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Conheça famílias que sobrevivem à seca dos rios de Manaus

Famílias que moram em flutuantes nas margens do rio Negro ou dos principais igarapés de Manaus, como o do São Raimundo, enfrentam mais dificuldades para o ir e vir e até o ganhar o pão de cada dia coletando latas em meio à lama 26/10/2015 às 11:16
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Deusuita, há 50 anos morando na beira do igarapé, diz que nunca viu uma descida tão rápida do rio Negro, mas faz questão de manter os netos na escola
Luana Carvalho ---

A estiagem causa diversos transtornos aos ribeirinhos, principalmente àqueles que dependem dos rios para sobreviver de alguma maneira. Ela também revela uma enorme quantidade lixo, que se sobrepõe ao solo seco dos igarapés que cortam Manaus.

Debaixo da ponte Fábio Lucena, que liga os bairros de Aparecida e São Raimundo, na Zona Oeste, as irmãs Natália, 11, Eloyse, 10 e Carol, 8, aproveitam o montante de lixo para catar latinhas todos os dias, desde as primeiras horas da manhã.

No entardecer da última quarta-feira, as irmãs percorriam toda a área seca, em meio a todo tipo de resíduos, para catar alumínio. Elas se arriscam entre um passo e outro, descalças, procurando a melhor maneira de caminhar pela terra úmida. No dia seguinte, a cena se repetiu com os mesmos riscos.

Todas estão fora da escola, e segundo a mãe, Suzyane de Assis Barros, 30, é por conta das condições de moradia. “Nós moramos nesse flutuante e nunca ficamos num só lugar. Atracamos aqui há dois meses, e fomos pegos de surpresa com a rápida descida das águas do rio Negro. Ficamos encalhadas, sem água e energia elétrica”, afirma.

O marido dela trabalha em um barco, recolhendo materiais recicláveis nos beiradões dos municípios. Enquanto isso, as três irmãs de sorriso tímido, enfrentam a dura realidade da seca da pior maneira possível. “Agora quase não tem mais latinhas porque já catamos quase tudo”, disse Carol.

O preço pelo sacrifício diário custa R$ 8. É o valor que as meninas vendem uma sacola de fibra cheia de latinhas. “Não é muito, mas a gente vende para comprar nossas coisas”, revela a mais velha.

Desde julho, quando o rio começou a secar, a Secretaria Municipal de Limpeza Pública (Semulsp) retirou 2 mil toneladas de lixo dos igarapés de Manaus.

Do outro lado

A poucos metros do flutuante onde as irmãs moram, outras três meninas, fardadas, desciam o barranco, em meio a ferros, restos de construção e muito lixo. Fernanda, 9, Beatriz, 6 e Esther, 5, estudam na Escola Estadual Olavo Bilac. “Seja na cheia ou na seca, as crianças sempre vão para a escola”, garantiu a avó das meninas, Deusuita de Lima, 54.

A dona de casa mora há mais de 50 anos na orla do São Raimundo e conta que a descida do rio neste ano está muito acelerada. “Já presenciei algumas grandes secas. Confesso que, pela nossa experiência, não estávamos esperando uma seca forte dessa. Mas esse ano o rio desceu muito rápido”, relata.

Deusuita e o marido, um pescador de 60 anos, aguardam serem atendidos pela Superintendência Estadual de Habitação (Suhab), pois foram retirados da orla na ocasião da construção do Parque Rio Negro, inaugurado pelo Governo do Estado neste ano.

“Moramos a vida inteira no São Raimundo. Quando retiraram os moradores, ficamos de fora da chamada porque eles alegaram que não conseguiram nos contatar. Moramos neste flutuante alugado há três anos”, afirmou Deusuita.

Sujeira

Desde julho, quando o rio Negro começou o processo de vazante, a Secretaria Municipal de Limpeza Pública (Semulsp) retirou duas mil toneladas de lixo dos igarapés de Manaus, que ficam livres do represamento feito pelo Negro e descem com todo o lixo jogado neles pelos cursos que cruzam a cidade.

Descida do rio

O rio Negro desceu 18 centímetros na última sexta-feira, segundo a medição feita pelo serviço de Hidrologia do Porto de Manaus. No mesmo dia do ano passado, o rio havia descido 11 centímetros, sete a menos que na atual vazante. Neste mês, o volume máximo de vazante do rio em um dia só foi de 40 centímetros.


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