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Manaus
REALIDADE

Desemprego e crise econômica criam 'exército' de trabalhadores informais

Conheça algumas histórias daqueles que pela necessidade de uma fonte de renda ingressaram no mercado de trabalho pela via da informalidade 30/09/2018 às 20:29 - Atualizado em 01/10/2018 às 10:26
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Fernanda Paula vende produtos de beleza para pessoas de pele negra (Foto: Márcio Silva)
Joana Queiroz Manaus (AM)

Trabalhadores que outrora possuíam emprego com carteira assinada, ficaram desempregados e cansaram de procurar novas vagas por falta de oportunidades no mercado constituem um grupo cada vez maior de gente que trabalha “por conta própria”. Há quem chegue a entrar em desespero ao, repetidas vezes, ouvir não ou sequer encontrar propostas disponíveis.

E é nesse momento, em que busca fazer o melhor, que eles conseguir uma fonte de renda suficiente para custear ao menos as necessidades básicas. A crise econômica que já perdura mais de quatro anos não dispensa ninguém, tem até doutor fazendo bico para pagar as contas. Não desistir e resistir à recessão são hoje a grande luta da maioria desse grupo, que não se acomoda, mas vai à luta para conseguir se manter.

A universitária Fernanda de Paula, de 28 anos, trabalhava como operadora de caixa há um ano e oito meses, quando foi demitida. Desde então ela passou a procurar emprego. Negra, ela diz acreditar que, num país onde o racismo ainda é forte, a cor da pele e o fato de ser mulher contribuem para que não seja aceita nas vagas de emprego. "O fato de eu ser negra me causa dificuldade para conseguir emprego", disse.

Nos últimos meses, quando a necessidade de uma renda mínima chegou ao extremo, a estudante de Pedagogia passou a trabalhar com cosméticos, vendendo produtos voltados a pessoas de pele negra através da loja virtual Melanina-AM. 

Não muito diferente dela é a situação do professor de música Potiguara Borges. Ele estava trabalhando com carteira assinada em uma escola de música, mas foi alcançado pela crise e teve de correr atrás de algo fora da sua área de atuação, quando passou a fazer condução escolar. Atualmente, Potiguara está “fazendo bico” como motorista de aplicativo de transportes.  Ele conta que o que está ganhando só dá para pagar as despesas básicas, como luz, água.

Potiguara reclama que, por estar trabalhando por conta própria, ele deixa de contribuir com a Previdência Social, situação que deixa ele com temor quanto ao seu futuro. Apesar da situação, o músico tem planos de estudar e  fazer faculdade de Geografia. Enquanto a situação financeira do País não melhora, ele vai vivendo de bico.

Emilly Lima, 24, está cursando Psicologia, perto de se formar. Ela trabalhava em uma empresa de tecnologia e há dois anos foi demitida. “Eu procurei emprego  durante esse tempo e não consegui nenhum”, disse.  Ela é casada  e precisa ajudar o marido nas despesas de casa. 

A universitária disse que diante na necessidade de ter uma renda buscou o que sabia fazer de melhor. “As pessoas lá de casa sempre falavam que o bolo que eu fazia era muito gostoso, então procurei me especializar  e hoje estou vendendo bolos simples”, disse.

Ela aceita encomenda e muitas vezes leva para vender fatias de bolo na faculdade. O dinheiro ainda não é muito, mas dá para pagar a conta de água, a passagem de ônibus e ainda sobra um pouquinho para outras coisas.

Um milhão a mais por ano desde 2014

O número de empregos informais, sem carteira assinada, cresceu 2,6% de abril a junho deste ano em relação aos três primeiros meses de 2018, conforme a Pnad Contínua/IBGE. Nos últimos quatro anos, quatro milhões de empregos informais foram criados no País —  média de um milhão de postos sem direitos trabalhistas por ano, totalizando 37 milhões, ou 40% da população ocupada do Brasil, de 91,2 milhões de pessoas.

'Mercado informal é mais flexível'

Para o sociólogo da Ufam  Gilson Gil, possuir um emprego é vital na dinâmica social moderna. “Não há como sobreviver sem um. Porém, nem sempre é possível se obter um emprego formal, estável e de carteira assinada. A legislação trabalhista, o custo Brasil e a burocracia impedem que novos empreendimentos avancem”, observa.

“Nesse cenário, o mercado informal surge como uma opção real para esses milhares de desempregados, que sofrem com os efeitos desses últimos quatro anos de recessão. O mercado informal não paga impostos e é mais flexível”, destaca. Ele diz que é tarefa dos próximos governantes recuperar  a economia, gerando empregos mais seguros e renda. “Criando oportunidades e fazendo com que essas taxas absurdas de desemprego, as quais em Manaus são maiores do que a media nacional, baixem”.

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