Sexta-feira, 03 de Julho de 2020
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Projeto celebra notas do Enem de internos do Dagmar Feitosa

É a primeira vez que adolescentes da unidade concluem o Ensino Médio com pontuação suficiente para acesso à formação superior



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03/02/2020 às 12:53

Adolescentes que cumprem ou cumpriram medidas socioeducativas no Centro Dagmar Feitosa participaram, na manhã desta segunda-feira (3), de um dos eventos mais importantes da instituição em todos os seus 29 anos de atividade: a cerimônia do projeto “Curumim Pai D’Égua”, que celebrou as boas notas alcançadas por oito deles no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

É a primeira vez que adolescentes da unidade concluem o Ensino Médio com pontuação suficiente para acesso à formação superior. A programação de hoje incluiu acolhimento das famílias dos internos que prestaram o Exame Nacional do Ensino Médio para Pessoas Privadas de Liberdade (Enem/PPL), dinâmica em grupo e roda de conversa entre os presentes, com troca de experiências entre os participantes, além de um coquetel para os presentes.



Ao todo, dez adolescentes, de idades entre 16 e 18 anos, prestaram o Enem/PPL em dezembro do ano passado. Dois deles, naturais de São Gabriel da Cachoeira e Lábrea, concluíram o Ensino Médio na Escola Estadual Josephina de Melo, que funciona nas dependências do Dagmar Feitosa.

Avaliação positiva

Duas das boas notas alcançadas – 466,83 e 459,03 – possibilitam a dois dos oito adolescentes a chance de entrar em universidades públicas. Os demais devem concluir esta etapa dos estudos entre 2020 e 2021, no entanto, após realizarem o Enem, o grupo surpreendeu obtendo pontuação para bolsas em instituições privadas, que podem variar de 50% a 100%.

Um deles, José*, que cumpriu medida socioeducativa por homicídio, obteve a segunda melhor nota (459,03). Morando atualmente com familiares,  ele tem 17 anos e aguarda uma oportunidade para trabalhar. Da etnia tucano, ele não pensa mais em retornar para São Gabriel da Cachoeira, onde morava. "Vida que segue", comentou.

“Pra mim foi muito gratificante conseguir essa nota e poder prestar algum vestibular. Esse Enem foi muito para mim, que quero seguir uma faculdade e seguir a vida”, disse ele, que ficou durante sete meses cumprindo as medidas socioeducativas no Dagmar Feitosa e hoje cumpre liberdade assistida residindo com uma das suas irmãs em Manaus.

Além da escolarização, os internos do Dagmar Feitosa participam de oficinas de reciclagem, aulas de informática e recebem bolsas de estudo para ingresso no Ensino Médio Técnico em instituições privadas.

“Este é um momento muito especial para todos nós e o que pudermos fazer para ajudar esses jovens, nós faremos. Que vocês sigam os seus caminhos, mas vocês não estão sozinhos”, frisou a secretária-executiva de Estado da Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc), Edmara Castro, que representou a titular da pasta, Caroline Braz, no evento realizado na sede do Centro Dagmar Feitosa, localizada na rua Vivaldo Lima, bairro Alvorada, Zona Centro-Oeste.

De acordo com o diretor da instituição, Antônio Juracy Maciel de Lima, o feito dos garotos representa uma “devolução à sociedade daquilo que ela espera quando o adolescente chega ao Dagmar Feitosa, pois o objetivo é a ressocialização através do processo educativo, e hoje estamos conseguindo mensurar isso com os resultados do Enem, com adolescentes que alcançaram boas notas no Exame e que podem inclusive concorrer na universidade pública”. 

Vitória

Para o juiz da Vara de Execução de Medidas Socioeducativas (VEMS), Luís Cláudio Chaves, as boas notas dos garotos representam uma vitória deles e de todos que atuam na ressocialização de internos. “Vocês são a vitória de todos nós. Não existe saída que não seja a coletiva”, disse ele, parabenizando os adolescentes.

A cerimônia teve vários momentos de emoção, como a exibição de vídeos de ex-internos estudando em sala de aula e colando grau em instituições de ensino superior.  Os jovens com boas notas no Enem também receberam diplomas pelo seu desempenho. 

Algumas pessoas como a representante do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente, Alcione Reis, não seguraram a emoção e choraram ao falar da conquista dos oito jovens e da importância da educação para a vida deles. “É a Educação, é isso mesmo. Sempre falo: o que vocês cometeram é página virada e agora é uma nova história, o que passou, passou. Não há outra saída que não seja pela Educação”, contou ela.

 *Nome fictício para preservar o entrevistado

Repórter de A Crítica

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