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Crianças transformam período de cheia em brincadeira nas áreas alagadas de Manaus

Para um pequeno morador da rua Frei José, Centro de Manaus, o estudante Raul Sena, de 11 anos, a subida das águas é aguardada ansiosamente nos últimos cinco anos 07/06/2015 às 19:11
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Os meninos pegam uma canoa emprestada do vizinho e vão para as ruas alagadas do bairro só para pescar.
Isabelle Valois Manaus (AM)

Para comerciantes, moradores e frequentadores do centro da capital, a subida das águas é um período de adaptação, mudanças e dificuldades. Quase todas as áreas próximas à orla são afetadas, exemplo disso é visto na rua Frei José dos Inocentes, que fica por trás do 9º Distrito Naval, no centro histórico. Desde março, algumas famílias saíram de suas casas para morar em imóveis alugados enquanto as águas do rio “dominam” o local.

Diferente dos vizinhos, para um pequeno morador da rua Frei José, o estudante Raul Sena, de 11 anos, a subida das águas é aguardada ansiosamente nos últimos cinco anos.

O rio Negro, que invade a rua onde ele mora e a própria casa da família,  tem mudado os dias dele, que aproveita esse período para transformar um costume antigo dos moradores daquela área em uma tradição por meio de uma brincadeira de criança, na companhia do irmão mais novo, Rauan de Sena, de 10 anos, do amigo Henrique Ferreira, também de 10 anos.

Os três, diariamente, chegam da escola ansiosos, trocam de roupa e correm para a rua. E não é para empinar pipa e nem jogar futebol. Eles pegam uma canoa emprestada do vizinho e vão para as ruas alagadas do bairro para fazerem o que mais gostam e só nesta época do ano podem fazer sem sair da rua de casa: pescar. E eles pescam vários peixes, como atestam os vizinhos. A maioria “na sorte”, claro: neste domingo foram dois tucunarés.

As canoas do vizinho, que ficam pa radas no final da rua, fazem a alegria da criançada e até ganharam o apelido de “clubinho”. Autorizados pelo proprietário, Raul, Ruan e Henrique ficam de olho nas águas. Como todos são pequenos, Raul joga a isca, enquanto o irmão e o amigo se dividem entre o remo e a guarda do pequeno pescador.

Quando algum peixe morde a isca, um dos dois ajudantes mergulha na água para colocar o peixe na canoa. “Os vizinhos correm pra ver, pois eles fazem a maior festa, gritam, festejam. Sem dúvida esta é a melhor diversão para os meus filhos”, garantiu a mãe de Raul e Rauan, a comerciante Neliane de Sena Teixeira, 30.

Do interior

A paixão dos irmãos Sena pelo rio, certamente, vem de berço. Eles nasceram em Novo Airão (distante 1324 quilômetros da capital) e vieram para Manaus há seis anos, com a mãe, para morar perto do pai, o comerciante Joel Alves de Almeida, que morava em Manaus.

A família se mudou para a rua Frei José dos Inocentes, de onde Raul viu a primeira grande cheia da vida dele, quando as águas chegaram até a porta da casa da família. “Quando a água subia ele passava horas e horas olhando, e perto de completar 7 anos, o Raul nos pediu de presente material de pesca. Foi então que começou a se dedicar, pesquisar sobre os peixes e entender sobre a pesca. Achei um desejo diferente e resolvi arriscar”, contou.

Assim que Raul ganhou o material de pesca, transformou a curiosidade em diversão. Ao jogar a isca no rio, despertou a curiosidade do irmão mais novo e do amigo Henrique, que passaram a participar das “aventuras” do pequeno pescador.

A brincadeira de criança tem motivado os pequenos a, além de levar uma vida mais saudável, longe do sedentarismo, dedicarem-se mais aos estudos, condição para que eles ganhem o tão desejado novo material de pesca. “Ele sabe que precisa se dedicar nos estudos, pois é assim que ele consegue ter a liberdade de fazer o que realmente gosta. Mas precisamos ficar de olho, pois pelo Raul ele ficaria o dia todo pescando”, brincou a mãe.

Sorte de principiantes ou talento?

Os vizinhos acreditam que o pequeno Raul tem sorte de conseguir pescar peixes grandes na área que fica alagada com as águas. Por causa da festa que eles fazem quando pegam um peixe, os vizinhos compraram um surumbim talhado em madeira e deram para o pequeno como um “troféu” do melhor pescador da rua. “Incrível como ele diariamente consegue pescar esses peixes. Tem morador aqui que às vezes tira o domingo para pescar, mas sai da beira da água sem nada. Esse trio vai longe”, disse Manoel Santos, vizinho de Raul.

Para o pequeno Raul, a felicidade é conseguir pescar o peixe. “Gosto mais de pescar do que comer o peixe, quando o tiro da água entrego para minha mãe tratar. Meus vizinhos que pedem para eu segurar o peixe e eles fazem foto”, contou.

A mãe de Raul disse, que às vezes, o filho pede para ela cozinhar somente a cabeça do tucunaré. “Come a metade da cabeça e fica satisfeito, por isso que ele é pequeno”, explicou Neliane.

 Mesmo com o amor à pesca, Raul contou que o que faz é por diversão e distração. Aluno do 8° ano do Colégio Estadual Nossa Senhora de Aparecida, ele sonha, no futuro, ser um profissional voltado à área da saúde. “Amo pescar e conhecer sobre os peixes que vivem nos nossos rios, mas quero, no futuro, poder ser um dentista e ajudar as pessoas que precisam voltar a sorrir de verdade”, detalhou o estudante.

Quando ocorre a vazante, Raul recebe a autorização da mãe para ir um pouco mais longe de casa e continua com a atividade que tanto ama. “Pego a canoa com meus amigos e vamos para rio, mas sempre ficamos próximo da beira”, disse Raul.

O pescador Valmir Rodrigues do Nascimento, de 63 anos, e morador da rua Frei José dos Inocentes, conta que se identificou com o Raul. 

"Moro há treze anos na rua Frei José dos Inocentes. Assim como o Raul, há dois anos consegui pescar, por trás das casas que ficam em baixo da água, um pirarucu de 22 quilos. Os vizinhos só acreditaram porque viram, se não fosse por isso seria apenas uma lenda. Tive vontade de pescar, joguei a isca na água e fui surpreendido, lucrei com o peixe. Os meninos conseguem pescar na área do asfalto, porque no período da subida das águas os peixes procuram mais a beira e à noite eles descansam. Quando a água desce, ele procuram ficar mais para o fundo do rio, coisas da natureza. Agora, aqui por trás da rua Frei José dos Inocentes, fica farto. Tem pirarucu, mas eles aparecem mais no período da noite. Outros animais também podem ser encontrados nesta área, como  quelônios. Essa parte de trás é um pouco arriscada, creio que possa ter jacaré e cobras, mas não acredito que eles consigam conviver na água sobre o asfalto, como os peixes fazem”. concluiu. 



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