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Coração de mãe: mulher deixa sonho de ser freira para cuidar de crianças carentes em Manaus

Amanda Pereira abriu mão do sonho de servir somente a Deus como noviça para se tornar a segunda família de crianças e adolescentes em situação de risco 24/12/2014 às 15:12
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Amanda, ao centro, rodeada por alguns dos pequenos ‘adotados’ por ela
Perla Soares Manaus (AM)

O sentimento de responsabilidade e a vontade de acolher, dar amor e carinho para crianças carentes foram maiores que o dom da fé. Essa foi a escolha da ex-noviça Amanda Fereira, de 34 anos, que abriu mão do sonho de ser freira para cuidar de crianças e adolescentes em situação de risco.

A decisão de servir a Deus e aos filhos dele, mesmo fora do convento, foi tomada depois de ela assumir os votos de castidade, da obediência e da pobreza, e a fez largar o hábito para ser “mãe” de 150 pequenos.

Amanda explica que, depois de passar anos em um convento e só sair para realizar trabalhos comunitários, sentiu que o dom de servir a Deus e ajudar o próximo não estava apenas dentro da igreja. “Eu não precisava estar em nenhum  convento para ajudar o próximo, eu poderia servir a Deus mesmo estando fora do convento. Hoje meu coração me diz que fiz a escolha certa “, declarou Amanda.

Há 16 anos, Amanda realiza um trabalho com meninos de rua, e sem recurso nenhum, ela costumava ir de ônibus até a Praça Matriz, no Centro, onde distribuía sopa aos meninos que dormiam na calçada da igreja, a maioria entre 7 e 8 anos de idade.

Na época, as crianças eram recolhidas e levadas para a Escola Fazenda - hoje Fazenda Esperança. “Era um local que servia como abrigo no primeiro momento, depois realizavam atividades educacionais. Ficávamos perto das crianças, elas se sentiam acolhidas”, relatou.

Mas em uma tarde chuvosa de domingo, às vésperas do Natal, durante a tradicional distribuição de sopas na Praça da Matriz, o olhar de um menino de apenas 6 anos mudou a vida de Amanda para sempre. “Os meninos estavam enfileirados e, na última fileira, tinha um garotinho bem pequenininho, que estava encolhido, embrulhado com jornal.

Olhei para ele e senti uma coisa muito forte dentro de mim. Sabia que, depois de entregar a sopa a ele, eu voltaria para o conforto do convento e ele ficaria ali, na rua, com frio e com medo. Nada ia mudar na vida dele”, lembrou.

Emocionada e com lágrimas nos olhos - como sempre fica quando lembra dessa história -, Amanda contou que foi nesse momento que ela decidiu abandonar o hábito, deixar o convento e se dedicar a cuidar de crianças em situação de rua.

Ela passou um ano afastada da igreja, procurando um lugar onde pudesse abrigar essas crianças por um tempo, orientando-as a voltar para casa e procurar as famílias delas.

“Existia uma casa em um terreno ao lado da igreja, que estava vazia. Chamei o pessoal da igreja e o padre me apoiou, falou com a Arquidiocese e ela nos cedeu esse lugar. Era uma casa simples, de madeira, e construímos a duras penas, com o dinheiro de bingos e doações. Assim vivemos ao longo desses 16 anos. Essa é a minha vocação e essas crianças são a minha felicidade”.

Resgatando

A casa de apoio mantida por Amanda Pereira no bairro Santo Antônio, Zona Oeste, atende hoje 150 crianças, divididas nos turnos da manhã e tarde. No local, as crianças e adolescentes resgatadas em situação de rua recebem, além de muito carinho, atenção e amor, aulas de reforço no contraturno da escola e ainda acompanhamento médico e psicológico.

Durante a manhã, 47 crianças, que estão matriculadas em escolas no turno da tarde, participam do programa. À tarde são outras 103 crianças e adolescentes atendidas. De acordo com Amanda, as crianças atendidas no abrigo recuperaram vínculo com as famílias, mas não abandonaram o projeto.

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