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Como os médicos se preparam para dizer as más notícias aos seus pacientes

O diagnóstico não é favorável. Existe a melhor forma de contar a má notícia e como sobreviver a essa difícil tarefa? 24/01/2015 às 16:44
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Como os profissionais da saúde se preparam para dar uma má notícia
Cynthia Blink Manaus (AM)

Entre as tarefas de um médico está comunicar um diagnóstico que ninguém gostaria de ouvir. A confirmação de um câncer, o um resultado positivo para contaminação pelo Vírus HIV/Aids ou mesmo a comunicação do estágio terminal de um paciente estão entre as mais difíceis lições na vida de um médico. E que, nem sempre, se aprendem só nos livros.

A oncologista Elza Gonçalves de Carvalho, 33, que atua no hospital Santa Júlia, afirma que a sua primeira aula sobre como lidar com a situação aconteceu na prática. “Não somos treinados para isso na faculdade e nem na residência. Na verdade, como é uma situação delicada, precisamos ouvir o que o paciente sabe e contar o diagnóstico por partes. Jamais devemos dar a notícia de uma vez”. Mais tarde, a oncologista  fez um curso complementar psicológico. “Graças a Deus fiz esse curso! Depois do diagnóstico, muitas vezes tenho que falar da vida terminal do paciente”, salienta.

De acordo com a oncologista, depois que o paciente entende que ele precisará mudar drástica e negativamente a sua vida e, na maioria dos casos, percebe que seu futuro também está comprometido, a reação mais natural é o choro. “Devemos explicar a doença aos poucos antes de contar de fato o que ele tem, porque cinco minutos depois que são informados de um câncer, por exemplo, o paciente não escuta mais nada. Ele simplesmente chora”, explica a especialista Elza Gonçalves.

Esconder

O código de ética médica, desde 1847 já declarava: “A vida de uma pessoa doente pode ser diminuída não apenas pelos atos, mas também pelas palavras ou maneiras do médico. Isto é, portanto, uma obrigação sagrada a de guardá-lo cuidadosamente a este respeito e evitar todas as coisas que tenham a tendência de desencorajar o paciente e deprimir seu espírito”.

A doutora em Psicologia Karina Bessa concorda que a forma dos profissionais da saúde informarem o diagnóstico pode ser ainda mais prejudicial para o quadro do paciente, mas Bessa enfatiza que é necessário dizer a verdade.  “É claro que a verdade sempre deve ser mantida. Entretanto, é preciso cuidado ao transmitir a informação”, afirma a psicóloga, que sugere a aplicação do protocolo usado pela Associação de Medicina Americana (AAMA).

Família

Após o paciente tomar conhecimento do seu estado delicado de saúde, a oncologista Elza afirma que ele deve ter mais profissionais em uma consulta. “O lado sentimental é trabalhado a cada consulta, sempre em acompanhamento conjunto com psicóloga e a assistente social”.

Já com os familiares exige-se uma outra abordagem. “Geralmente, marcamos uma consulta com todos eles juntos com nossa equipe multidisciplinar, reunindo-os desde o diagnóstico e a cada novo passo do tratamento do paciente ou a cada insucesso com o passar do tempo”, esclarece a especialista.

Desestressar

Terapia é a recomendação doutora Bessa aos colegas médicos. “Todo profissional que trabalha com saúde deve cuidar de seu bem estar emocional, pois somente assim estará apto a ajudar quem o procura. Não significa que o médico deve visitar o terapeuta toda semana, nem todo mês, mas sempre que há uma necessidade”.

A oncologista confessa que ainda é difícil deitar a cabeça no travesseiro à noite após um dia complicado no trabalho, mas para desestressar ela costuma investir em atividades físicas. “Vou para o muay thai, musculação e também fico com o meu marido e minha família. Basta isso para me renovar”, revela a especialista Elza  Gonçalves.

HIV

De acordo com o infectologista Silvio Fragoso, médico da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas, quando o  paciente chega no hospital e existe uma suspeita que ele tenha o HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana), o paciente recebe esclarecimentos. "A gente explica que, de acordo com os sintomas, existe a possibilidade dele ter o vírus e aconselhamos que faça o teste. É importante informar que o teste só pode ser feito com a devida autorização do paciente, ele deve assinar um termo. De certa forma, ele já fica preparado para os dois resultados iminentes: positivo ou negativo. Antes do resultado respondemos as dúvidas do paciente, depois explicamos sobre o acompanhamento laboratorial e disponibilizamos o serviço psicológico do hospital”.

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