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Manaus
MORADIA DIFERENTE

Conheça a rotina de quem trocou uma casa convencional para viver em um barco

Na região com a maior bacia hidrográfica do mundo, é comum que muitas pessoas passem a maior parte da vida morando ou trabalhando em barcos 30/07/2017 às 05:00
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(Foto: Gilson Mello)
Álik Menezes Manaus (AM)

Os barcos são meios de transporte tradicionais e necessários na região Amazônica, mas para muitos amazonenses deixaram de ser apenas uma forma de locomoção e se tornaram lares há anos. As embarcações do Amazonas são palco de histórias de famílias inteiras que trabalham e afirmam que não deixariam o local por nenhuma oferta.

Segundo dados da Capitania Fluvial da Amazônia Ocidental (CFAO), o Amazonas possui 15,627 mil embarcações registradas no órgão e o número de embarcações que atracam na orla de Manaus pode variar de acordo com o dia da semana, horário e proximidade de datas festivas . A estimativa é que entre nove mil e  14 mil embarcações atracam na orla.

A dona de casa Sandra Souza, 37, abriu mão da casa da família há cinco anos, quando resolveu acompanhar e ajudar o marido no trabalho, o responsável pelo barco, Albertino Souza, 42. A vida do casal nunca mais foi a mesma e a expectativa deles é que continue assim por muitos anos. “Foi a melhor decisão que tomei na minha vida”, disse.


Sandra contou que a decisão de morar com a família no barco é irreversível (Foto: Gilson Mello)

O casal e um filho de 12 anos moram no barco Ivanildo Terceiro, que faz passeios pelos rios do Amazonas e é alugado para festas como casamento e aniversários. Segundo Sandra, pelo menos três eventos são realizados por semana no local.

A dona de casa contou que vive mais tranquila sem a agitação de morar na cidade ou nos municípios do interior, mas a sensação nem sempre foi essa. Antes de decidir morar com o marido no barco em que trabalham, ela sofria com saudades do marido. “A gente se via quando dava porque ele morava praticamente direto dentro do barco e raramente conseguia uma folga para ver a gente. Nosso filho vivia perguntando pelo pai”, contou.

Mas nem tudo são flores na vida do casal, o filho adolescente do casal agora pede para visitar mais a cidade, ir ao cinema e até ter uma casa em Manaus. Apesar de entender o filho, o casal nem cogita mais essa possibilidade. “Ele é adolescente, sente essa necessidade. Ele estuda lá no Centro, aí os amiguinhos convidam para sair e passear. A gente entende, mas morar em uma casa convencional não faz mais parte dos nossos planos”.

Outro que abriu mão de morar na casa da família em terra firme foi Luiz Carlos Silva de Souza, que há 10 anos trabalha e mora em barcos. Ele, que atua como conferente, contou que estava desempregado e essa foi única oportunidade de trabalho que surgiu. “Sinto saudades da família, dos meus filhos, mas essa é a forma como eu consegui sustentar eles”, disse.


Luiz estava desempregado e encontrou na navegação uma oportunidade (Foto: Gilson Mello)

A rotina de Luiz inclui três viagens por semana para o município de Manaquiri, no Amazonas. Na rápida passagem  pela cidade, ele aproveita para matar a saudade dos amigos, da família e principalmente dos filhos. “Tem dias que a saudade é imensa, mas eu e eles (os filhos) sabemos que é necessário”, disse.

Contudo, Luiz contou que hoje vive feliz com o trabalho e não consegue imaginar como seria morar em outro local e ter outro tipo de emprego. Para ele dormir em redes, ouvir o barulho das águas dos rios e contemplar cada nascer e pôr do Sol não tem preço e são uma forma de consolar quando a falta dos filho “ataca”.  “Fora a saudade, é muito bom morar no barco, sentir o contato com a natureza e tudo que Deus me proporciona. São coisas como essas que me sustentam no meio às dúvidas”, disse o conferente.

‘Conheci minha esposa num barco’

O aposentado Ubertino Guimarães da Silva, 72, ainda lembra saudoso dos anos que trabalhou em barcos e passou viajando pelos rios do Amazonas. Segundo o aposentado, as décadas navegando pelos rios da Amazônia foram inesquecíveis e são experiências que todo amazonense deveria viver.

“Com certeza foram os melhores anos da minha vida. Foi nos barcos que aprendi muita coisa sobre a vida, foi no barco que conheci a minha esposa que me deu filhos maravilhosos”, disse. Ubertino até incentiva a  família e amigos a viverem a experiência de viver em barcos, mas nem tudo mundo se empolga com as ideias dele; os mais próximos falam que essa vida é coisa do passado e que hoje é mais perigoso. “Não sei o que eles entendem por perigo. Perigo para mim é não ter a certeza de chegar em casa vivo com a ação dos criminosos. Viver nos rios é a melhor vida. Viver em contato com a natureza é a melhor opção”.

Uma década inteira


Edilson trabalha há 10 anos em um barco e viaja semanalmente para o interior

Há 10 anos, o conferente Edilson Guedes, 32, praticamente mora com outras 10 pessoas no barco em que trabalha. “A vida viajando é boa, mais sossegada, mas sinto muita falta dos meus pequenos. Eu sinto falta de acompanhar o crescimento deles. Nos piores dias, a gente conversa com os amigos aqui e esquece um pouco”, disse.

Edilson contou que as viagens que faz para o município de Beruri semanalmente e quase não tem tempo de encontrar a família. “São viagens bate e volta, a gente deixa os passageiros, desembarca as mercadorias, embarca mercadorias e volta para Manaus. Nossa diversão e distração é aproveitar a natureza durante as viagens”.

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