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Manaus
EXPLORAÇÃO INFANTIL

Torturas emocionais atrapalham denúncias de abuso sexual, diz delegada

No Dia de Combate à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, realizado ontem, autoridades participaram de ato público, no Centro 21/05/2017 às 06:19
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Delegada Juliana Tuma alerta que é preciso conscientizar a população e ficar atento às mudanças de comportamento. (Foto: Evandro Seixas)
Álik Menezes Manaus

A dependência emocional pode ser um empecilho  e contribuir para que crianças e adolescentes, vítimas de abuso sexual dentro das próprias casas, fiquem com medo e não denunciem seus algozes. No Dia de Combate à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, celebrado ontem, uma vítima de abusos relata como viveu aprisionada e autoridades orientam sobre os casos de violência.

O relato a seguir é de uma estudante de biologia que viveu quase cinco anos sendo abusada sexualmente dentro de casa, pelo menos duas vezes na semana. “Começou quando eu tinha entre 10 e 11 anos. Quando minha mãe saía para resolver alguma coisa fora de casa, me deixava com meu padrasto, que era a minha figura paterna, mas ao invés dele cuidar de mim como um pai, ele me usava como um objeto para se satisfazer”, contou Maria Fernanda* (Nome fictício). 

A estudante, que hoje tem 19 anos, contou que o padrasto tinha o costume de beijá-la no rosto, colocá-la sentada no colo dele enquanto fazia carícias. “Normalmente esse ‘carinho’ acontecia quando a minha mãe não estava em casa. Apesar de me sentir totalmente desconfortável, tinha medo de comentar com minha mãe pois ele era marido dela e eu o considerava meu pai”, contou. 

Foram quase cinco anos de abusos até que, aos quinze anos, a jovem entendeu de fato que não se tratava de carinho de pai para filha. “Eu desconfiava que não estava certo, porque não me sentia bem, mas só tive certeza quando acordei com ele tirando minha roupa e com pênis ereto”, lembrou. 

Apesar dessa situação, a jovem esperou dois anos para contar para a mãe dela. Ela tinha medo da mãe não acreditar nos relatos dela e também que o padrasto fizesse algo contra as duas. “Nós dependíamos dele para sustentar a casa, minha mãe era doméstica e eu tinha medo do que aconteceria depois. Ele havia parado um pouco desde o dia que acordei com ele em cima de mim”, disse a jovem, que só teve coragem de contar o caso aos 17 anos.

É preciso conscientizar

A história de Maria é apenas uma de muitos casos que acontecem todos os dias dentro de vários lares. Segundo a titular da Delegacia Especializada em Crimes contra a Criança e o Adolescente (Depca), Juliana Tuma, a maioria dos casos de abuso acontece nos ambiente familiar e os autores são membros da própria família. Muitas mães e crianças têm dependência emocional. 

“Muitos casos acontecem no seio familiar, dentro de casa. A dificuldade que nós temos de ajudar essas pessoas é  porque elas não denunciam, tem dependência emocional, tem medo de desfazer a família, tem medo do abusador que faz ameaças veladas”, afirmou. 

 A delegada disse, também, ser fundamental ações de conscientização e de informação porque muitas crianças e adolescentes nem sabem que estão sendo violentadas e, por isso, não denunciam os agressores. “A proteção começa em casa e na escola, então é importante orientar essas famílias. Orientar na escola sobre atitudes que podem ser abuso e que devem ser informadas aos pais. É importante trabalhar na prevenção desses casos”, disse. Segundo dados da Secretaria  Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), no ano passado 513 crianças e adolescentes foram vítimas de estupros, enquanto esse ano foram registrados 113 casos. 


Com relação a exploração sexual de crianças e adolescentes, a SSP-AM informou que foram registrados 826 casos no ano passado e 147 até o mês de maio desse ano.

Aumento de denúncias 

Houve um aumento de denúncias realizadas nas escolas públicas e até particulares,  segundo a titular da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc), Graça Prola. 

“A escola é o ambiente onde deságuam todas as formas de manifestações e consequências da violência. Há um aumento de denúncias nas escolas. Eles fazem cartas e contam aos professores que estão sofrendo abusos”, disse Prola.

A secretaria atribui o aumento das denúncias às constantes ações educativas e informativas dentro das escolas municipais, estaduais e particulares. “Estamos desenvolvendo um trabalho de empoderamento das crianças e dos adolescentes para que eles consigam se defender por meio de denúncias”, disse. 

Ontem, vários órgãos de proteção a criança e do adolescente participaram de um Ato Público na Praça do Congresso, no Centro, para sensibilizar a sociedade sobre a exploração e abuso sexual contra crianças e adolescentes. 

Números 

513  crianças e adolescentes foram vítimas de estupros no ano passado. Este ano, já  foram registrados 113 casos, de acordo com dados da SSP-AM. 

 

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