Segunda-feira, 22 de Julho de 2019
CONGESTIONAMENTO

Crescimento exponencial da frota de carros faz trânsito padecer em Manaus

Em Manaus, com uma frota de mais de 760 mil veículos, ainda reina a ideia de que ter um carro próprio resolve o problema de locomoção, o que é, segundo aponta estudo, uma ilusão



transito_3552502B-8C11-4EB0-88AA-58BB9C0ECE3E.JPG Foto: Sandro Pereira
16/06/2019 às 15:21

O despertador do estudante finalista de ciências biológicas Jhonatan Gomes toca às 5h30 da manhã todos os dias. Entre se arrumar e tomar um gole de café, ele tem que estar na parada de ônibus antes das 6h20 para chegar à Escola Normal Superior (ENS/UEA) antes das 9h. Isso porque o tempo de percurso entre a casa dele, no bairro Nova Cidade, Zona Norte de Manaus, e a avenida Djalma Batista, leva entre  40 e 90 minutos. O motivo já virou um “velho conhecido” dos manauaras: o engarrafamento.  Haja carro! Neste ano, a cidade já superou a marca de 760 mil veículos em circulação.

“Quem mora na Zona Norte sofre com o engarrafamento da avenida Torquato Tapajós [na Zona Centro-Oeste da capital]”, diz Jhonatan. “Quando o trânsito está mais leve, demoro entre 35 e 45 minutos pra chegar na universidade. Com engarrafamento, demoro 90 minutos. Para eu não pegar o engarrafamento que inicia às 7h e só termina perto das 9h, tenho que pegar o ônibus das 6h20. Pegar o das 6h40 é pedir pra morrer”, conta ele, que já perdeu as contas de quantas vezes chegou atrasado para as atividades do seu trabalho de conclusão de curso.

O relato de Jhonatan é o resumo da rotina de muitos manauaras que precisam encarar o trânsito nos horários de pico, que, segundo levantamento do Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU), ocorrem pela manhã, das 6h30 às 8h30, e no fim da tarde, das 17h às 19h. Os registros de engarrafamentos, de acordo com o órgão, ocorrem nos principais corredores de tráfego nas zonas Centro-Sul, Norte e Leste da cidade.

A frentista Vanessa Viana sabe bem disso. Ela mora no bairro Cidade Nova, Zona Norte da capital, e precisa, todos os dias, se deslocar para o bairro Coroado, na Zona Leste, onde fica o posto de combustível onde trabalha. “Às vezes levo 1h30 pra chegar ao trabalho quando fico ‘presa’ na avenida Grande Circular. No fim do dia, quando o trânsito na alameda Cosme Ferreira está travado, levo até 45 minutos pra voltar pra casa. Quem anda de ônibus sofre mais. Além da demora do coletivo, a gente tem que encarar esses engarrafamentos. Por isso as pessoas optam pelo carro próprio, porque o transporte público da cidade é péssimo”, avaliou ela, enquanto aguardava o seu ônibus na avenida Efigênio Salles.

O tempo médio gasto pelo manauara no trânsito não está distante do registrado em outros centros urbanos. No Brasil, as pessoas gastam, em média, duas horas por dia no trânsito ao se deslocar de casa para as suas atividades diárias, independentemente se está em um carro particular ou em um meio de transporte público, como demonstrou o estudo “Como o brasileiro entende o transporte urbano”, encomendado pela 99 em parceria com o Instituto Ipsos, divulgado no começo do mês.

Mesmo assim, ainda reina em Manaus a ideia de que ter um carro próprio pode resolver o problema de locomoção ou possibilitar maior controle da agenda, o que é, como aponta esse mesmo estudo, uma ilusão. A escalada exponencial da frota de veículos em Manaus de 2016 até meados de 2019 é uma prova desse equívoco.

Frota em circulação

Só para ter uma noção disso, o número mensal de emplacamentos de veículos na capital saltou de uma média de 1,4 mil, em 2016, para 3,4 mil na média dos cinco meses de 2019, segundo levantamento do Departamento Estadual de Trânsito do Amazonas (Detran-AM).

Mesmo com a alta do desemprego e os solavancos econômicos dos últimos anos, a frota de veículos na cidade só aumentou. De janeiro a abril desse ano, comparando com o mesmo período de 2018, por exemplo, a frota saltou de 757 mil veículos para 767 mil só na capital amazonense. O Estado já beira um milhão em circulação (937 mil).

