Sexta-feira, 29 de Maio de 2020
História de persistência

De estivador a subgerente farmacêutico, a história de Wendell Santos

Estivador do interior do Pará jamais imaginava que em pouco mais de 10 anos sua vida mudaria para melhor



farmac_utico_4C5720C7-44FA-4F76-A906-35BAFC929ECD.JPG Foto: Divulgação
01/03/2020 às 10:26

O jovem de 15 anos que trabalhava como estivador no município de Monte Alegre, no Pará, ganhando R$ 15 por semana, jamais imaginava que em pouco mais de 10 anos sua vida mudaria com uma graduação no curso de Farmácia e um cargo de subgerente farmacêutico em uma das principais redes de drogaria de Manaus. Uma história recheada de dificuldades, mas de muita confiança e persistência num sonho descoberto a cada passo da vida.

As portas da farmácia - e da mudança radical na vida - começaram a se abrir para Wendell Santos dos Santos em 2009, pouco depois que ele chegou a Manaus vindo do interior do Pará, onde morava com os bisavós Raimundo e Maria Sebastiana. Vivendo com a mãe, no bairro Jorge Teixeira, na Zona Leste de Manaus, ele recebeu um convite para distribuir panfletos na região informando que uma nova drogaria estava funcionando. A remuneração era de R$ 50 por semana. “Para mim isso já era muita coisa. Eu trabalhei como estivador, vendendo dindin, carregando melancia, e agora ia ganhar R$ 50 por semana? Para mim era perfeito aquilo”, relembra ele, hoje com 26 anos.



No início do trabalho de divulgação, recebeu uma “dica”. “Me disseram que era só jogar os panfletos no esgoto e ir para casa. E depois era só voltar para receber o dinheiro. Mas algo em mim disse para não fazer isso. Pelo contrário: em duas semanas mapeei o bairro todinho, o movimento e os pedidos aumentaram e o dono teve que contratar alguém. Foi aí que ele me chamou para trabalhar na drogaria”.

Se Wendell já estava maravilhado por receber R$ 50 por semana, o que dizer de um salário de R$ 400 mensais, trabalhando no ar-condicionado - como ele faz questão de lembrar - e limpando medicamentos? “Isso era um luxo. Para mim, era a perfeição. Falei para os meus parentes do Pará e eles não acreditavam. Era uma oportunidade de ouro. O que mais eu poderia querer?”.

Foi aí que Wendell quis mais. Pouco depois, com o movimento da drogaria cada vez melhor, recebeu o convite do proprietário para cuidar do estabelecimento ao lado de outro funcionário, enquanto o dono abria uma outra unidade. “Eu não sabia nem o que era uma dipirona, mas resolvi abraçar aquela oportunidade que eu tive. Sempre fui ousado”, reconhece.

A ousadia permitiu, então, que ele decidisse estudar Farmácia, mesmo confessando não conhecer bem sobre o curso em si. Ousadia, sim, pois ele foi apenas o segundo membro da família a ingressar no Ensino Superior. A trajetória acadêmica teve dificuldades, e Wendell inclusive chegou a pensar em desistir.  “Comecei a analisar que se eu fosse desistir naquela hora, eu iria ficar mais ferrado ainda. Pensei: ‘se eu parar, vou continuar lascado do mesmo jeito e depois vou ficar duas vezes mais lascado’”, sintetizou, ao explicar os motivos que o fizeram seguir adiante.

A recompensa viria em seguida, com a disputa por uma vaga de balconista em uma drogaria de rede. “Para quem trabalha em drogarias de bairro, ir para uma rede é o ápice da carreira. E eu almejei isso”. Sendo o candidato com menos experiência, surpreendeu na entrevista e, disposto inclusive a trabalhar durante a madrugada, conseguiu uma vaga das 15h às 23h, que permitia que ele fosse à faculdade pela manhã. Mas, por pouco ele não perdeu a vaga antes de assumir. “Pediram que eu voltasse no dia seguinte e eu tirei a barba. Aí a moça me perguntou a minha idade e falei: 20 anos. Ela ficou preocupada, mas falei que ela não precisava temer pois ela ainda ouviria falar muito do meu nome. Ela confiou e eu fiquei com a vaga”.

Hoje, formado em Farmácia e subgerente farmacêutico na mesma rede de drogarias, ele não esquece do nome daquela que deu o voto de confiança a ele: Gisele, a responsável pela seleção. “Tive a oportunidade de mostrar meu trabalho, construir minha trajetória, e hoje fui aclamado com esse cargo e ainda posso fazer muito mais”, comemorou ele, com a certeza de que uma experiência vivida foi fundamental para a mudança de vida. “Se não fossem aqueles panfletos, onde eu estaria hoje? Fiz daquela oportunidade a melhor da minha vida”.

Integrante do Comitê do CRF-AM

Vivendo um momento especial na vida profissional, Wendel passou a integrar o Comitê Jovem Farmacêutico, iniciativa do Conselho Regional de Farmácia do Amazonas (CRF-AM) para apoiar o crescimento profissional. Entre as ações do comitê estão mobilizações em prol da valorização da profissão e da necessidade de demonstração, à população, da importância do papel do farmacêutico.

“Uma das maneiras de valorizarmos a profissão é destacando a experiência de pessoas como o Wendell, que se dedica de maneira ímpar à profissão que escolheu. Há muitas histórias como essa na categoria e esses profissionais não recebiam o devido protagonismo. Vamos valorizá-los, não só contando suas histórias mas também oferecendo capacitações, palestras e outras atividades que agreguem conhecimento”, destacou o presidente do CRF-AM, Jardel Inácio.

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