Terça-feira, 21 de Maio de 2019
NOVO LAR

Devido à crise, Amazonas recebe quase 800 pedidos de refúgio de venezuelanos

Dados são relativos até outubro e segundo Delegacia de Polícia de Imigração da PF do Amazonas, número é 115% maior que em 2015. Venezuelanos afirmam que, em comparação ao país de origem, 'não há crise no Brasil'



venezuela.JPG
Venezuelanos que vivem em Manaus apontam Brasil como seu novo lar (Foto: Euzivaldo Queiroz)
26/12/2016 às 05:00

Em busca de um futuro melhor. É com esse anseio que milhares de venezuelanos cruzam a fronteira para pedir refúgio no Brasil. O Amazonas, um dos estados brasileiros mais próximo daquele país, que vive uma grave crise política e econômica, recebeu 792 solicitações de refúgio de venezuelanos até outubro, 115,8% a mais que em 2015, quando foram protocolados 367 pedidos na Polícia Federal (PF). Em Manaus, eles se viram como podem para se manter e ainda ajudar a família que ficou na Venezuela. 

A maioria dos venezuelanos escolhe se refugiar na capital amazonense pela proximidade que há com o seu país de origem. Além disso, em Manaus, eles também contam com apoio de amigos que residem na cidade. Esse foi o caso do casal Reina Maval, 27, e Francisco Duran, 28. “Decidimos partir para um lugar perto da Venezuela e a gente tinha um amigo que morava em Manaus, então viemos pra cá. Aqui fomos conhecendo os outros”, contou Francisco.

O casal está na cidade há cinco meses. Reina conta que mesmo não estando trabalhando na área de formação – ela é professora de inglês e ele administrador de empresas – é mais fácil viver no Brasil do que na terra natal. “Lá, ninguém tem facilidade de conseguir as coisas. Não tem alimento, nem produtos básicos no supermercado. Aqui, você tem tudo e o pouco que ganhamos dá para pagar aluguel, luz e ainda mandar para nossa família na Venezuela”, disse.

Quando chegaram a Manaus, Reina e Francisco trabalharam vendendo bombons nos terminais de ônibus. Em seguida, resolveram tocar e cantar dentro dos coletivos. Hoje, eles e outros amigos venezuelanos se apresentam nos fins de semana em restaurantes da cidade. Um desses colegas é Miguel Echeverria, 22, que está na capital há pouco mais de um ano. “Em um mês, na Venezuela, somente com a música, eu pegava de cinco a seis salários mínimos, mas não dava mais para comprar nada”, revelou.

Alan Cedeño, 30, é outro que deixou a Venezuela por conta das dificuldades ocasionadas pela crise. Em Manaus, há 11 meses, ele trabalha como cabeleireiro – ainda não conseguiu emprego na área de sua formação: administração de empresa. A preocupação é com a família que ficou em seu país. “Meus pais tem problemas de pressão, precisam de medicamento e dieta especial e lá não tem remédio e nem alimentos. Queria que viessem pra cá porque aqui tem tudo que você precisa”.

Para os venezuelanos, não há crise nenhuma no Brasil,  tendo em  vista o que acontece no país deles. Jorge Segovia, 27, veio passar 15 dias em Manaus, mas chegando aqui conseguiu um emprego em um restaurante e não voltou mais. Ele está na cidade há três meses. “Quando consegui emprego, vi que não tinha mais porque voltar pra lá, onde os jovens não têm oportunidades e onde falta tudo. Minha mãe chorou e ficou triste quando eu disse que ia ficar”, contou.

Pedidos crescem

De acordo com o titular da Delegacia de Polícia de Imigração da Polícia Federal no Amazonas, Pablo Oliva, de janeiro a outubro deste ano, foram registrados 792 pedidos de refúgio por venezuelanos. Ele acredita que esse número pode ultrapassar os 900 até o fim do ano. “Esse levantamento é até outubro. Com certeza, teremos mais de 900 pedidos até o fim de dezembro. Houve um grande aumento na comparação com o ano passado, mas o número está dentro do trabalho normal”, afirmou.

O delegado explicou que o visto de refúgio é concedido pelo Comitê Nacional para Refugiados (Conare) a estrangeiros que sofrem perseguição religiosa, política e de natureza ideológica. No caso dos venezuelanos, ele destaca que cabe esse tipo de pedido porque muitos são perseguidos politicamente. Ao fazer a solicitação do visto, o solicite recebe um documento que autoriza ele tirar toda a documentação que precisa.

Base em Roraima

O general responsável pelo Comando Logístico do Exército, em Brasília, Theophilo Gaspar, afirmou que a corporação militar está pronta para montar uma base logística multinacional em Roraima para receber os venezuelanos e evitar o que aconteceu com os haitianos. “Basta o governo federal dar a ordem”, disse.

Gaspar afirmou que o objetivo é fazer a triagem dos venezuelanos que queiram entrar no País, além do controle sanitário e a regularização dessas pessoas, coisa que não foi feita com os haitianos em 2010. “Eles estão entrando no Brasil sem estrutura. Isso nos preocupa porque pode acontecer o que aconteceu com os haitianos que entraram sem controle pelo Acre e foram enviados em caminhões para São Paulo. Mas, para podermos fazer isso,  precisamos de autorização do governo  ou de um pedido do governo de Roraima e, até agora, nenhum deles solicitou nosso apoio”, afirmou o general.

Refúgio

De acordo com a Delegacia de Polícia de Imigração do Amazonas, 1.118 pedidos de refúgio foram feitos de janeiro até outubro deste ano. Os que mais pediram refúgio no Estado foram os venezuelanos (792), seguidos dos cubanos (244) e haitianos (54).

Fronteira fechada

No dia 12 deste mês, a fronteira da Venezuela com o Brasil foi fechada pelo presidente venezuelano Nicolás Maduro. Com o bloqueio, centenas de pessoas chegaram a atravessar para o lado brasileiro por rotas clandestinas, que ficaram conhecidas como “caminho verde”. Um grupo de seis amazonenses fez esse trajeto na madrugada do último dia 16.


Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.