Quinta-feira, 20 de Junho de 2019
Manaus

Crianças e adolescentes são espectadores da violência e especialistas alertam

O fenômeno 'Inocência de olho no mal' é comum nas cenas de crimes de Manaus. Os especialistas relatam as influências e possíveis impactos na vida dos menores



1.jpg Crianças e adolescentes são espectadores de um assassinato violento cometido contra um jovem no Novo Aleixo
24/11/2013 às 09:56

Tornou-se comum em cenas de crime em Manaus, quase que diariamente, a presença de crianças e adolescentes, que, em alguns casos, passam a ser maioria entre os espectadores.

Esta cena é preocupante e chama a atenção de pessoas comuns e principalmente profissionais da psicologia e antropologia, que fazem um alerta aos pais e responsáveis que permitem a presença dessas crianças em cenas de violência.

 No dia 7 deste mês, um homem foi assassinado na comunidade Nossa Senhora de Fátima, bairro Novo Aleixo, Zona Norte, com dez tiros e o corpo dele ficou jogado na rua durante horas, até que o Instituto Médico Legal (IML) realizou a remoção. Uma foto de A CRÍTICA mostra claramente a quantidade de crianças aglomeradas próximo ao corpo da vítima, todas sem demonstrar qualquer espanto ou medo diante da violência registrada no bairro.

Em outras situações semelhantes, presenciadas por  A CRITICA, são pais e mães que levam crianças de colo para “participar” de tais cenas de violência.

 Para o antropólogo do Núcleo de Cultura Política da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Ademir Ramos esse tipo de comportamento pode ser classificado como a  “banalização de crime” e pode acarretar sérios problemas às crianças, que ainda estão com o caráter sendo formado.

  “Isso realmente acontece e pode sim prejudicar na educação e no crescimento dessas crianças. Na primeira vez que acontece, existe um temor, depois a violência  se torna natural”, avaliou o professor.

Ramos disse também que, participando dessas situações, as crianças crescem com a idéia de banalização da vida, como se a vida humana não tivesse valor algum.

“Uma regra no campo da Antropologia é que o exótico se torna natural. Eles vão achar que tudo isso é natural e que tudo pode, seja em casa, seja na escola, seja na rua. O que está sendo criado é uma sociedade embrutecida”, disse.

O antropólogo se mostrou preocupado com o crescimento dessas crianças e fez alguns alertas aos pais.

“Como fica a memória de uma criança dessas que é levada pelos próprios pais para presenciar uma cena de violência?  Era alguém que perdeu a vida violentamente. Isso é muito preocupante e com certeza vai repercutir no comportamento dessa criança, adolescente e cidadã”, alertou.

Ramos apontou também que em muitos casos isso acontece em bairros de periferia, mas que famílias de classe média não estão livres de tais comportamentos.

“A miséria embrutece o homem e quando não se tem uma estrutura familiar, a miséria não te dá opção. Famílias de classe “A” também podem passar por isso, quando um pai para o carro para ver um acidente de trânsito na estrada por exemplo, ele está expondo a criança a uma situação de violência”, concluiu.

Análise da psicóloga Maria Georgia Duarte de Macedo

‘Eles não têm ideia do mal que causam’, disse.

Tais comportamentos, não somente das crianças, assim como dos pais que expõem os filhos a essas situações, podem causar sérios problemas emocionais. “Eles passam a fazer parte daquilo e passam a pensar que é normal, que é comum. Pode formar um transtorno de estresse pós-traumático, uma revivescência, que é muito mais forte que uma simples recordação. Isso vai contribuir para a formação da personalidade dessa criança. A mãe ou o pai que leva seu filho para presenciar essas cenas de violência, não tem noção do mal que está fazendo ao filho. Eu penso que um filho é presente de Deus na vida de qualquer família em qualquer lugar. Esses pais precisam ser mais responsáveis na formação dos filhos porque as consequências podem ser graves”, alertou.


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