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Manaus
DROGAS

Dependência química é problema que afeta toda família, diz pesquisa da OMS

Para cada dependente, em média nove pessoas são afetadas de alguma forma pelo problema, a maioria familiares 10/09/2017 às 14:49
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(Foto: Antonio Lima)
Danilo Alves Manaus (AM)

Aos 53 anos, Paula Santos* nunca experimentou nenhum tipo de droga ilícita. Mesmo assim, ela não escapou de ter a vida transformada pela dependência química: ainda na adolescência, o filho dela começou a  usar maconha e, quando ele tinha 17 anos, a família descobriu. Não demorou muito até ele ser apresentado à cocaína, que introduziu o jovem no mundo do vício e, a família dele, em um universo perturbador. “Minha filha o flagrou usando droga dentro de casa com dois amigos. Foi devastador”, lembra a mãe.

 Descobrir que alguém da própria família se tornou dependente de drogas a fez perceber que não é só o usuário que precisa lutar contra esse problema, mas também todas as pessoas que estão ao redor dele, começando pela família. E Paula tem razão: segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), um único usuário de drogas pode afetar, diretamente, pelo menos nove pessoas que estão ao redor dele.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e outras Drogas (Inpad) revela que a droga é considerada uma “praga” ou “teia”, que traz problemas  não só ao paciente, mas também a todas as pessoas emotivamente ligadas a ele, principalmente a família. A mãe, na maioria das vezes, é quem mais sofre quando descobre a dependência química do filho.  Esse foi o caso de Paula.  “Foi o início de uma luta. Nós percebemos que o nosso filho precisava de ajuda. Eu não imaginava isso acontecendo na minha família. Tive que sair de um emprego para poder ajudar o meu filho”, contou.

Rede do bem

Uma das primeiras medidas adotadas por Paula após descobrir o problema do filho foi procurar ajuda. Além dos Narcóticos Anônimos (NA), que já realiza reuniões com 28 grupos na capital e interior, ela foi a outras instituições de apoio aos dependentes químicos. “O problema é que em muitos destes grupos o usuário luta contra o vício praticamente sozinho, quando na verdade ele precisa da ajuda de todos, inclusive da família”, explicou.

Foi então que ela descobriu o projeto Amor-Exigente, um grupo de voluntários que dá apoio às famílias dos dependentes químicos, além de oferecer suporte psicológico para o paciente - uma verdadeira “teia do bem”. A proposta deu tão certo que Paula virou voluntária: hoje ela é um 100 membros ativos do projeto em Manaus. “Eu cheguei a acreditar que meu filho estava perdido e hoje ele está bem”, contou.

 

 

Ajuda mútua

A coordenadora do grupo em Manaus, Rosana Gomes, explicou que o Amor-Exigente é um programa de auto e mútua ajuda que desenvolve preceitos para a organização da família, que são praticados por meio dos 12 Princípios Básicos e Éticos da espiritualidade e dos grupos de auto e mútua-ajuda que, por meio de seus voluntários, sensibilizam as pessoas, levando-as a perceberem a necessidade de mudar o rumo de suas vidas e do mundo, a partir de si mesmas. A coordenadora realiza palestras pela capital.

“O conceito amor exigente surgiu em 1984, em Campinas, mas já espalhou seu amor e ajuda a muitas cidades. Nós realizamos essas palestras explicando os conceitos, contando histórias reais e dando conselhos para os familiares e os próprios usuários”.

Uma vida trocada pela droga

“As drogas me deram asas ‘pra’ voar, depois me tiraram o céu”. O depoimento é de Iago Mendes, 21, um jovem que, como tantos, sonhava em ser um jogador de futebol, mas foi parar nas ruas da capital, levado pelo vício em drogas.

“Era jogador de base de um time profissional aos 14. Vi na minha frente um futuro promissor. Só que, aos 16 conheci a turma do ‘G’. Foi a partir daí que tudo começou, quer dizer desmoronou”, disse.

A ‘turma’ a quem Iago se refere era um grupo de traficantes que atua no bairro Cidade Nova, na Zona Norte, e ‘G’ é o apelido do comandante do tráfico na área. “Larguei minha família, meus amigos e fui viver minha liberdade. Eu só queria usar drogas. Eu morri e me tornei invisível para o resto do mundo”, lamentou.

 Assim como  Iago, milhares de amazonenses sofrem com a dependência química. Muitos, às vezes, sem nunca contar à família: eles simplesmente desaparecem. 

É o caso de um homem de 31 anos, que não quis se identificar. Ele veio para Manaus há dois anos “fugindo” da família, que mora em Itapecerica da Serra, em São Paulo. Ninguém sabe onde ele está.  “E nem quero que eles saibam. Alguns já tentaram me procurar, mas nunca quis voltar. Hoje eu passo necessidade, mas não volto”, disse ele, que procurou poupar a família do sofrimento de conviver com a sua dependência.  “Assim como Deus dá dinheiro pra comprar comida, o Diabo também dá a ‘grana do pó’. Eu não posso dizer que sou feliz, mas vou vivendo a cada dia”.

Cocaína e oxi são as ‘preferidas’

A cocaína é a droga sintética mais usada no mundo, segundo Relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), mas é o oxi o entorpecente  que vem se popularizando no mundo, principalmente entre os usuários de baixa renda, por conta do preço mais barato.

Aqui em Manaus, uma das usuárias dessa droga é Rosilane Peixoto De Lucena, 47. Ela admitiu que já precisou se prostituir para conseguir uma ‘pedra’. “Eu sei que preciso de ajuda, moço. Só que toda vez que eu tento parar, a vontade vem ainda maior. A ‘maldita’ me acalma”, revelou a moradora de rua, que vive com duas filhas.

De acordo com dados do último Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e outras Drogas (Inpad), a substância ilícita com maior prevalência de uso na população brasileira é a maconha:  5,8% da população já experimentou a erva - 7,8 milhões de brasileiros.

Amor-Exigente promove palestra dia 14 deste mês

 No 14 deste mês, a Ong Amor-Exigente promoverá uma palestra com o professor Ricardo Galhardo Blanco, um dos membros do programa. O evento acontece no Teatro La Salle, no Dom Pedro, Zona Centro-Oeste, a partir das 20h. Mais informações nos números (92)99370-8924 e (92)98121-2001.

*nome fictício.

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