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Desafio urbano: manauara vive diariamente a difícil atividade de ir e voltar para casa

Sistema de transporte público ineficiente, ruas inadequadas e demanda crescente fazem um caldeirão de usuários insatisfeitos na capital do Amazonas 26/09/2015 às 19:56
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O ônibus da linha 678 cruza a cidade de Leste a Oeste com passageiros espremidos, sem conforto e, no dias atuais, enfrentando temperaturas altíssimas
JOANA QUEIROZ Manaus (AM)

A semana que passou foi destinada ao debate sobre dois temas importantes: Trânsito e Mobilidade Urbana. A CRÍTICA foi checar a quantas andas estes dois setores e encontrou um quadro desolador

Andar de ônibus, por exemplo, nos deslocamentos cotidianos é um desafio para a população. Começa pela demora para o coletivo chegar, passa pela superlotação, os engarrafamentos nas ruas estreitas e chega as altas temperaturas registradas no interior dos ônibus em dias do verão amazônico.

Com tudo isso, chegar ao trabalho bem humorado é difícil, mas pode ficar pior quando a conservação do veículo deixa a desejar e uma viagem simples acaba em pane mecânica. Na semana passada, ônibus foram depredados pela população revoltada por causa do problema. Um desses foi da linha 678, da empresa Global Green, que sai do terminal 4, na avenida Camapuã, na Zona Norte e vai até a Ponta Negra, na Zona Oeste.

Os usuários dessa linha dizem que nas primeiras horas do dia, quando as pessoas saem para trabalhar, e no final da tarde, no retorno para casa, são os piores momentos. A viagem pode durar mais de uma hora, dependendo do trânsito. Para quem consegue um lugar para sentar o desconforto é menor, porém para os que fazem a viagem em pé, o sofrimento é grande.

Na quarta-feira, às 7h, dezenas de pessoas esperavam o 678 no T4. O coletivo chegou, as duas espaçosas portas nas laterais abriram e os passageiros começaram a entrar apressadamente na tentativa de conseguir um assento vazio. A viagem começou com todas as cadeiras ocupadas e algumas pessoas em pé. Da avenida Camapuã, pela Autaz Mirim, onde as paradas são nas plataformas o veículo parece transitar normalmente.

A próxima grande parada é no terminal 5, bairro São José, Zona Leste, onde uma multidão impacientemente esperava pelo ônibus. As portas se abrem, poucos passageiros descem, enquanto uma multidão entra e, ao invés de tentar achar um assento vazio para sentar eles buscam um lugar para colocar as mãos na barra de ferro, e no chão do ônibus para colocar os pés. A partir daí transitar no interior do ônibus fica praticamente impossível, as pessoas ficam encostadas umas nas outras. Aumenta a temperatura e o suor começava a escorrer pelos rostos dos passageiros.

O ônibus transita em baixa velocidade. Os passageiros vão se acomodando como podem. Os degraus das escadas viram assentos, pois sabem que a viagem é longa, demorada e desconfortável. Nas proximidades do Clube do Trabalhador, na alameda Cosme Ferreira, o trânsito começa a ficar lento até parar por conta do engarrafamento que só termina depois da rotatória do bairro do Coroado. Nesse trecho, o ônibus levou mais de meia hora. Há confusão na hora da descida porque os passageiros tem dificuldade de chegar até a porta.

Depois da bola do Coroado, a viagem começa a melhorar. O ônibus circula em maior velocidade. A cada parada descem passageiros e a lotação vai diminuindo até chegar à Ponta Negra.

A espera e a viagem no desconforto

Rosinaldo Castilho, 30, é morador do bairro João Paulo, Zona Leste, e trabalha em uma empresa no conjunto Dom Pedro, na Zona Centro-Sul. Ele disse que sai de casa por volta das 6h, e na maioria dos dias gasta em média meia hora esperando o coletivo chegar. A viagem até o trabalho dura até 40 minutos e quase sempre vai em pé. “Essa é uma situação que poderá ser resolvida com mais ônibus e a faixa azul para os coletivos”, disse.

Para Castilho, atualmente, o principal problema dentro do ônibus é o calor. Sem nenhuma proteção nos vidros do veículo o sol entra pela janela e tira a comodidade dos passageiros. Eles não tem como se proteger, o suor começa escorrer pelo rosto.

Maria Francisca das Chagas, 46, auxiliar de serviços gerais, mora no bairro Tancredo Neves e também trabalha no Dom Pedro. Ela disse que sai de casa às 7h. Para ela, o principal problema é a demora do 678 e a superlotação que a leva a andar sempre em pé. “Como eu tenho problemas nas pernas, sinto cansaço e dor nas pernas”, reclama.

Blog Francisco Miranda Pedreiro

Eu não tenho esperança de que isso vá melhorar. Tenho 53 anos e nunca vi um governante bom que fizesse alguma coisa pelo sistema de transporte. Eles até que tentam, mas o sistema não melhora. Dificilmente consigo viajar sentado na linha 678. Moro no Armando Mendes, Zona Leste, procuro chegar cedo ao terminal 5, mas quando o ônibus chega é um empurra, outros passam na minha frente e acabo viajando em pé. Eu já me preparo psicologicamente para passar a viagem inteira em pé. A demora e o engarrafamento também é um problema sério. Quem vai sair de casa atualmente, tem que sair uma hora antes do habitual, caso contrário vai chegar atrasado. Aqui dentro do ônibus é um calor desgraçado que não tem quem aguente. Tinha ar condicionado, mas tiraram . A viagem dura mais de uma hora e como eu vou segurando nesse ferro, dói a perna, dói o braço, as costas”.

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Distração

Para passar o tempo muitos passageiros ouvem música no celular, outros leem jornal, há quem aproveite para estudar, mesmo estando em pé. Há também quem reclame de dores nas pernas, na coluna, mas há quem aproveite para cochilar sentando ou não.

Três perguntas para Pedro Carvalho Diretor-Presidente da SMTU

1. A prefeitura tem alguma proposta para melhorar o sistema de transporte urbano de Manaus?

Tem muitas, mas falta é recursos e conscientização dos governos estadual e federal para investir na mobilidade urbana. A prefeitura está fazendo o que pode.

 2. Qual é o principal problema que está impedindo o sistema de funcionar a contento?

Fluidez no trânsito. As ruas não foram planejadas para atender o sistema coletivo, mas para automóveis. Quando há um engarrafamento, os ônibus demoram a passar nos pontos e com a demora acontece a superlotação.

 3. Qual seria uma medida para melhorar o sistema no curto prazo?

Manaus precisa de um modal de maior capacidade, mas não tem recursos para isso. E a coisa fica mais difícil se não mudar a consciência política desse País.

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