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Crimes ocorridos próximo às delegacias, quartéis e até dentro da Prefeitura intrigam população

Dois assaltos e um homicídio aconteceram nas Zonas Oeste e Centro-Sul da capital nesta semana e foram crimes considerados “ousados”, por serem praticados sob os olhos do poder público 09/11/2013 às 09:02
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Delegado Orlando Amaral dentro do PAC Alvorada momentos após de ter sido assaltado, na última terça-feira. Para ele, a distância do crime para um DIP não influencia mais os bandidos
Vinicius Leal Manaus (AM)

Viaturas nas ruas, ronda policial ou simplesmente ter uma delegacia por perto não impede mais criminosos de cometerem delitos em Manaus. Crimes ocorridos nos últimos dias bem próximos a Distritos Integrados de Polícia (DIP), de Companhias Interativas Comunitárias (Cicom) e até mesmo dentro da sede da Prefeitura demonstram que os delinquentes não ficam acuados em praticar ilegalidades “ao lado” de forças de segurança.

Um assalto no Posto de Atendimento ao Cidadão (PAC) do Alvorada, na Zona Centro-Oeste, ocorreu nesta terça (5). O PAC fica localizado na avenida Desembargador João Machado e a poucos metros dali é a sede do 10º DIP e da 10ª Cicom. “Eles são audaciosos, a distância de uma delegacia ou de um quartel não os impede em nada”, declarou o delegado Orlando Amaral, titular da Delegacia de Roubos, Furtos e Defraudações (Derfd).

Na ocasião, dois homens armados invadiram o local, fizeram disparos e ainda renderam e roubaram o revólver do vigilante. A dupla fugiu levando R$ 29,2 mil. Para Amaral, o cometimento de crimes longe ou perto de sedes de polícia não tem relação com a gravidade do delito. “O crime pode ser próximo, mas não tão próximo a ponto de ser impedido. Eles têm um alvo, cometem o crime em poucos minutos e vão embora”, disse.

Também na última terça (5), Paulo Cesar dos Santos Lacerda foi morto após ser alvejado com vários tiros enquanto jogava futebol na quadra do Centro Social Urbano (CSU) do Parque Dez, Zona Centro-Sul, mesmo local onde fica a sede da 23ª Cicom e do 23º DIP. Segundo o comandante da Polícia Militar na área, major Nilo Correa, a vítima tinha envolvimento com o tráfico de drogas e não era moradora do bairro.

Questão de oportunidade

“A população deve ficar tranquila porque nenhum cidadão inocente vai morrer dessa forma. Esse rapaz morreu por uma vingança em decorrência do tráfico de drogas. Ele tinha uma ficha grande na polícia. O assassino dele executou uma ordem vinda do tráfico e não quer mostrar força pra nós, mas sim para o rival. Não há uma intenção de afronta à polícia”, explica Correa.

O major afirma também que o crime foi facilitado no CSU porque a sede da 23ª Cicom fica afastada da quadra onde a vítima foi morta. “O criminoso faz um estudo do risco de seu ato e se tem algum policial por perto. Ele recebeu a informação de que a vítima estava vulnerável, viu que não havia polícia num raio de 200 metros e demorou alguns segundos para atirar. Depois pulou a cerca, subiu em uma moto e fugiu”, relatou. “É uma distância considerável. Foi uma questão de oportunidade”.

No último dia 29 de outubro, em outra ação considerada “ousada” pela PM, três homens armados assaltaram uma agência bancária dentro da sede da Prefeitura de Manaus, na avenida Brasil, bairro Compensa, Zona Oeste. O grupo fugiu levando R$ 30 mil. O major Correa ressalta a associação desses grandes assaltos ao tráfico de drogas. “Ele vai roubar para conseguir recursos, drogas e armamento. Tudo converge para o tráfico”, completa.

Análises

Para o especialista e coordenador do mestrado em Segurança Pública, Cidadania e Direitos Humanos da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Antônio Gelson Nascimento, não é possível englobar e definir tais crimes que aconteceram de maneira isolada sem antes estudá-los com aprofundamento. “É difícil simplesmente determinar que três ou quatro eventos como esses tenham relação entre um e outro”, disse.

Segundo o especialista, crimes com essas características têm acontecido em qualquer grande capital do País, porém são mais comuns em grandes centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. “Em Guarulhos (SP), é comum ocorrer roubo de cargas em frente à delegacia. Em Manaus não. Mas isso não quer dizer que os bandidos perderam o medo. É preciso saber o que tem por trás dessas ações criminosas”, declarou.

Gelson afirma, ainda, que os crimes “ousados” acontecem mais pela casualidade do momento, e menos pela intenção dos criminosos em afrontar a polícia. “O crime organizado do tráfico têm alvos específicos e definidos, diferente dos assaltos a residências, bancos e transeuntes, que são oportunidades que vão acontecendo. Mas todos procuram estudar as áreas [antes de cometer os crimes]. Cada crime tem uma dinâmica diferente e não há como estabelecer reação sem estudar os casos”, disse.

Já para o sociólogo Ademir Ramos, coordenador do Núcleo de Cultura Política da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), há fatores que contribuem para a regularidade desses crimes. “Primeiro é a impunidade; segundo é que com a impunidade, a bandidagem se acha no direito de fazer o que bem entende, além de haver uma banda podre dentro na polícia que acaba facilitando crimes assim”, disse. “O crime organizado ameaça a ordem política e jurídica do País e isso coloca em cheque nossa segurança”, finalizou.

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