Domingo, 26 de Maio de 2019
Chuvas

Um dia após chuva e tragédia, famílias tentam voltar a rotina em Manaus

Enquanto a família Castro Costa velava e, à tarde, sepultava as quatro mulheres mortas em desabamento, Carlos Soares Batista contava a todos como escapou da morte certa ao ser soterrado por outro barranco



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Carlos Soares Batista voltou ontem para o lugar onde antes estava a casa dele (Fotos: Euzivaldo Queiroz)
29/12/2016 às 10:50

A última terça-feira  foi de sofrimento para muitas famílias  que moram em Manaus, mas para Carlos Soares Batista, 58, foi o dia em que ele nasceu de novo. O autônomo era proprietário de uma das três casas que desabaram após um barranco cair sobre elas na rua Beira Rio, bairro Colônia Antônio Aleixo, Zona Leste. Ele estava dentro da residência no momento do desastre e ficou debaixo dos escombros, mas foi resgatado com vida e sem muitas escoriações pelos vizinhos.

De acordo com Carlos Batista, o acidente aconteceu por volta de 11h de terça-feira. Ele tinha acabado de chegar a sua casa. “Quando eu cheguei estava chovendo, aí fui tomar banho para me deitar. Quando estava saindo do banheiro ouvi o estrondo parecido com o de um relâmpago e tudo caiu. Fiquei preso com pedaços de madeira de um lado a outro do corpo e com o teto de casa em cima da minha cabeça. Foi um milagre eu ter sobrevivido. Perdi tudo o que tinha”, contou. 

A dona de casa Deolinda Silva, 19, viu quando o barranco desabou sobre as casas e o desespero dos vizinhos para ajudar o autônomo. “Eu estava lavando louça na pia que ficava de frente para as três casas atingidas quando ouvi o barulho e o barro cair em cima delas. O pessoal correu para socorrer o  ‘Carlito’ e graças a Deus ele foi tirado com vida dos escombros. Ainda bem que nas outras casas não tinha ninguém”, relatou Deolinda. Ela teve que sair de sua casa por causa dos riscos. 

Além das três famílias que perderam as casas delas, outras 15 que viviam na mesma área tiveram as moradias comprometidas com o desabamento do barranco. “As minhas coisas estão espalhadas nas casas de vizinhos e parentes. Meus filhos dormiram na casa da mãe da minha nora. Estamos vivendo um sufoco! Agora onde nós vamos achar um lugar para alugar no valor de R$ 350, que é o valor do auxílio aluguel dado pela prefeitura?”, questionou a auxiliar de serviços gerais Márcia Xavier Corrêa, 37.

Ontem, equipes da Defesa Civil  estiveram na rua Beira Rio para reavaliar as estruturas das casas que se encontram em áreas de risco e foram alagadas. Também foram ao local, equipes da Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Direitos Humanos (Semmasdh) para cadastrar as famílias em situação de gravidade para receberem auxílio aluguel e doações de benefícios eventuais, como colchão, cesta básica, lençol, entre outros.

Em números

936 famílias, atualmente, recebem o auxílio aluguel, cujo prazo de validade é de até 12 meses, podendo ser prorrogado por mais seis meses, desde que seja comprovada a necessidade de continuidade do benefício.

Abrigados em escola

Na comunidade da Sharp, no bairro Armando Mendes, 14 famílias foram alojadas na Escola Municipal Aristóteles Alencar e foram atendidas pela equipe da assistência social da prefeitura. Outras 30 famílias estão em casa de parentes e amigos. 

Forta-tarefa faz as avaliações

De acordo com o secretário da Defesa Civil de Manaus, Marco Belém,  uma força-tarefa foi montada com técnicos de várias secretarias e está reavaliando as estruturas das casas que se encontram em áreas de risco e foram alagadas, principalmente, na comunidade da Sharp e nos bairros Colônia Antônio Aleixo, Grande Vitória, Nova Vitória e Mauazinho, Zona Leste.

Defesa Civil do Município estima que 28 mil vivam em risco

A Defesa Civil de Manaus registrou 131 ocorrências causadas pela forte chuva de terça-feira. A estimativa é de que 655 pessoas tenham sido afetadas (média de cinco pessoas por ocorrência). Durante a manhã de ontem, os trabalhos do órgão se concentraram no auxílio às famílias desalojadas e no monitoramento das áreas que ainda ofereciam risco à população.

De acordo com o secretário da Defesa Civil Municipal, Marco Belém, há 734 áreas de risco em Manaus, com aproximadamente 28 mil pessoas vivendo nesses locais. “Infelizmente a maioria dessas moradias ficam em áreas que não poderiam ser habitadas. Mas nós fazemos visitas constantes e orientamos as pessoas a buscarem abrigo seguro e depois acionar a Defesa Civil para que possamos avaliar o local”, afirmou. 

O subsecretário municipal da Mulher, Assistência Social e Direitos Humanos (Semmasdh), Felipe Abrahim, disse que até ontem de manhã quatro famílias do bairro Nova Vitória e 14 da comunidade da Sharp já estavam com a proposta do contrato de aluguel. As demais seguem sendo cadastradas para receber o benefício. “O cadastramento e efetivação do processo demoram em torno oito a 12 dias para ser concluídos”, ressaltou.

Defesa Civil do Estado distribui kits de ajuda humanitária

Ontem, a Defesa Civil do Amazonas atendeu, com kit’s de ajuda humanitária, 47 famílias que ficaram desabrigadas/desalojadas devido à forte chuva que afetou a capital na última terça-feira. 

