Sexta-feira, 25 de Setembro de 2020
ENTREVISTA

‘CPI mostra que tem digitais e o comando está no Tarumã’, diz David Almeida

Ex-governador interino citado na CPI da Saúde acusa a comissão de está sendo instrumentalizada pelo ex-governador Amazonino Mendes com o objetivo de desgatar possíveis adversários políticos.



David11_3DFC9C2B-EAAB-42E1-98A7-E633FE4F254A.JPG (Foto: Junio Matos)
09/08/2020 às 16:56

Após ter requerimento negado para ser ouvido na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Saúde, o ex-governador interino, David Almeida (Avante) afirmou que irá aguardar o desenrolar das investigações da CPI para tornar público o raio-x da saúde com todos os documentos e informações pertinentes à gestão da pasta durante o governo interino. Almeida assumiu o comando do Estado por 144 dias após o ex-governador José Melo ser cassado pela Justiça Eleitoral em maio de 2017.

Com contratos firmados em sua gestão no radar da CPI da Saúde, o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas (ALE-AM) tentou “prestar esclarecimentos” sobre pagamentos feitos ainda no seu governo à empresa Norte Serviços Médicos. O pedido foi após o ex-deputado ter sido citado nominalmente pelo relator da Comissão, Fausto Jr (PRTB) e a CPI ter mostrado que nos últimos três governos, a gestão que mais desembolsou recursos para empresa foi a de Almeida.



Em entrevista ao A CRÍTICA, David comentou sobre o processo de impeachment contra o governador Wilson Lima (PSC) e o vice Carlos Almeida (PTB) arquivado na quinta, o resultado das eleições 2018 e a preparação do Avante, sigla que preside no estado, para eleições municipais deste ano.

O senhor recorreu à Justiça para que CPI analise sua defesa e seus argumentos?

Não por um motivo. Após negar o requerimento, o próprio presidente da comissão fez uma declaração, em uma entrevista, de que ele não investiga pessoas, investiga fatos. Não sou investigado em nada e essa declaração dele me tranquilizou em relação ao que está sendo apurado na CPI. E eu achei desnecessário entrar na Justiça para pedir para ser ouvido em função da própria declaração do presidente de que eu não sou citado.

Pretende tornar público os documentos mencionados pelo senhor?

Vou aguardar o desenrolar das investigações, apurações até onde vai chegar a CPI. Certamente, tornarei público o que eu tinha para falar caso a CPI aceitasse o meu convite. Eu vou mostrar como peguei a Saúde e como deixei. O Amazonas não teria passado tantos vexames e tantas vidas poderiam ter sido salvas se o que eu deixei com documentos comprovados e protocolos tivessem sido seguidos. No tempo oportuno irei colocar as informações pertinentes à Saúde do Amazonas. Vou esperar o desenrolar das investigações da CPI para torná-las públicas, mostrar quem são os culpados e são bem conhecidos.

Na sua avaliação, a CPI está sendo seletiva ou blinda alguém?

Quando dá um salto de 15 meses do governo que me sucedeu, do Amazonino, que pagou infinitamente valores maiores e ela encontra um pagamento de um serviço, é óbvio que colocaram lupa para encontrar problemas e desgastar possíveis adversários deles, no caso do Amazonino. O Ministério Público Federal, Ministério Público Estadual, Procuradoria Geral da República e a Receita Federal já comprovaram a questão no governo do Melo e Omar. Pessoas já foram presas e estão cumprindo sentença e pena. Vai investigar aquilo que já foi investigado? Essa investigação tinha que ouvir David, Amazonino e Wilson, inclusive, chamando os próprios governadores para serem ouvidos. E eu estou disposto a ir a hora que quiserem e que me chamarem. Como pode uma CPI investigar um contrato de 2017 (quando teve três gestões), o TCE aprovou as contas do governo desse ano e a CPI pular os 15 meses do (governo) Amazonino. O TCE reprovou as contas do Amazonino de 2018, a CPI pulou 15 meses e mostra que está fazendo uma investigação seletiva.

Se estivesse participando da CPI, o que o senhor faria diferente?

Analisaria os fatos sem olhar as pessoas e os números sem se importar com o processo político. A CPI estava indo muito bem até o momento que deixou de analisar que uma empresa teve contratos durante 15 meses no governo Amazonino. Aí ela mostra que tem digitais e que está sendo teleguiada e que o comando dela está lá no Tarumã, protegendo alguém.

A CPI da Saúde mostrou que nas últimas três gestões estaduais a sua foi a que mais pagou a Norte Serviços.

Eu não fui eleito. Estava presidindo uma sessão da Assembleia e fiquei sabendo que eu era governador. Tive que cumprir uma missão constitucional. Nós não contratamos. Apenas demos continuidade a tudo que estava sendo feito e corrigimos os rumos para que não fosse mais feito, por exemplo, contratação por indenização. Não é ilegal, mas é a exceção da exceção. Mas se tornou regra. Não vou me antecipar ainda porque vou esperar até onde eles vão para mostrar o verdadeiro raio-x da saúde como eu deixei.  Essas contratações dessa empresa não tive nenhuma ingerência ou participação até porque as secretarias são autônomas. Tem as suas procuradorias, sua comissão de licitação e o setor de compras. Na Susam troquei apenas o secretário que praticamente não trocou ninguém. A minha participação é meramente administrativa sem a participação efetiva na contratação dessa ou de qualquer outra empresa. Uma licitação foi feita na nossa administração que foi das cirurgias que ganhou quem teve menor preço e ainda assim tentaram macular e fazer com que se tornasse inverdade uma contratação lícita.

