Sábado, 22 de Fevereiro de 2020
CHECAGEM

Cuidado! Criminosos invadem redes sociais para criar pânico, avaliam especialistas

Sem autenticidade comprovada, enxurrada de informações foram compartilhadas nas redes sociais após foguetório de ontem (10) em bairros da capital



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12/02/2020 às 08:44

Uma enxurrada de informações desencontradas e sem autenticidade comprovada estão sendo compartilhadas em massa nas redes sociais, principalmente em grupos do WhatsApp, desde a noite de segunda-feira (10), em Manaus, quando uma série de explosões de fogos de artifício foi registrada em diversos bairros da capital.

De uma falsa rebelião no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), até a suposta morte de pessoas ligadas a lideranças do tráfico, as fake news invadiram como um rolo compressor a linha do tempo dos usuários. Inclusive, a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) decidiu instalar um gabinete de crise para avaliar a autoria e o motivo da 'comemoração', com forte suspeita de ter sido coordenada por uma facção criminosa que atua no Estado.



Com claro objetivo de exibir poder, as redes sociais vem sendo usadas por criminosos para propagar suas ‘novidades’ e disseminar, muitas vezes, notícias falsas, com a missão de empoderar seguidores e gerar temor social. É o que avalia o especialista em ciências sociais, professor Tiago Jacaúna, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). “Para impor seu poder diante de outra facção, as redes sociais se colocam como um caminho, tanto para divulgar informações importantes, quanto para divulgar o medo", explica. 

Os fogos da noite de segunda-feira (10) tiveram duração de 20 minutos, o suficiente para fazer circular, principalmente nos grupos de WhatsApp, informações com autenticidade duvidosa. Uma das publicações compartilhadas informava que uma rebelião no Compaj havia iniciado. Era mentira, mas não impediu o temor da população, já que o presídio estadual foi palco de ações bárbaras, como o massacre de presos durante uma rebelião no dia 1° de janeiro de 2017, que  resultou na morte de 56 vítimas

Terrorismo na web

Com forte influência no processo de convencimento, as cenas compartilhadas sem filtros também agem para dar visibilidade para ações lideradas por criminosos. O que, na maioria das vezes, se apresenta como método de "terrorismo", segundo Jacaúna. 

Para o especialista, "as facções criminosas estão atuantes, organizadas para orquestrar vários tipos de crimes. Não surpreende que eles estejam utilizando a Internet para promover suas 'notícias'", argumenta.

"Nosso grande dilema é que nós não temos uma sociedade, digamos, 'educada', para que ela mesma faça esse filtro (para separar o que é notícia falsa do que é fato), e que as pessoas acabam repassando sem checar, sem saber se é verdade", ressalta Jacaúna.

Economia do Crime

Para o professor Raimundo Pontes Filho, também da Ufam, desde 2013, enquanto atuava como presidente do Conselho Penitenciário Estadual do Governo do Amazonas, já era possível observar a expansão da cultura do crime sendo divulgada nas redes sociais, principalmente, dentro de presídios. 

"Naquela época, embora não houvesse a difusão e alcance de hoje, já era possível vislumbrar sim as dimensões que a expansão da cultura do crime poderia alcançar caso nada fosse feito. Nada foi feito que impedisse a pandêmica difusão dessa cultura do crime em toda parte, potencializada pelas redes sociais", alega o professor. 

Para Filho, a economia do crime, influenciada por ações de "mídia", é resultado desses espaços de visibilidade ocupados por grupos criminosos na Internet. "Vejo como consequências bastante previsíveis da difusão e fortalecimento da cultura do crime e da delinquência, uma vez que efetivamente nada tem sido feito nem ofertado de diferente em termos de produção cultural para incluir os vulneráveis, excluídos e a juventude em processos distintos desses que as recrutam para a economia do crime e a socializam numa cultura de delinquência. Chega a ser muito óbvio, pois se não há outro tipo de socialização, apenas a da violência e da repressão, o que se deveria se esperar além da difusão da cultura e da economia do crime nas redes sociais?", indaga.

Filtros, mais filtros

Em meio ao fogo cruzado de informações na web, pessoas comuns e sem relação com os supostos crimes e cenas bárbaras acabam "dando voz" para ações criminosas, muitas vezes "sem querer". "Quem frequenta redes sociais deve saber que nem tudo que se vê, ouve ou imagina, é necessariamente verdade", explica a consultora digital da TWG, Marcela Torres. 

"Existem filtros que podem ser utilizados para provar se aquela informação é verdadeira, e, nesse sentido, capaz de ser compartilhada como algo real", diz a especialista. 

A lista de dicas para evitar ser engolido pelo rolo compressor do exibicionismo da criminalidade na web inclui movimentos básicos como: verificar se a informação foi divulgada por diversos meios sérios de comunicação, "pois, se é de interesse público, é dever da imprensa divulgá-la", argumenta Marcela.

A especialista alerta ainda para ficar com pé atrás e desconfiar de sites pouco conhecidos, além de abrir "bem" os olhos com títulos e textos sensacionalistas. De acordo com ela, "comumente, fake news possuem textos e títulos sensacionalistas, ou seja, só querem alarmar para aumentar audiência", conta. 

Algumas vezes, apesar da informação ser verdadeira, ela é divulgada fora de contexto, o que acaba gerando desinformação involuntária. "Para isso, é necessário sempre verificar a data daquele conteúdo que se quer compartilhar", acrescenta a especialista.

Verifique as fotos

Conhecido como deep fake (notícias falsas profundas, no inglês), o método utiliza Inteligência Artificial (IA) com o objetivo de manipular vídeos, fotografias e áudios. Recursos de checagem para verificar se a fotografia é verdadeira, por exemplo, é disponibilizado gratuitamente no Google. No principal buscador da web o seguinte teste de checagem de imagem pode ser feito: deixe o cursor do mouse sobre a foto, clique com o botão direito e escolha a opção "Procurar imagem no Google", assim, será possível ver no Google quando e onde essa imagem foi compartilhada inicialmente, e assim, observar se a origem é real.

*Erramos

Ao contrário do que foi informado na matéria, o professor Fábio Candotti não falou com a reportagem. As declarações são do professor Tiago Jacaúna, e, por isso, essa matéria foi atualizada às 8h15 de quarta (12).

*A matéria foi atualizada para retirar o nome do professor Fábio Candotti. Erroneamente, a publicação creditou as falas do professor Tiago Jacaúna a Candotti. Pedimos desculpas pelo equívoco. 

Repórter

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