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Crimes de trânsito caem no esquecimento das autoridades e culpados ficam impunes

Em 15 anos, apenas 96 casos de acidentes de trânsito com vítimas foram julgados. Ao todo, 2.485 casos ainda estão pendentes de julgamentos 27/05/2015 às 08:44
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Outdoors espalhados na cidade pela família do empresário Juscilande Rosseti relembram o acidente que provocou a morte dele, em 2005, que segue impune
LUANA CARVALHO Manaus

Há exatos dez anos, o empresário Juscilande Rosseti morreu após o carro que ele dirigia ter sido atingido por um bloco de calcário que caiu de uma caçamba que trafegava, sem proteção, na alameda Cosme Ferreira, Zona Leste. Uma década depois, acidentes como esse continuam se repetindo constantemente em Manaus, reflexos da imprudência e da impunidade.

Em 15 anos, apenas 96 casos de acidentes de trânsito com vítimas, que foram parar na Justiça, foram julgados. Ao todo, 2.485 casos ainda estão pendentes de julgamentos, 19 estão em grau de recurso e 319 foram arquivados. De janeiro a março deste ano no Estado foram registradas 86 vítimas fatais, desse total 57 vítimas só na capital (13,64% a menos que no mesmo período de 2014.

O caso mais recente de acidente envolvendo veículos pesados aconteceu na última quinta-feira, quando uma carreta capotou e caiu do Complexo Viário Antônio Simões, na avenida Jornalista Umberto Calderaro Filho, provocando congestionamentos em toda a cidade durante o dia e a noite. Mas poderia ter sido pior.

“Foi um acidente inadmissível, que poderia ter ocasionado uma grande tragédia. Foi um milagre que nenhum automóvel tivesse passando na hora em que a carreta tombou”, declarou o diretor-presidente do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-AM), Leonel Feitoza.

Apesar do caos, não houve vítimas fatais. Mas, há dez anos, o empresário Juscilande Rosseti, com 55 anos na época, não teve a mesma sorte. Ele foi uma das vítimas de veículos pesados que circulam livremente pelas ruas de Manaus, sem segurança, em qualquer horário.

“Estamos completando uma década de dor e nenhuma posição da Justiça. Não temos resposta de nada e não sabemos até que ponto podemos confiar na Justiça. Já participamos de cinco audiências; na última o juiz disse que seria resolvido, mas estamos aguardando até hoje a sentença final”, lamentou a esposa da vítima, Telma Rosseti, de 60 anos.

Juscilande deixou três filhos. Um deles, Paulo Rosseti Neto, por pouco não passou por um acidente semelhante também envolvendo uma caçamba, em 2007. “Enquanto isso, assistimos vários outros desastres acontecendo, pessoas morrendo, sem que nenhuma fiscalização mais eficiente aconteça em nossa cidade. Nós queremos justiça, para que isto não aconteça com outras famílias. Pois a dor é grande e não desejamos para ninguém”, desabafou Telma. No Amazonas, em 2014 foram registradas cerca de 360 mortes, de acordo com o Detran, 2013 registrou 364 vítimas fatais em acidentes de trânsito.

Sem resposta

O Instituto Municipal de Engenharia e Fiscalização do Trânsito (Manaustrans) foi procurado pelo A CRÍTICA para comentar sobre as fiscalizações, bem como regras de circulação de carretas e caçambas, mas não enviou respostas até o fechamento desta edição.

Vítimas da falta de fiscalização nas ruas

A tragédia envolvendo um caçamba e um micro-ônibus da linha executiva 825, na avenida Djalma Batista, em 28 março de 2014, deixou 16 pessoas mortas. Seis meses depois, José Francisco Santana da Silva, 65, e a técnica de enfermagem Milcar Figueiredo Morais, 35, entraram para a triste estatística de vítimas de acidentes de trânsito. Eles morreram após o carro em que eles estavam ter sido esmagado por um contêiner que tombou na avenida Arquiteto José Henriques Rodrigues, Zona Norte, em setembro.

Em maio de 2012, Seráfico Nóbrega Filho, 49, foi morto quando dirigia seu carro com a esposa, Kadma Campos Nóbrega, 42, que estava no banco do passageiro e ficou gravemente ferida. O contêiner, transportado sem pinos, se desprendeu da plataforma do caminhão e caiu sobre o carro, no trecho conhecido como ‘bola da Gilette’, no Distrito Industrial de Manaus, Zona Sul.

Existe um decreto que regulamenta o trânsito de caminhões e carretas incluído na Zona de Máxima Restrição de Circulação (ZMRC), que compreende as principais vias do Centro de Manaus. No entanto, nas outras zonas da cidade, a circulação é livre a qualquer hora do dia.

A fiscalização deveria ser feita pelo Manaustrans. O A CRÍTICA entrou em contato com o órgão, que não informou como o procedimento é realizado.

‘Apreensões’

O diretor do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-AM) Leonel Feitoza, declarou que irá solicitar uma reunião com o prefeito Artur Neto, para tentar buscar soluções para a organização do trânsito na cidade. “Praticamente toda semana temos notícias de acidentes envolvendo carretas. Precisamos fazer um estudo. Vai ter muita ‘gritaria’ dos empresários, mas é preciso impor regras”, afirmou.

De acordo com Leonel, o Detran apreendeu mais de 80 carretas e notificou mais de 200, este ano, em Manaus. “São muitas irregularidades”, disse. 

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