 

Blog: Aline Félix

Psicóloga, coordenadora do ‘Janeiro Branco’ 

O congestionamento de veículos está por toda parte. Isso abala o nosso emocional. Estar parado no trânsito, além de nos preocupar com os atrasos e afazeres do dia a dia, nos faz lembrar de tudo que temos que fazer. Os condutores ficam então, nervosos, ansiosos e estressados, traçando um caminho para a luta e a agressividade no trânsito.

Quem nunca xingou alguém que nos deu uma fechada porque estávamos já de cabeça cheia? Ao extravasar, se por um lado alivia (um pouco) o estresse, por outro não nos permite enxergar o motivo da tensão. O estresse, de forma geral, pode levar ao desenvolvimento de quadros de depressão e ansiedade, insônia, transtornos alimentares, Síndrome de  Burnout, Sindrome do Pânico, doenças cardiovasculares, entre outras.

Não faça listas intermináveis no trânsito. Isso é um açoite à nossa paz. Escute músicas, cante para descontrair e faça caretas - a mímica facial tem ligação com o cérebro, então, quando estimulamos os músculos do rosto, relaxamos na descontração.

Neste sentido, recomendamos que o condutor crie estratégias para amenizar tal estresse. Vale a pena planejar o itinerário antes de sair de casa e as atividades que serão desenvolvidas, sabendo que fatos inesperados poderão acontecer e gerar aborrecimentos. Usar aplicativos que sinalizam a rota mais rápida e onde estão os congestionamentos podem ajudar. Recomendo, também, atividades físicas, que são capazes de causar uma sensação de relaxamento psicológico, mesmo que o exercício exija muito do corpo.

Controlar a respiração é outra boa maneira de evitar o stress no trânsito. Basta inspirar o ar, prendê-lo por alguns segundos e depois soltá-lo para a sensação de calma aparecer. E, claro, e não menos importante, fazer terapia, pois além de ajudar a controlar o estresse no trânsito, ajuda em vários outros aspectos da nossa vida emocional.

Sem alternativas a curto prazo

De acordo com o especialista em trânsito Haniery Mendonça, coordenador do “Maio Amarelo” a principal causa dos congestionamentos da cidade é justamente a grande quantidade de carros particulares circulando. “Toda cidade que deseja ter um trânsito mais calmo precisa melhorar o transporte público”, aponta.

“A frota de veículos de Manaus cresceu e vai continuar crescendo porque a taxa de juros é a mais baixa dos últimos quatro anos. É mais fácil comprar carro hoje, e, como não há lei no Brasil sobre a renovação da frota de veículos, os carros novos e antigos seguem circulando e gerando congestionamentos na cidade”, avaliou.

Uma das soluções apontadas por ele para destravar mais o trânsito da cidade seria abrir mais ciclovias e ciclofaixas. “Isso facilitaria e tornaria mais seguro o uso da bicicleta como meio de transporte”, disse. No entanto, na prática, isso está bem longe de se tornar uma alternativa viável em Manaus. Os motivos vão da violência no trânsito (os casos recentes de atropelamento de ciclistas inibe muita gente a pedalar nas vias da cidade) ao sistema cicloviário deficiente.

Saída pela bike

Mesmo assim, os obstáculos não impediram o advogado Leonardo Aragão de, há sete anos, trocar o carro próprio pela bicicleta para realizar as suas atividades diárias. “Decidi ir ao trabalho de bicicleta por conta do tempo de deslocamento e pelos custos. Antes eu demorava em média 40 minutos para chegar no meu trabalho de carro, e, além da gasolina, ainda pagava estacionamento. Hoje o deslocamento é de 20 minutos, com facilidade para estacionamento, e ainda economizo com academia, gasolina ou passagem de ônibus”, relata ele, que faz parte do grupo cicloativista “Massa Crítica Manaus”.

Todos os dias Leonardo sai do conjunto Vieiralves, Zona Centro-Sul, e percorre as avenidas Djalma Batista, Joaquim Nabuco e Getúlio Vargas, até chegar ao seu local de trabalho. Ele pedala, aproximadamente, cinco quilômetros. “Infelizmente, a cidade não possui nenhuma estrutura cicloviária segregada no meu trajeto (ciclovias ou ciclofaixas), o que facilitaria muito. Por conta disso, às vezes tenho que ir pela contramão ou pela calçada. Na Getúlio Vargas tem uma ‘ciclorrota’ mas infelizmente as sinalizações já não existem e os motoristas não respeitam”, diz ele.

“Deveria existir um incentivo efetivo e imediato para o uso da bicicleta em Manaus. Uma bicicleta circulando é um carro a menos na rua”, sugere.

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Repórter do caderno de Cidades - Jornal A Crítica

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