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Manaus
ENTREVISTA

Diretor executivo da Embrapa fala sobre saúde alimentar em entrevista

Em Manaus, diretor analisa que “ainda há um contingente de pessoas passando fome no mundo” e o Brasil precisa assumir um papel neste cenário 17/04/2016 às 07:05 - Atualizado em 17/04/2016 às 10:40
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(Foto: Euzivaldo Queiroz)
Náferson Cruz Manaus (AM)

Propiciar intercâmbio de conhecimento e experiências, bem como potencializar a melhoria na produção agrícola, redução dos custos, além da conservação e qualidade dos produtos são os desafios para estimular cada vez mais a cadeia da “segurança alimentar”.

Estes e outros pontos foram destacados  pelo  diretor-executivo de Transferência de Tecnologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Waldyr Stumpf Júnior, em entrevista ao A CRÍTICA. O especialista em segurança alimentar esteve em Manaus no meio da semana, onde participou da “Rede Global de Institutos de Pesquisa, Ensino e Extensão em Segurança Alimentar e Nutricional”, realizado no Instituto de Pesquisa da Amazônia (Inpa). Para Waldyr Stumpf,  o evento foi estratégico para a criação de uma plataforma que interligue e fortaleça as redes em “segurança alimentar” e nutricional existentes nos diversos continentes.

Como o senhor observa a questão da “segurança alimentar”  no campo global?

Hoje, o mundo tem problemas  sérios de  fome, pessoas que não conseguem comer o suficiente e, posteriormente,  temos os problemas com a saúde, como a obesidade, além das  doenças originadas em função da má alimentação, que também é uma questão nutricional, então podemos observar duas questões: a  falta de comida para quem não tem e a má alimentação. Uma coisa é olhar a questão da segurança alimentar a partir do alimento que se tem disponível e outra é como se produz esse alimento, como os agricultores constroem seu sistema de produção. 

Nesse viés, a Embrapa vem a contribuir  de que forma?

Dispomos de 42 centros de pesquisas com atividades em todos os biomas do País, temos  um conjunto muito grande de laboratórios de campos experimentais e de pesquisadores que, junto às comunidades, conseguem desenvolver e buscar soluções tecnológicas para o País. E, como a particularidade  principal do alimento é a característica do local onde ele é produzido, a Embrapa, hoje, tem essa condição,  de estar em todos os estados brasileiros, conversando com os produtores rurais e agricultores para valorizar o que eles fazem, trabalhando  para aprender com eles e ensiná-los com o  repasse de  tecnologias. Então, estamos trazendo toda essa rede de pesquisadores, laboratórios, campos experimentais e conhecimento gerado ao longo desses 43 anos.

 

Nas últimas décadas, houve uma intensificação das pesquisas relacionadas aos alimentos, nutrição e saúde. Quais foram os motivos?

Este é um dos pontos da discussão que se teve no Inpa porque normalmente vem se falando no alimento  para saciar a fome, entretanto, nós somos o que nós comemos, então, hoje, além da questão de atender às necessidades de alimentação, estamos trabalhando os alimentos para melhorar a saúde das pessoas. Pensamos na saúde e qualidade do alimento para nutrir as pessoas para que tenham saúde porque se elas se alimentarem mal, ao invés de terem saúde, elas ficarão doentes.

Então, a temática (segurança alimentar) se coloca como uma questão de saúde pública?

Sim. Essa é a questão que está levando médicos, nutricionistas e  pesquisadores na área de produção a se preocuparem com o alimento como uma fonte de saúde, para que o consumidor não fique doente e não venha  a fazer uma medicina curativa, então, através de uma alimentação sadia iremos ter a  prevenção e  uma saúde mais equilibrada, essa é a conexão entre o alimento e a saúde.

O Brasil é considerado um dos 10 países que mais desperdiçam alimento no mundo, com cerca de 30% da produção descartada ainda na pós-colheita. Como amenizar isso?

Temos uma estrutura de produção muito rigorosa só em grãos: pouco mais de  210 milhões de toneladas. Com o leite começamos a atingir o que é recomendado pelo Organização Mundial de Saúde (OMS). Também somos grandes exportadores de carnes, mas temos uma perda muito grande, perdemos muito desde a lavoura com a colheita, com o transporte e beneficiamento até chegar nas feiras e supermercados, além das grandes centrais de distribuição. Tudo isso causa uma perda que é de mais de 30% e, em alguns casos fica entre 35 a 40%.  

Mas qual a fórmula para refrear essas perdas?

Se falamos em segurança alimentar, em termos alimentos em quantidade e qualidade para a população, é importante diminuir essa perda e colocar um esforço muito grande para minimizá-las, por meio do transporte, armazenamento e conservando de forma adequada. Outras questões que temos que colocar e analisar são as formas como são trabalhados os produtos nos pontos de venda, a temperatura e o período de validade. Somadas todas estas questões, teremos um conjunto de boas práticas às quais teríamos que olhar com mais atenção para diminuir esse desperdício porque não justifica produzir tanto alimento, mas também perder em função da má  distribuição e conservação dos produtos.

Quais são os desafios da “segurança alimentar” no Amazonas?

O desafio da produção. O Amazonas vem aumentando sua produção e  a qualidade, além de estar  melhorando a logística de transporte e de sua infraestrutura, portanto, temos ainda bastante esforço para colocar na melhoria do sistema de produção, trabalhando novos produtos,  cultivos e na eficiência dos sistemas.

 

E quanto à qualidade dos alimentos?

Há ainda essa questão: hoje a qualidade dos alimentos é cada vez mais uma exigência da sociedade, então temos que ter uma produção mais equilibrada, para que possamos ter um alimento de qualidade e que seja transportado e armazenado corretamente para que possamos dispor  nas feiras,  supermecados e, consequentemente em a nossas casas, um alimento de qualidade. 

Temos que melhorar as cadeias produtivas?

Sim,  quanto mais o Estado produzir, menos ele vai importar, então a valorização das cadeias “curtas” no Estado, como as de hortaliças, aves, leite carne e grãos é fundamental. Quanto mais estivermos próximos da produção, melhor, pois essas cadeias curtas fazem com que os recursos fiquem na região, além de fazer com  que o cidadão tenha  um alimento mais fresco para consumí-lo o mais rápido possível e reduzir, assim, a perda, uma vez que isso também influencia na questão do custo, conservação e qualidade. Outro ponto que é fundamental é  a questão nutricional, pois os alimentos locais têm uma qualidade e funcionalidade diferenciada, trazendo  melhoria à saúde das pessoas.

Quais medidas o Estado deve adotar para fomentar a produção ‘segura’?

É importante que se tenha um plano estratégico do Estado para que seja estimulada a produção local de pequenos animais, de hortaliças e de grãos para que a região  tenha um produto de melhor custo, qualidade e diminuindo os circuitos, para que os alimentos cheguem mais rápido, mais frescos e, consequentemente, mais saudáveis à mesa do consumidor.

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