Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2021
ESPERANÇA

Da dor à esperança: o relato de amazonenses que superaram a Covid-19

A CRÍTICA ouviu amazonenses que tiveram que passar por um período de grande provação para poder seguir em vida. Essas pessoas revelam que cada fase vencida sobre a doença é como uma grande vitória



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O que para muitos pode ser um período com uma simples dor de cabeça com tosse ou febre, para outros pode significar um grande desafio. Todos que passaram pela experiência de ter sobrevivido ao processo de infecção da Covid-19 traz consigo uma história de superação. A CRÍTICA ouviu amazonenses que tiveram que passar por um período de grande provação para poder seguir em vida. Mesmo que com alguma sequela, essas pessoas revelam que cada fase vencida sobre a doença é como uma grande vitória.

Foi o caso da aposentada Edwirges Tenório Prado, de 57 anos, da etnia Tuyka. Ela conta que foi a primeira indígena da comunidade Parque das Tribos a ser diagnosticada com complicações graves por conta do novo coronavírus, em abril do ano passado. Mãe de dois filhos, Edwirges conta que a doença.



"Tudo começou com gripe normal. Eu não desconfiei que era covid-19. As dores que eu sentia no corpo, dor de cabeça, mal-estar, a vista estava embaçada, dores nos ossos e perdi o gosto e cheiro das coisas. Depois de um mês eu piorei. Eu pensei que eu fosse morrer, não me sentia mais viva. A cada dia eu piorava. Sentia dificuldade de respirar, meu corpo doía muito. Muita dor de cabeça e mal-estar. Tossia sem parar. Eu não podia nem levantar, até para ir para o banheiro, meu coração acelerava. Eu chorava por não aguentar a dor", relembra Prado.


Dona Edwirges conta como o que parecia uma gripe normal se transformou na dor da Covid. Foto: Maria Luiza Dácio

Prado conta ainda que recebeu ajuda da técnica em enfermagem Vanda Ortega Witoto - primeira amazonense vacinada no estado - a quem encaminhou para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Campos Salles.

"Não sabia mais a quem mais recorrer. Pedi aos meus filhos para procurarem ajuda. Procuraram ajuda da professora Vanda, que é enfermeira. Quando foi 17h, ela chegou com os aparelhos para fazer a triagem. Ela falou que eu estava com imunidade baixa e ela mesmo que me levou no carro dela para a UPA. Entrei 20h fiquei até 11h30 do outro dia. Tomei remédios receitados e caseiros. Não cheguei a ser internada na UTI, mas fiquei em observação", comentou a aposentada.

Sequelas

Mesmo após levar alta médica, a doença deixou sequelas em Edwirges. Porém, consegue se sentir "viva novamente".

"Depois que eu saí dessa observação, levei quatro meses para me sentir recuperada. Depois de todo esse tempo, sinto que estou voltando ao normal. Às vezes tenho recaídas, muito cansaço principalmente e dor no peito. Fiquei com sequelas dessa doença, muitas dores no joelho e dormências nas mãos. Mas graças a Deus, eu venci e me sinto normal. Eu estou bem recuperada, já faço coisas que eu fazia antes", contou Edwirges.

A aposentada pontuou que, durante esta pandemia, perdeu muitos amigos indígenas. Devido a isso, Edwirges defende que os indígenas que vivem em comunidades urbanas devem ser vacinados nesta primeira fase.


Dona Edwirges, acompanhada de um de seus filhos, na comunidade Parque das Tribos. Foto: Maria Luiza Dácio.

"Eu perdi alguns amigos da minha cidade de São Gabriel da Cachoeira, meus parentes mesmo nós conseguimos nos curar com chá. Essa vacinação se veio para vacinar tem que vacinar também os indígenas que moram na cidade. Muitos vieram para o interior para ter mais oportunidades de empregos, estudos. Quem mora na cidade tem direito de ser vacinado agora nessa primeira fase", defende a indígena.

Descuido

Apesar de a maior parte dos agravamentos da doença acontecerem com grupos de idade avançada, em alguns casos, jovens também acabam contraindo e desenvolvendo estágios mais avançados da doença. O estudante João Wellington Viana de Medeiros Cursino, 23, natural de Parintins, passou por momentos difíceis após ser acometido pela Covid-19, em dezembro do ano passado.

Agora com mais de 20 dias de superação dos sintomas e do período de transmissão do vírus, o jovem relembra a batalha que enfrentou contra a doença, a ajuda fundamental de profissionais da saúde e o apoio incondicional da própria família. Segundo ele, foi por descuido e imprudência no quesito cuidado que contraiu o vírus. Os sintomas, que iniciaram leves, foram se agravando o que fez com que ele fosse internado em um hospital do município distante 369 quilômetros de Manaus.


