Quinta-feira, 21 de Novembro de 2019
LINCHAMENTOS

Cresce o número de linchamentos promovidos pela população em Manaus

No ano passado, foram 10 casos e outros 56 foram contabilizados entre os anos de 2015 e 2017. Somando, são 72 assassinatos a pretexto de “fazer justiça com as próprias mãos” nos últimos quatro anos e meio.



morte_1C2CCEF0-5EFB-40F0-9D0C-C5C71670E1B6.jpg No sábado retrasado, um adolescente de 16 anos foi morto em Manaus após tentar assaltar um ônibus da linha 054 (Foto: Divulgação)
21/07/2019 às 11:16

A morte de um adolescente de 16 anos, assassinado a pauladas há pouco mais de uma semana em Manaus, engrossa as estatísticas de linchamentos no Amazonas. Sem contar com este último caso – registrado após uma tentativa de assalto cometida pelo jovem com um comparsa a passageiros do ônibus 054, na Zona Norte de Manaus – a Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM) contabiliza seis mortes por linchamento no Estado entre janeiro e junho deste ano.

No ano passado, foram 10 casos e outros 56 foram contabilizados entre os anos de 2015 e 2017. Somando, são 72 assassinatos a pretexto de “fazer justiça com as próprias mãos” nos últimos quatro anos e meio.



Entre os linchados, está o filho do pastor José Gonçalves Cardoso, 48. “No dia (do linchamento), cheguei ouvir fogos perto da delegacia, até que uma pessoa chegou em casa e disse que iriam invadir a minha casa e também contou que tinham matado meu filho. Foi a pior notícia da minha vida”, relembra o pai. O filho dele, Gabriel Lima Cardoso, 18, foi brutalmente espancado, em julho de 2018, na cidade de Lábrea, no interior.

Gabriel Lima era o principal suspeito de ter estuprado e matado com 16 facadas uma adolescente de 14 anos no município. Na época, o pai fez questão de entregar o filho para a polícia após ter o conhecimento que ele era suspeito de ter cometido o crime.

“Tiraram meu filho, mataram ele brutamente, tacaram fogo nele. Como pai, eu me sinto revoltado porque confiei na Justiça, que eles iriam proteger meu filho”, reclama o pai que também é pastor e afirma que nunca aceitaria que o filho ficasse impune pelo crime que cometeu (por isso entregou Gabriel) e queria que ele cumprisse a pena conforme é previsto na lei.

Um ano após o ocorrido, ele afirma não ter peso na consciência, mas que não acredita mais na Justiça, até porque os 13 homens envolvidos no linchamento do filho estão soltos. “É lamentável porque todos se calaram a respeito do caso. Hoje, sinto uma grande sensação de insegurança e que a Justiça só pode ser feita com as próprias mãos”, relata o pai de Gabriel, que na época que foi morto após levar duros golpes na cabeça, pedradas, pauladas, chutes e ainda teve o corpo exibido como um “prêmio” em praça pública.

Morto após assalto

Na noite do último dia 13, o adolescente do início desta reportagem foi morto a pauladas na rua 87 do conjunto Francisca Mendes, bairro Cidade Nova, Zona Norte da capital. O crime ocorreu depois que ele e um comparsa tentaram assaltar um ônibus da linha 054, que faz linha do conjunto Canaranas ao T3. Os passageiros reagiram, ele foi agredido a pauladas pela população e morreu no hospital.

De acordo com a polícia, o jovem e um homem não identificado entraram no ônibus como passageiros no conjunto Canaranas, bairro Cidade Nova, na Zona Norte. O menor estava com uma faca e o outro homem com uma arma falsa. Os passageiros desconfiaram e reagiram ao assalto. Eles conseguiram deter o adolescente, mas o comparsa conseguiu fugir.

Apologia presidencial é estímulo

Para o cientista social Pedro Raposo, o fenômeno linchamento é algo que, do ponto de vista histórico, é cometido por diversas sociedades. “É um fenômeno coletivo, do qual é possível fazer várias leituras. Uma destas é a nossa realidade do descontentamento da sociedade com a segurança pública em todo o País, o que leva em muitos casos, devido ao crescimento da população, com que cidadãos façam justiça com as mãos na falta de uma punição mais severa”, explica o sociólogo, professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

A apologia “presidencial” do bolsonarismo à “prática da justiça com as próprias mãos”, quando defende a posse e o porte de arma, por exemplo, também contribui para que cada vez mais casos como este ocorram, diz.

“Existe todo um movimento de formação sobre o que é fazer justiça e resolver um problema quando um assaltante é amarrado na rua e é linchado, por exemplo. Podemos, sim, dizer que é algo que já existia, mas, quando vemos um governo que defende isto e que vem sendo amplamente divulgado na mídia, com certeza isto causa um tipo de influência”, completa Raposo.

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Repórter de A Crítica
Jornalista formada em 2014 pela Uninorte e pós-graduanda em Gestão de Redes Sociais e Marketing Digital pela Fametro, começou em A Crítica como repórter de esportes em 2016. Hoje atua na editoria de política e economia, com uma enorme paixão pelo jornalismo investigativo.

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