Segunda-feira, 26 de Julho de 2021
DOZE MESES DE DOR

Covid-19: Um ano da chegada da pandemia no Amazonas

Doze meses após o primeiro caso da doença no Estado, em 13 de março de 2020, quase 12 mil histórias de vidas amazonenses foram interrompidas de forma impiedosa



Caix_es_-_Junio_Matos_7A4DB80D-1995-448B-A079-C4FEB3F5C440.jpg Foto: Junio Matos
13/03/2021 às 01:57

Há um ano, a população amazonense nem imaginava o que estava por vir nos próximos meses de 2020 e 2021. O Amazonas passou aos poucos a ser o epicentro da pandemia no Brasil e a viver, nos últimos doze meses, os piores momentos da pandemia da Covid-19 (SARS-CoV2) entre eles o colapso no sistema público de saúde, os recordes de sepultamentos diários, enterros em sistema de trincheiras durante o primeiro pico de pandemia, além do mais recente cenário iniciado em janeiro de 2021: a crise de oxigênio, a qual levou dezenas de pessoas à morte por asfixia.

Entre medidas de isolamento como ‘lockdowns’ no início da pandemia, até decretos de impedimento de circulação com toques de recolher por meio de decretos; entre corrida por leitos até corrida por cilindros de oxigênio, a reportagem de A CRÍTICA elencou os principais momentos da doença que assolou o mundo e colocou o Estado no centro dos holofotes e de noticiários devido a triste realidade ainda vivenciada pela população local.




Esse tipo de cena se tornou comum durante a pandemia. Foto: Phil Limma.

A evolução da Covid-19 no AM

Hoje, um ano se passa desde aquele 13 de março, quando uma paciente mulher de 39 anos, com histórico de viagem recente para a Inglaterra, teve confirmação do vírus em terra amazonense. Até a terceira notificação, todos os pacientes tinham histórico de viagem para o exterior. Onze dias após o primeiro caso, no dia 24, foi registrada a primeira morte causada pelo novo coronavírus. A vítima, um homem de 49 anos de idade, natural de Parintins, que apresentava quadro de insuficiência respiratória com grave comprometimento pulmonar. Ele faleceu, no Hospital e Pronto Socorro (HPS) Delphina Aziz, na zona norte de Manaus, após uma parada cardiorrespiratória.

Foram apenas mais quatro dias para que o Amazonas, no dia 28 de março, entrasse no quadro de transmissão comunitária, quando as equipes de vigilância não conseguem mais mapear a cadeia de infecção do vírus. A velocidade de transmissão aumentou tanto que, menos de um mês depois, a Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM) alertava para o risco de colapso do sistema de saúde, o que viria se confirmar em breve. Para se ter noção, o boletim epidemiológico da FVS registrava 1.809 casos confirmados do novo coronavírus e 145 mortes em menos de 40 dias de registro da doença. Dez dias após o maior número de confirmações, no dia 27 de abril, Manaus batia o recorde de 140 sepultamentos nos cemitérios da capital em 24 horas.

A quantidade de mortes desde o pico de abril começou a retrair com o passar dos meses de 2020, e com a diminuição dos casos, diminuíam também os cuidados tomados pela população para se proteger do vírus. A falsa sensação de que a pandemia estaria indo embora, tomou força já nos meses de novembro e dezembro, justamente em um período que previa forte aglomeração em todo o país, com a chegada das campanhas eleitorais e eleições municipais, além das datas festivas de fim de ano.

O descuido teria um preço caro a ser pago: uma segunda onda da doença, que viria com mais força e com um novo variante do vírus, conhecido como P.1, com maior potencial de transmissão. Para se ter uma noção, no dia 25 de dezembro, o Boletim Diário da Covid-19, da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM), informava que entre os dias 1º e 25 de dezembro, o número de internados havia saltado de 461 para 742, em aumento de 61%, o que viria a piorar com uma ‘explosão’ no número de casos de forma avassaladora já nos dias seguintes.

Segunda onda

Em janeiro de 2021, o sistema público de saúde mais uma vez entrou em colapso, porém em decorrência da falta de um insumo essencial para o tratamento dos pacientes: o oxigênio. A demanda da capital amazonense era de mais que o dobro da capacidade de oxigênio que os fornecedores podiam entregar aos hospitais, o que resultou em inúmeras mortes por asfixia no dia 13 de janeiro, que bateu recorde de 198 sepultamentos em 24 horas nos cemitérios de Manaus.


