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Manaus
DIA DE MOBILIZAÇÃO

Dependência química é um dos problemas que eleva populações de rua em Manaus

Alzira Pereira de Melo chegou a morar por dois meses em um barraco improvisado numa invasão na Zona Norte 18/08/2017 às 20:21 - Atualizado em 19/08/2017 às 08:33
Show morador de rua
Alzira conta o drama de quem chegou ao fundo do poço e só sairá se tiver muita ajuda (Foto: Euzivaldo Queiroz)
Silane Souza Manaus (AM)

A dependência química fez com que Alzira Pereira de Melo, 38, fosse expulsa pelo irmão da casa da mãe onde morava. Junto com o filho Messias Melo de Oliveira, 20, e o esposo Assis de Oliveira Neto, ela chegou a morar por dois meses em um barraco improvisado numa invasão na Zona Norte, mas por não ter dinheiro para pagar pelo terreno que ocupava teve que sair do local e desde então, aproximadamente oito meses, está vivendo nas ruas.

O dia a dia de quem vive em situação de rua não é fácil, de acordo com ela. Não tem onde tomar banho, comer ou trocar de roupa e ainda convive diariamente com o preconceito e o medo. “A gente dorme em cima de papelão (nas dependências do Hospital e Pronto-Socorro 28 de Agosto, na Zona Centro-Sul). Mas enquanto um está dormindo o outro fica acordado vigiando porque é muito perigoso. As pessoas acham que todo morador de rua é ruim”. 

Durante o dia, Alzira e o filho Messias vendem água e picolé nas ruas do Centro, e o esposo Assis lava carros na mesma região. Desta forma, e com apoio das instituições sociais, eles vão sobrevivendo. O sonho de Messias, que só estudou até o 6º ano do ensino fundamental, é conseguir um emprego formal, além de entrar no Exército. “Queria poder comprar uma casa para a minha mãe”, disse o jovem que acompanha a genitora onde quer que ela vá. 

Assim como Alzira e a família, centenas de outras pessoas vivem em situação de rua em Manaus. Os motivos que os levam a essa condição de vulnerabilidade social são diversos, dentre os quais a dependência em drogas e álcool, conflitos familiares, desemprego, traumas e doença mental. “Vendi todas as minhas coisas e a minha casa por causa do vício em droga e bebida e isso me levou a viver nas ruas”, contou Edson Alves da Silva Júnior, 38. 

Ontem, Alzira, Messias, Edson e mais 85 pessoas em situação de rua participaram de uma missa em alusão ao Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua, comemorado hoje. A celebração programada pela Comunidade Nova e Eterna Aliança aconteceu na sede da instituição, na rua Visconde de Mauá, Centro. Na ocasião, também houve a festa dos aniversariantes do mês e café da manhã. 

“Graças a Deus que existe esses anjos. Eles estendem o braço, nos acolhe sem medo e humilhação, enquanto a família nega um prato de comida. Choro todos os dias por causa dessa situação. Mas tenho fé em Deus que um dia vamos sair dessa vida”, disse Alzira, destacando que se cadastro na Superintendência Estadual de Habitação do Amazonas (Suhab), mas até hoje não foi beneficiada com uma moradia.

Família tem papel importante na reinserção social

No Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua, comemorado hoje, a coordenadora de Projeto da Comunidade Nova e Eterna Aliança, Francilene Carneiro, salienta a importância da reinserção social e familiar dessas pessoas. “Precisamos fazer com que as políticas públicas para essa população saia do papel, pois essas pessoas também têm direitos e deveres que tem que ser respeitados”. 

Ela ressalta que uma das principais dificuldades enfrentadas na cidade é que não há albergue para abrigar a população em situação de rua, diferentes de outros grandes centros urbanos do país. “Tem a casa de passagem, mas é por tempo determinado. Também existem vários grupos que dão alimentação, mas essas pessoas não precisam só de comida, precisam ter seus direitos violados trabalhados”. 

A Comunidade Nova e Eterna Aliança atua em favor da população em situação de rua do Centro de Manaus há 22 anos, e tem 535 pessoas vivendo nessa condição cadastradas na instituição que trabalha seus direitos e deveres, baseado na misericórdia divina. 

Culto ecumênico nos Remédios

Hoje, a partir das 8h30, será realizado um culto ecumênico, seguido de uma apresentação gospel e almoço, na Praça dos Remédios, no Centro. A ação é em homenagem ao Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua. 

Em referência ao dia de luta, foi realizado ontem, entre as 17h e 21h, na Escola Estadual Dom Pedro II, uma ação de cidadania com oferta de serviços, como emissão de RG, CPF, Certidão de Nascimento, orientação jurídica, corte de cabelo, banho e doação de roupas, além de atendimento médico, teste rápido e serviço odontológico.

Em números

2 homicídios contra moradores de rua foram registrados este ano, em Manaus, de acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM). No mesmo período do ano passado não havia nenhum caso registrado.

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