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Manaus
Saudade

Depois de três gerações, Farmácia Lemos, no centro de Manaus, fecha as portas

A Farmácia Lemos resistiu a quase três séculos, não mais como farmácia de manipulação - ou boticas, como chamavam na época - mas como drogaria. 12/06/2016 às 19:36 - Atualizado em 13/06/2016 às 10:11
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No inicio dos anos 50, a farmácia  foi adquirida pelo  comerciante Ruy Barbosa Lima, que manteve as características originais do prédio (Fotos: Antonio Menezes)
Luana Carvalho Manaus (AM)

A história remonta o século 19, mais precisamente em 1851, quando o imperador Dom Pedro II permitiu a instalação do primeiro estabelecimento farmacêutico de Manaus, na antiga rua dos Remédios, atual Rua dos Barés, no Centro. Ribeirinhos chegavam em canoas para comprar remédios,  feitos com plantas medicinais da Amazônia, importadas da Europa e também do sul do país, que se transformavam em xaropes, pomadas, balsamos e os famosos unguentos. 

A Farmácia Lemos resistiu a quase três séculos, não mais como farmácia de manipulação - ou boticas, como chamavam na época - mas como drogaria. Porém, em 2016 fechará a portas e deixará  saudade aos fucionários quase cinquentenarios, aos ribeirinhos que continuaram a tradição de comprar medicamentos no local e, principalmente, aos fãs da antiga balança Filizola, precisa até hoje, impressionando amazonenses e de turistas.

Maria Luziete de Almeida, 18, mora em uma vila do município de Iranduba (distante 27 quilômetros de Manaus) e assim que desembarcou no porto de Manaus, na última sexta-feira, procurou a Farmácia Lemos. “Venho aqui desde criança com meus pais. Sempre compramos remédios aqui porque os atendentes têm paciência pra ler a receita. Mas eu também venho sempre para me pesar. Essa balança sempre acerta”, conta a dona de casa, que desta vez trouxe as duas sobrinhas mais novas para conhecerem a relíquia. 

‘História’

No inicio dos anos 50, a farmácia  foi adquirida pelo  comerciante Ruy Barbosa Lima, que manteve as características originais do prédio e dedicou-se à fabricação de produtos da farmacopeia brasileira como mercúrio cromo, tintura de iodo, elixir paregórico, tintura de arnica, violeta genciana, na venda fracionada das folhas de alfazema, alecrim, sene, boldo, cânfora, entre outros. Além  disso, tinham os produtos exclusivos de fabricação, como o  antigo ‘tiro mortal’  e a pomada de crisarobina para coceiras, cujo nome foi alterado para   ‘Crisol’, que foram  muito populares  nas comunidades do interior dos estados do Norte e Nordeste do país.

Após a morte dele, em 1962, a esposa e última proprietária da farmácia, Georgette Abrahm Lima, seguiu com  a farmácia, acompanhando o processo de evolução do setor de medicamentos. Mas a família agora se prepara para fechar as portas, se despedindo das cristaleiras francesas que até hoje guardava o leite de rosas, pomada minâncora e talco granado. Nas prateleiras, ficam as estátuas de filósofos que acompanham a história da farmácia, como Galileu, Homero, e Hipócrates, o pai da medicina, todas vindas da França, país onde a farmácia foi homenageada algumas vezes.

“Minha mãe dedicou toda a vida dela a esta farmácia. Infelizmente ela faleceu há oito meses e com a morte dela, nós ficamos desestimulados e a concorrência contribuiu para esta ação. Fizemos nossa parte e estamos profundamente tristes. Mas agora ficarão as lembranças”, conta uma das herdeiras, Rose Marie Abrahim.

 Rose Marie Abrahim, uma das herdeiras, sentirá falta de trabalhar na farmácia 


Funcionários

Leonice da Costa, 61, é a atendendo mais antiga da Drogaria Lemos. Ela trabalha no local há 43 anos e agora se prepara para a despedida. “Vivi minha vida inteira na farmácia. Aqui eu namorei, casei, tive dois filhos, vi minha filha se formando. Mas o que vou mais sentir falta são dos clientes, principalmente os do interior”.

Hugo Jucinei, 49, trabalha desde os 16 anos na farmácia. Este foi o primeiro emprego e, segundo ele, será o último. “Sou acadêmico de farmácia e quero montar meu próprio negócio. A dona Georgette sempre nos ensinou a buscar melhorias, evoluir. Quando entrei aqui não tinha nem o segundo grau e fui aprendendo a cada dia. Estou muito triste com o encerramento, mas feliz  por ter vivido toda essa história”, disse, emocionado.

 Hugo Jucinei trabalhou na Farmácia Lemos desde os 16 anos 

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