João acabou se descuidando e contraindo a Covid-19. Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal

“Senti muita febre, muita dor nas costas e dor de cabeça, muita dor mesmo. Cheguei a ficar em estado grave, pois tive o acometimento pulmonar de 50%. Fiquei hospitalizado por sete dias e meio, no Hospital Jofre Cohen, em Parintins, local onde nasci duas vezes, e também onde tive um tratamento de primeira linha, uma assistência altamente capacitada o que foi fundamental para o salvamento de minha vida”.

Superação

Com 50% do pulmão comprometido, João Wellington quase chegou a ter uma parada cardíaca, mas foi reestabelecido pela equipe médica. Por conta das dificuldades, ele afirma que o emocional ficou muito abalado, mas foi a própria família que o ajudou a ter esperanças de que mudaria de quadro.

“Entrei com o psicológico bem, eu estava muito seguro de que venceria, no entanto, dentro do hospital é quase impossível que alguém não esmoreça. Não consegui dormir os três primeiros dias, o meu emocional começou a ficar abalado, pois você vê muita coisa, você sente muita dor, é algo sofrido mesmo”, relembra.

“Mas a minha família não me deixou nenhum instante. Meus pais e minhas irmãs deram toda a assistência que me fora necessária naquele quadro, passamos por dois dias complicados lá dentro, mas com a ajuda dos profissionais de saúde e a oração de meus familiares pude sair vivo dessa situação delicada”.


João fez questão de registrar o momento da alta médica com a equipe de profissionais de saúde do hospital. Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal

João Wellington se emociona ao comentar que gostaria que outras pessoas também tivessem a sorte que teve: a de vencer a luta contra o novo coronavírus e retomar a própria vida. Ele faz um apelo para que a população respeite as medidas de prevenção a Covid-19.

“Minha recomendação é que, de fato, pratiquem o isolamento social, não há alternativa mais segura para prevenção do vírus do que a prática do mesmo. O uso de máscara da maneira correta e o uso do álcool em gel são de suma importância, mas a melhor maneira é o isolamento sem dúvidas, pois dessa forma você não será infectado e não levará o vírus para o seu âmbito familiar”.

Em busca da cura

Apesar de ainda não ter vencido por completo a Covid-19, a pequena Ana Kessy, de apenas 13 anos de idade, deu recentemente um grande alívio para sua mãe, a cabelereira Geane Gonçalves. Após ter ficado dias intubada na UTI do Hospital Infantil Joãozinho, Ana Kessy teve melhora e foi transferida para a enfermaria, onde não precisa mais respirar com ajuda de aparelhos.

"A Ana está estável, saiu da uti e está na enfermaria respirando sem aparelhos, com saturação muito boa e sem febre. Estou muito feliz, é uma sensação de alívio muito grande. Agora tenho a chance de levar minha filha para vacinar, vou fazer isso assim que puder, pois essa doença é terrível", comemorou a mãe.

Geane contou ao A CRÍTICA como a filha teve os primeiros sintomas e foi parar no hospital. Foram momentos de terror, segundo ela.


A pequena Ana Kessy, de 13 anos, acompanhada da mãe Geane caçula da família. Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal.

"Minha filha estava com um problema de saúde que causou anemia. Ela desmaiou no banheiro, machucou o queixo e levamos ao hospital. Foi quando começou a sentir outros sintomas. Foram crises de tosse, falta de ar e febre. Quando fez o raio-x, vimos que o pulmão estava muito comprometido. Foi tudo muito rápido, precisou fazer ventilação e ficar em posição de prona. Em pouco tempo ela foi entubada e ficou vários dias está na UTI", contou a mãe Geane Gonçalves.

Geane precisou suspender as atividades do seu espaço de beleza para cuidar da filha. "Eu tenho também a irmãzinha dela de 1 ano de 5 meses que está sendo cuidada pela minha família. Larguei tudo, parei de trabalhar pra cuidar dela e estar todos os dias aqui buscando boletim e aguardando o dia que Deus vai permitir que eu a leve pra casa. Tive muito medo de perder a minha filha, mas tenho confiado em Deus pois só ele pode nos ajudar nesse momento", contou.

"Perdi quatro quilos, pois não consigo me alimentar, penso na minha filha tão ainda tão criança passando por isso, miudinha no tamanho, mas grande na fé. É uma criança que sempre me trouxe alegria. A minha Ana tem um cachorrinho chamado Bily. Ela gosta muito de Jessy e de séries do Netflix. Está no 7º ano, e é uma irmã mais velha amorosa com a irmãzinha. Também gosta de jogar Minecraft, como toda criança da geração dela. Além de tudo, ela confia muito em Deus e me pediu pra orar antes de ser entubada. Tenho fé que vamos superar essa doença e vou levar minha filha pra casa", completou.


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