Nesse primeiro atendimento foram contemplados os afetados de bairros da Zona Leste, sendo 18 famílias da Colônia Antônio Aleixo e nove do Mauazinho, além de 20 famílias do Japiim, Zona Sul. Todos receberam cesta básica, kit’s dormitório e higiene, e ainda, redes e mosquiteiros.

De acordo com o secretário Adjunto da Defesa Civil AM, Hermógenes Rabelo, equipes do órgão foram deslocadas para fazer o levantamento de danos e de afetados em outras áreas atingidas pela chuva na cidade, como na comunidade da Sharp no Distrito Industrial, Zona Leste.  

“A partir das informações do Alerta Meteorológico emitido pelo Sipam, que indicava a ocorrência de um evento extremo em Manaus, a Defesa Civil AM prontamente iniciou o monitoramento das áreas mais atingidas, no intuito de atender as famílias afetadas por meio de ações de minimização de desastres desenvolvidas pelo órgão”, afirmou.

Família tinha medo dos riscos 

As quatro pessoas da  família Costa Castro que morreram, na terça-feira, após um barranco desabar sobre a residência onde elas moravam na rua 11 de Setembro, bairro Nova Vitória, Zona Leste, foram sepultadas ontem a tarde no cemitério Parque Tarumã, na Zona Oeste. 

Os corpos da dona de casa Maria do Socorro Protázio, 42, e das estudantes Samile, 14, Samiele, 10, e Sâmila Costa Castro, 8, mãe e filhas respectivamente, foram velados na Igreja Assembleia de Deus Tradicional, localizada na rua T1,  bairro Compensa, Zona Oeste. 

O aposentado Raimundo Viana Protázio, 76, pai de Socorro e avô das estudantes, disse que a família toda está muito abalada com as perdas. “Ver quatro caixões assim não é fácil. Minha esposa quase morre também com a notícia. Ela não quer comer e nem fala nada”, contou. 

Ele destacou que a filha morava há dez anos no Nova Vitória. A família tinha medo de morar no local, mas não tinha alternativa. “Eles tinham medo, mas ninguém imaginava que pudesse acontecer uma coisa dessas. Não sabemos o que dizer, o que fazer, estamos muito tristes”, afirmou Raimundo. 

A tragédia que matou  mãe e filhas aconteceu por volta de 11h de terça-feira durante o forte temporal que atingiu a cidade. As equipes de resgate do Corpo de Bombeiros e populares levaram aproximadamente três horas para resgatar os quatro corpos que ficaram soterrados sob os escombros. 

No local onde as vítimas moravam, o clima ontem era de tristeza e insegurança. “Ninguém conseguiu dormir à noite e a Defesa Civil do Município não apareceu novamente. Eles ficaram de vir 8h para fazer uma reunião com as famílias. Estamos com muito medo porque a qualquer momento pode chover de novo e acontecer outra tragédia”, disse a serviços gerais Romilda Lira Vieira, 43.

A auxiliar de serviços gerais Marilene Maurício de Lima, 42, teve a casa parcialmente destruída e contou à aflição que a família passou e continua passando. “Não dormimos à noite com medo. Também não consegui ir ao velório da irmã Socorro porque não tive condições. Prefiro ter a lembrança dela e das meninas vivas na memória”, disse emocionada.

A solidariedade dos manauenses

Para amenizar o sofrimento das famílias que foram afetadas pela forte chuva de terça-feira, muitas pessoas se reuniram para arrecadar alimentos, roupas, lençóis, colchões e demais objetos para doação. A mobilização da população ocorre em diversos pontos da cidade. 
 
No bairro Nova Vitória, Zona Leste, onde quatro pessoas de uma mesma família vieram a óbito durante o desabamento de uma residência, as doações podem ser entregues na Igreja Universal, na rua 11 de Setembro. “Desde ontem estamos ajudando com doações não só aqui no Nova Vitória, mas também no Grande Vitória, onde muitas famílias tiveram suas casas inundadas e perderam tudo”, disse o motaxista Oty Luis Braga.

Na Colônia Antônio Aleixo, outro grupo arrecada donativos para as famílias afetadas no bairro. As doações podem ser feitas a partir de 8h no Centro Social e Recreativo Frei Miller, localizado na rua Alberto Campainha, em frente a Praça Tancredo Neves. “Atendemos 77 famílias hoje (ontem), nossa meta é atender 100”, disse o encarregado de setor, Jean Russel.

Também a pontos de arrecadação na Academia Evolucion, na rua Estrela, nº 2013, na comunidade da Sharp, para moradores daquela região. A “ação entre amigos: correte do bem” é organizada pela professora de educação física Nete Costa. Há ainda ponto de arrecadação e doação na avenida Manaus 2000, no igarapé do 40. 

O Espaço Coworking, do Sumaúma Park Shopping, localizado no piso Japiim (1º andar), é ouro posto de coleta de doações para as várias famílias que foram atingidas pela forte chuva. Alimentos não perecíveis, roupas, calçados e colchões, podem ser entregues no local no horário de 13h30 às 21h30, durante toda a semana, inclusive no sábado (31), neste dia, o shopping irá funcionar das 8h às 18h.
 
A Prefeitura de Manaus também iniciou uma campanha solidária para receber donativos para as famílias atingidas. Quem tiver interesse em doar roupas, alimentos, colchões, lençóis, materiais de limpeza e de higiene pessoal, entre outros artigos de primeira necessidade, pode se dirigir a um dos quatro pontos de arrecadação: Semmasdh – avenida Ayrão, Centro, Parque Municipal do Idoso – rua Rio Mar, N. Sra das Graças, Semjel – Minivila Olímpica do Coroado e Escola Municipal Aristóteles Alencar – Mauazinho


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