A segunda onda inaugurou 'corrida' pelo oxigênio. Foto: Junio Matos

O Amazonas viu, no período de menos de três meses, a quantidade de casos e de mortes dobrar. No dia 15 de janeiro, Manaus registrava o total de 3.975 óbitos confirmados em decorrência do novo coronavírus e o interior totalizava 2.068 óbitos. No dia 30 do mesmo mês, o Estado chegaria a 8 mil mortos; no dia 10 de fevereiro, já contabilizava 10 mil mortes por Covid-19 e, em 15 dias, 2 de março, somaria mais de 11 mil mortes de amazonenses em decorrência do novo coronavírus.

A chegada inesperada da segunda onda fez com que o Amazonas iniciasse uma série de transferências de pacientes da rede pública para outros estados do país que passavam por situação mais amena da pandemia. Após a diminuição na taxa de ocupação dos leitos em Manaus, a estratégia foi alterada para passar a transferir pacientes do interior do Estado para hospitais da capital amazonense. 


Foto: Junio Matos

Dores que não passam

Até ontem (12), o Estado registrava o total de 11.482 vidas perdidas pela doença que continua desestabilizando milhares de famílias amazonenses como a do radialista Carlos Augusto Rodrigues Gurgel, de 56 anos. Ele é uma dessas pessoas que perderam entes queridos para o vírus: o irmão com quem compartilhou inúmeros momentos em vida.

O comunicador Ricardo César Rodrigues faleceu aos 53 anos em decorrência da Covid-19. Ele era casado, deixou dois filhos e um neto. “A gente até dizia que ele era o ‘louco da Covid’ por que ele usava máscara o tempo todo”, brincou Gurgel. Segundo o radialista, a família não faz ideia de como César adquiriu a doença, em dezembro. Com poucos dias de sintomas, ele chegou ao estado mais crítico da doença e precisou ser entubado.


Ricardo César, de vermelho, foi uma das vítimas da segunda onda da Covid-19. Foto: Arquivo Pessoal

“Ele começou a se sentir mal, foi diagnosticado com Covid-19 e começou a se tratar em casa, no entanto, ele piorou. Meu irmão teve falência dos rins e precisou entrar na hemodiálise mesmo entubado. Ele conseguiu curar-se da Covid-19, mas ele não se recuperou mais devido as consequências que o vírus causou nele”. O comunicador Ricardo César Rodrigues esteve 29 dias internado e veio a óbito no dia 9 de janeiro de 2021 em decorrência da doença, uma vítima da chamada segunda onda no Estado.

“A minha relação com ele sempre foi muito boa. Nós trabalhamos juntos em uma emissora de televisão, onde ele conheceu a esposa que na época era repórter. Ele foi um ‘parceirão’, amigo mesmo, foi um grande chefe de família, sempre coerente nas suas atitudes e sempre pronto a ajudar quem precisasse dele”, relembrou.

Perdas indiretas

A pandemia da Covid-19 trouxe novas realidades em vários âmbitos. Entre elas, a mudança da rotina de escolas públicas e particulares, de professores e alunos os quais tiveram que se adaptar ao ensino remoto, por exemplo.

Educador há 15 anos, o professor da rede pública estadual e municipal, Jevaldo da Silva, afirma que a pandemia mudou completamente a realidade da educação. De acordo com ele, as aulas remotas exigiam condições as quais os pais, os alunos e professores não estavam preparados.


Foto: Arquivo Pessoal

“Nós nos deparamos com a falta de materiais necessários e a não garantia de condições para esse regime de trabalho remoto. Tivemos, portanto, que utilizar os nossos próprios recursos como energia, internet, computador e outros materiais os quais não foram fornecidos pelo governo e nem pela prefeitura”, explicou.

Entre outras situações, surgiram novos problemas em meio ao trabalho de centenas de professores, como destacou o educador. “Criara-se burocracias com a finalidade de controlar o trabalho docente, a exemplo de preenchimento diário de formulários, planejamentos, além de termos que assistir aos alunos individualmente, inclusive fora do nosso horário de trabalho, gerando uma grande quantidade de mensagens que chegam aos nossos aparelhos celulares”.

Para o professor, as aulas remotas não possibilitam a aprendizagem de forma satisfatória ao aluno. Ele afirma que os estudantes passaram, nos últimos meses, a se tornar meros 'tarefeiros'.

“Pois devido à falta de condições, não temos como desenvolver com todos a gama de atividades pedagógicas as quais são feitas durante as aulas presenciais. Contudo, não temos outra saída que não seja o ensino remoto. Porém é preciso que o governo e a prefeitura garantam as condições necessárias para que todos os alunos e professores com o devido aparato tecnológico”, finalizou.

News karol 2d8bdd38 ce99 4bb8 9b75 aaf1a868182f
Repórter de Cidades
Jornalista formada pela Uninorte. Apaixonada pela linguagem radiofônica, na qual teve suas primeiras experiências, foi no impresso que encarou o desafio da prática jornalística e o amor pela escrita.

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.