecimento  que ele tem da região e tempo de serviço é o doutor Marcelo Sálvio Rezende. Ele foi meu delegado executivo. Mas isso ainda não está decidido. Ele é superintendente do Acre.  O delegado  Umberto Ramos seria um bom nome também.

O senhor recebeu muitos convites para ser secretário de segurança porque não aceitou?

Não aceitei porque tenho um compromisso com a Polícia Federal.  Não que eu não ache importante. Todo policial que entra como soldado quer chegar a general. Não tem cargo mais importante que ser secretário de segurança. Se depois que eu tiver aposentado me convidarem, eu  aceito dependendo das condições que forem oferecidas como  condições de trabalho, recurso apoio e comprometimento do governo.

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