Domingo, 13 de Outubro de 2019
Manaus

Crianças e jovens indígenas pedem uma educação que preserve sua cultura

Depois de muitas denúncias de bullying, os pequenos indígenas, que atualmente dividem uma escola com 'brancos', evitam ir ao local com seus adereços típicos



1.jpg Bianca Paulino é uma das alunas que não suportou os riscos de ir e vir a uma escola de Ensino Médio em Manaus
31/01/2015 às 11:16

Aproxima-se mais um ano letivo da rede municipal de ensino e, com ele, uma velha preocupação para os pais de 21 crianças e adolescentes da etnia Karapanã, que moram às margens do rio Tarumã-açu, Zona Metropolitana de Manaus.

Por não terem uma escola indígena com ensino regular, são obrigados a se deslocarem, precariamente, para dividir espaço com alunos “brancos” na escola Paulo César da Silva Nonato, também no Tarumã-açu. Depois de muitas denúncias de bullying, os pequenos indígenas evitam ir estudar usando adereços típicos de suas tradições culturais, como brincos, colares e pinturas no corpo. 

“Na escola anterior (Santo André), nossas crianças foram vítimas de racismo e preconceito por parte da gestora. Ouviam palavrões, eram colocados para trabalhar no mato, sem o acompanhamento de um monitor, enfim, eram intimidadas. Levamos ao conhecimento da Funai e do Ministério Público Federal (MPF), mas o problema só foi resolvido quando tiramos as crianças de lá”, relata Maria Alice da Silva Paulino, 33, mãe de quatro filhos, líder comunitária indígena da etnia Karapanã.

Bianca Paulino, 17, teve razões de sobra para desistir de estudar. Para chegar à escola Adelaide Tavares, no bairro Alvorada, Zona Centro-Oeste de Manaus, ela saía às 10 da manhã, atravessava o rio Tarumã num casquinho de madeira e andava mais um quilômetro até a parada do primeiro ônibus (que só passa de duas em duas horas). Imagine o retorno, 22h, tendo de enfrentar, no último trajeto, a travessia de uma rota constante de grandes lanchas. Outros cinco alunos do Ensino Médio continuam a “via sacra” todos os dias.

Reconhecimento

A proposta é que Município, Estado e União atentem para a necessidade de preservar a cultura e a integridade moral das crianças, reconhecendo uma das áreas ocupadas pela etnia para a construção de uma escola indígena que tenha também o ensino regular. 

Por iniciativa dos próprios indígenas, existe uma pequena cobertura de 20 metros quadrados, sem paredes, piso de barro e sem energia elétrica. Nesse espaço, três vezes por semana, crianças, jovens e adultos aprendem sobre a cultura indígena.

De acordo com Maria Alice, a área (aproximadamente três hectares) na margem direita do Tarumã-açu, onde moram três famílias Karapanã, já está em processo de reconhecimento, faltando a titularização, embora esteja na faixa considerada como Área de Proteção Permanente (APP).

“Precisamos de uma escola de qualidade, com tecnologias que acompanhem tanto as tradições indígenas quanto o conhecimento dos não-indígenas”, apela Alice. A educação indígena começa desde os primeiros anos com alimentação, medicinas tradicionais, o aprendizado da língua, pesca, caça e sobrevivência.


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