O senhor foi alvo de uma representação do Ministério Público de Contas que apontou à época da sua gestão interina por superfaturamento de R$ 7 milhões, de um contrato para realização de cirurgias. O que de fato aconteceu?

Acusações falsas, mentirosas com cunho eleitoreiro e seguindo o princípio de Joseph Goebbels, ministro da comunicação nazista, uma mentira dita mil vezes torna-se verdade. Instituto que faz artes, cultura e dança oferece uma proposta de R$ 14 milhões para realizar cirurgias e o outro instituto que fazia saúde, cirurgia e já atendia ofereceu R$ 8 milhões. Ganhou para o bem do serviço público quem ofereceu a menor oferta da comprovação do efetivo serviço. A desinformação foi tão grande que causou prejuízos tamanhos. A representação foi arquivada por falta de prova. Na verdade, o que acontece: a empresa que perdeu denunciou porque queria ganhar uma licitação com o contrato quase que o dobro. Claro que vai perder.

O ex-secretário executivo de saúde do interior, Edivaldo da Silva disse, em depoimento na CPI, que a Susam pagou R$ 868 mil por serviços sem comprovação em 2017. O que o senhor tem a declarar?

Era sobre isso que eu precisava ir falar na comissão A contratação é uma fase. Quem contratou? Nesse caso a Secretaria do Interior. Quem atestou? Quem assinou para fazer o pagamento? São quatro atos com responsabilidade e assinatura de quem o faz que devem ser responsabilizados. O ato do governador pagar é meramente administrativo, do qual não tive participação nenhuma. E se, nesse caso, apurada as responsabilidades que sejam culpados aqueles envolvidos com o rigor da lei. Fato esse que não tem a minha participação em nenhum momento tanto na contratação, execução, no atesto do pagamento e o que tem um ato administrativo pago pela secretaria de fazenda natural.

Como o senhor analisa o processo de impeachment conduzido pela Assembleia Legislativa do Amazonas?

Não vejo no ordenamento jurídico nenhum texto ou fundamento para se cassar governador e vice. Ainda não vi. As responsabilidades são distintas e elas precisam ser individualizadas. Acredito que o processo já nasceu com esse vício em função da colocação do vice juntamente com o governador.

Quais são as lições que o senhor tirou do governo interino?

No Amazonas é o melhor lugar para você resolver os problemas e esses eu resolvi. Paguei o maior abono da história da educação para os professores, fiz a maior promoção da história da Polícia Militar e nós fizemos o maior programa de saúde do Amazonas, programa Fila Zero com quase 100 mil pessoas. Na infraestrutura, asfaltamento de quase 500 quilômetros de estradas, ramais e vicinais. Liberamos a licença ambiental para o plantio de soja em Humaitá e pela primeira vez um governador enviou para Assembleia uma mensagem diminuindo impostos. A cadeira de governador é o lugar certo para mudar a vida das pessoas e eu tive essa comprovação durante os 144 dias que estive à frente do governo do Estado.

O senhor se arrepende de ter disputado a eleição e ficado sem mandato?

De forma alguma. Eu mostrei que o amazonense tem força. A minha eleição foi forte e a minha votação foi exponencial para uma eleição majoritária. A minha participação em 2018 me referenda e me credencia a disputar a eleição 2020. Cumpri um papel democrático, fundamental e importante para minha condição e posição atual.

O que o senhor pensa desse movimento nacional de ojeriza à política?

O povo cansou de promessas vagas, vãs e absurdas, inclusive, o próximo prefeito não precisa inventar a roda. Ele precisa ser eleito e fazer o que tem funcionar. Os políticos foram muitos ruins. Comprovei que em cinco meses fiz mais coisas que governadores em mandatos inteiros. Isso é a comprovação da insatisfação popular. Ou os políticos mudam o rumo, falam a verdade como estou falando do que é possível fazer e o que não é possível, ou essa insatisfação vai se agravar ainda mais. Promessas vãs, não cumpridas e absurdas com o tino estritamente eleitoral faz com que a população tenha ojeriza dos políticos.

Dá para resolver os problemas do país fora da política?

O que falta para o serviço público é fazer com que as ações de governança e administração da iniciativa privada sejam implementadas na administração pública. Se o poder público que não gera riqueza, distribui melhor essa riqueza com gestão, eficiência e tecnologia teremos um estado mais eficiente e serviços públicos mais eficientes chegarão a ponta e vão satisfazer a população.

Na sua avaliação, ainda existe nova política?

Não existe velha e nem nova política. A política é uma só. Existem velhos e novos políticos. Velhas e novas práticas. É isso que estamos tentando mudar. Mostrando que com novas práticas, novas ideias e novos posicionamentos é possível ter uma política e serviço público melhor e o político sendo melhor avaliado. Aonde eu vou estou sendo bem recebido porque tenho uma vida, conduta ilibada e um comportamento que agrada o eleitor.

O que o senhor pensa sobre a disseminação de fake news?

A desinformação causa um problema gigante à sociedade conduzindo a população como rebanho de acordo com seu viés. Quem pratica esse tipo de política de ataque precisa ser responsabilizado civil e criminalmente porque esse tipo de atitude tira vidas, enluta famílias, tira emprego e frusta sonhos. Essa é uma nova modalidade na vida atual da política que precisa ser combatida. Precisamos debater ideias, opiniões, propostas e não ficar discutindo a fulanização ou discutindo a vida das pessoas. 

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Repórter de A Crítica

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