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Manaus
Dia da Consciência Negra

Data que lembra a morte de Zumbi reforça ligações de Manaus com a cultura negra

O Dia da Consciência Negra serve, ao mesmo tempo, para refletir sobre as conquistas dos negros na sociedade e os preconceitos sofridos 20/11/2016 às 05:00
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O universitário Wilken Castro faz faculdade por meio da cota para negros (Foto: Evandro Seixas)
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Conquistas, lamentos, anseios e reflexão marcam o Dia da Consciência Negra, cuja data é neste domingo também como homenagem ao líder Zumbi dos Palmares pela data atribuída à sua morte, em 1695.

Manaus sempre teve uma ligação muito forte com os negros. Uma das principais referências foi o ex-governador do Amazonas, Eduardo Ribeiro (1862-1900). Mulato, ele foi chefe de Estado de 2 de novembro de 1890 a 5 de maio de 1891 e de 27 de fevereiro de 1892 a 23 de julho de 1896.

A “Capital dos Trópicos” teve, no passado, como uma das primeiras concentrações de afro-descendentes, por volta de 1870, o bairro da Costa D’África, que ficava nas imediações do que hoje é a avenida Leonardo Malcher (antigo local chamado de “Linha de Tiro”). A seguir, veio o Seringal Mirim que sediava a famosa Casa de Candomblé Tambor de Mina. Depois, as comunidades da Praça 14 de Janeiro, Morro da Liberdade e Rua da Cachoeira (em São Jorge)

Atualmente, a Praça 14 de Janeiro segue como uma das referências da comunidade negra na capital. O bairro da Zona Sul sedia o famoso Quilombo de São Benedito.

Cotas raciais

Uma das conquistas da comunidade negra no Brasil são as cotas raciais que deram oportunidade para que estudantes como o paulista Wilken Castro da Silva, 25, cursasse Direito na faculdade Uninorte. Atualmente no 4º período, ele foi beneficiado através do Prouni.

O acadêmico comentou que, se não existisse a cota para negros nas universidades, dificilmente ele estaria cursando Direito. “Mora sozinho aqui em Manaus há muito tempo e me formei com 17 anos no ensino médio. Já era para eu ter concluído a faculdade, mas é difícil estudar, trabalhar e viver sozinho. Tudo depende do nosso esforço, mas se não tivesse a cota eu não estaria cursando”, disse ele, que há 8 anos é analista de compras em uma loja de perfumarias da cidade. A carga horária dele é bem movimentada: ele trabalha das 7h às 17h de segunda a sexta, e às 18h30 até 22h10 estuda na Uninorte.

“Me privo de descansar à noite. Vejo muita gente parando por causa da correria e que não consegue conciliar seus afazeres. Já me mudei 3 vezes e agora moro perto da faculdade para diminuir o esforço, continuar e concluir o curso”, destaca ele.

Polêmica, as cotas raciais foram um dos assuntos discutidos na instituição durante o 2º período de Direito, disse Wilken. “Achei bem legal o que fizeram lá na Uninorte de discutir essa questão. Alguns alunos defenderam e outros foram contra”, diz ele, que conta já ter sofrido racismo com a mãe de uma ex-namorada quando tinha 16 anos. “Minha ex era branquinha de olhos claros, mas a mãe dela me julgou sem conhecer e a família não aceitava um negro. Por causa desse preconceito nós acabamos o relacionamento”, relembra o estudante.

Consciência Negra

O Dia da Consciência Negra é uma data para se comemorar conquistas, mas não se deve parar por aí, diz ele: “Nós da raça negra sempre fomos tratados de forma desigual há muitos anos, desde a escravidão, tanto cultural quanto racial. Num País onde a  maioria é cristã, sempre foi complicado incutir culturas como o candomblé. É um dos exemplos que mais se tem”.

Para o presidente da Federação de Capoeira do Amazonas (FCA), José Neto de Castro, o Mestre Neto, não há muito o que comemorar nesta data, e sim lamentar. “Poderíamos comemorar mas se tivéssemos apoio para as nossas atividades. É uma data mais para lembrar à sociedade e ao povo brasileiro que existe cultura forte que precisa ser desenvolvida. A cultura negra é rica e bonita, mas muitos ainda a desconhecem”, analisa o mestre de capoeira.

Resistência histórica

Mestre  da Escola de Capoeira Matumbé, especialista e profundo conhecedor dos povos afro-brasileiros, o capoeirista Kaká Bonates, que é historiador, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e biólogo de formação com doutorado em Botânica, opina que o Dia da Consciência Negra é bem diferente do 13 de maio, que para ele foi uma falsa abolição “porquê se deu condições de cidadania para os afro-descendentes que ganharam a sua liberdade”. “A pessoa simplesmente era escrava, depois e não era mais e disseram pra ele: ‘Se vira’”.

De acordo com Bonates, o 20 de novembro representa a resistência histórica, lembrança de Zumbi e que resistiu. “É para manter viva a memória de luta e reflexão. Parafraseando o poeta Waly Salomão, a felicidade do negro é uma felicidade guerreira e ao mesmo tempo que se comemora. Se reflete e tem símbolo muito forte”, ilustra o especialista.

Em relação às cotas raciais, o mestre disse que elas são uma “reparação, um paliativo histórico como recoonhecimento do Estado brasileiro que não deu cidadania ao povo negro”. Ele disse que à medida que o povo negro for adquirindo cidadania e igualdade de condições a cota deixa de existir. “Isso se em 5 ou 10 anos a qualidade de vida melhorar", diz ele.

Queda na diferença de renda

Mesmo que  ainda tenham desvantagens na disputa por vagas no mercado de trabalho, os negros passaram a ter rendimentos mais próximos dos não negros no ano passado, em comparação com 2014. Isso ocorreu porque foi maior a queda dos ganhos dos não negros que passaram a receber valores 8% menores do que no ano anterior, enquanto os negros tiveram um recuo médio de 2,2%. A informação é da Agência Brasil, e os dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) feita em conjunto pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e Fundação Seade).

O levantamento, feito com base na PED mensal, é divulgado, anualmente, para marcar o Dia Nacional da Consciência Negra. A pesquisa mostra que, por hora, os negros estavam recebendo em média R$ 9,39 ou 67,7% do valor obtido pelos não negros (R$ 13,88). O percentual era de 63,7% em 2014 e já chegou a equivaler a 54,6% em 2002.

Vídeo impactante

Já chegava a quase 280 mil compartilhamentos, até a postagem desta matéria, um vídeo divulgado pelo Governo do estado do Paraná para expor o racismo institucional no Brasil. Intitulado ''Chega de fingir que é normal'', as cenas mostram profissionais de Recursos Humanos recebendo fotos com pessoas fazendo atividades diversas. As discrições, no entanto, variam bastante de acordo com os profissionais brancos e não brancos retratados.

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