Terça-feira, 18 de Maio de 2021
TRABALHO NOS CEMITÉRIOS

Coveiros na pandemia: a realidade de quem vê diariamente o fim da batalha pela vida

Conheça a história dos funcionários de cemitérios de Manaus e a realidade diária de lidar com a tragédia da pandemia. “Teve dia que me afastei para chorar um pouco, antes de voltar ao trabalho”, revelou um coveiro do cemitério do Tarumã



coveiro_capa_E0C6D06D-3EE4-408F-AEE8-67469A9706F4.JPG Foto: Junio Matos
13/02/2021 às 09:00

A segunda onda da pandemia do novo coronavírus, em Manaus, trouxe novamente à tona a importância do trabalho de quem viu e vê de perto o fim da batalha pela vida. É no Cemitério Nossa Senhora Aparecida, conhecido como Cemitério do Tarumã, na Zona Oeste, que o agente de inumação Ulisses Souza Xavier, 52, e o fiscal Nazildo Serrão Onorio, 50, atuam no sepultamento de dezenas de pessoas todos os dias.

Palco de diversas fotos que marcaram de forma negativa e chocaram o mundo, com as chamadas valas comuns, abertas por retroescavadeiras, o cemitério do Tarumã comporta 30 coveiros e, ao todo, 150 funcionários, segundo informações da Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp), responsável pela administração do local.




A imagem de uma retroescavadeira auxiliando no processo de sepultamento virou rotina triste nos cemitérios de Manaus na pandemia. Foto: Junio Matos

Ao A CRÍTICA, Ulisses e Nazildo contam a difícil rotina de presenciar o sofrimento de inúmeras pessoas em tempos de pandemia da Covid-19. O agente de inumação, conhecido popularmente como coveiro, Ulisses Souza Xavier, começa a trabalhar por volta das 6 horas no local.

Com a quantidade de sepultamentos diários, ele já não consegue contar mais quantos enterros presencia durante o dia. “Quando não tinha a pandemia, nós tínhamos uma meta de abrir dez covas para entregar durante a semana. Agora, com a pandemia, tem a retroescavadeira que está dando uma força para a gente porque não tem condições de nós cavarmos manualmente com quantidade de sepultamentos que está tendo”, revela.

Mesmo contabilizando 16 anos na função, ainda há momentos que o marcam, como o que aconteceu há duas semanas “Foi na quadra 64. Só pode entrar quatro pessoas da família e daí a filha de uma senhora que tinha falecido pulou o portão, ela não podia entrar, só que não teve quem a segurasse. Isso mexeu com todo mundo”, comenta Ulisses.


Ulisses trabalha há 16 anos como coveiro, período que não foi suficiente para não se emocionar com a avalanche de enterros durante a pandemia. Foto: Junio Matos

O fiscal que trabalha na coordenação de coveiros, Nazildo Serrão Onorio, relata que precisa deixar as emoções de lado para entregar o melhor serviço. “Sentir a gente sente, mas eu preciso continuar o meu trabalho, nós precisamos centralizar no nosso trabalho, pois se formos pensar no nosso sentimento, nós não vamos conseguir dar continuidade”.

Nazildo lembra momentos difíceis desta segunda onda da pandemia em que resultou em 4601 sepultamentos no primeiro mês de 2021. A quantidade de sepultamentos de janeiro chegou a ultrapassar a soma dos meses de abril e maio considerados como pior momento da primeira onda da pandemia, em 2020.

“Teve um dia em que eu sepultei 55 pessoas. Eu lembro que estava chegando caixão um atrás do outro e eu deixei o meu serviço e fui para o meio da quadra, chorei um pouco, tive que me recompor e voltei para continuar o meu trabalho”, relembrou.


Nazildo revelou que, mesmo com experiência na área, é impossível conter o choro. Foto: Junio Matos

“A gente precisa ser forte, mas a gente sente sim as dores das pessoas. Nós enfrentamos a primeira onda, foi muito difícil. É claro que a segunda, nós temos um pouco mais de experiência, mas não contávamos que fosse assim tão forte, e assim nós precisamos superar também”.

Nos últimos dias, a Prefeitura de Manaus tem registrado leve queda de sepultamentos nos cemitérios da capital do Amazonas. Na última quinta-feira (11), por exemplo, ocorreram 73 sepultamentos nos espaços públicos gerenciados pela Semulsp.

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Repórter de Cidades
Jornalista formada pela Uninorte. Apaixonada pela linguagem radiofônica, na qual teve suas primeiras experiências, foi no impresso que encarou o desafio da prática jornalística e o amor pela escrita.

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