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Manaus
MUDANÇA

Do crime para a escola: jovens do AM recomeçam vida em centros socioeducativos

Durante internação em unidades como o Dagmar Feitosa, adolescentes trocam armas e drogas por lápis e caderno para aprenderem a ler e escrever 09/02/2019 às 15:25 - Atualizado em 10/02/2019 às 12:28
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Foto: Raine Luiz
Vitor Gavirati Manaus (AM)

Rafael* é um jovem focado. “Tinha seis anos que eu não estudava. Eu tava no tráfico. Só queria saber de vender droga. Aí, me botaram pra matar. Colocaram uma arma na minha mão. Eu matei. Quando começou a guerra...”, disse o adolescente, que foi apreendido, aos 15 anos, após uma troca de tiros em Manaus que terminou com um morto e um ferido no ano passado.

Hoje, o garoto mira em outro alvo. “Terminar meus estudos”, respondeu-me sem titubear depois que o perguntei seus planos para depois da internação. Rafael cumpre, há cinco meses, a mais gravosa das medidas socioeducativas a que um jovem pode ser dirigido após cometer um ato infracional.

No Centro Socioeducativo Senador Raimundo Parente, que fica na Zona Norte da capital, o adolescente entrou em outra guerra. Abandonou a que fez o número de homicídios em Manaus subir 45% entre maio e junho de 2018, para se concentrar na que ele crê poder lhe render um futuro melhor. Encontrou quem oferece lápis, borracha e caderno em vez de armas e munições. “Sem estudo nós não é nada”, resumiu o adolescente.

Ele foi um dos três jovens que, até serem internados em Manaus, não sabiam ler nem escrever e conheci há alguns metros de casa, no Centro Socioeducativo Dagmar Feitosa. Os outros são Lorenzo*, que é do município de Borba (a 151 km de Manaus em linha reta), tem 17 anos, e esteve envolvido em um homicídio; e Hans Miller, de 19, que cometeu um assassinato em Ipixuna (a 1.367 km da capital). Depois dos crimes, ambos foram trazidos para o Dagmar, no bairro Alvorada, Zona Centro-Oeste
.


“Eu entrei aqui sem vontade de viver, pensando que meus sonhos tinham sido cancelados, tudo tinha acabado. Aqui aprendi coisas novas. Que em uma situação de violência é melhor você sair fora, ser visto como covarde. Eu vim aqui para refletir sobre meus atos, me estenderam a mão”, lembrou Hans. 

Hans foi empregado após internação

Contratado pela Secretaria de Estado de Justiça, Diretos Humanos e Cidadania (Sejusc), hoje, Hans Miller trabalha no centro onde cumpriu a internação. Além dele, outros sete jovens que passaram pelo Dagmar Feitosa também já trabalham graças a parcerias da Sejusc – a Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM) e um açougue na Zona Centro-Oeste os acolheram.

“O que acaba acontecendo com o jovem que cumpre a internação de forma exitosa é que, quando ele sai, é assediado pelo tráfico. Nós precisávamos dar oportunidades para esses jovens, que enfrentam preconceito e resistência do mercado de trabalho ao sair daqui. Nós precisamos desconstruir isso”, explicou o psicólogo Antonio Juracy Maciel de Lima, diretor do Centro Socioeducativo Dagmar Feitosa. 

Mudança

O Centro administrado por Antonio era conhecido pelas rebeliões. Uma busca rápida no Google faz o internauta encontrar situações como fugas de internosjovens ateando fogo em colchões dentro de celas e mortes de internos. Talvez, por isso, eu tivesse ouvido comentários negativos quando contei a alguns amigos que estava alugando uma casa próxima ao Dagmar Feitosa.

Há dois anos o Centro Socioeducativo não registra rebeliões. No local, trabalham 16 professores que ofertam aulas nas modalidades normal e para Jovens e Adultos (EJA). Os internos também recebem aulas de informática e contam com o atendimento de psicólogos e assistentes sociais.

Na tarde em que conheci os três garotos, o ambiente no Dagmar Feitosa era bem diferente do de qualquer imagem que se costuma ter sobre os espaços do tipo. Jovens revezavam no “quem perde sai” da mesa de Ping Pong acompanhados pelos seguranças.

São 33 internos. A capacidade é para 64, mas, em outros tempos, o espaço chegou a receber 94. Hoje, cada jovem pode ficar sozinho em uma cela do Dagmar Feitosa, que recebe os adolescentes de 16 a 18 anos de idade. O Raimundo Parente recebe os de 12 a 15. Naquela tarde, Rafael estava no Dagmar para poder ser entrevistado.

Ato do sujeito x Sujeito do ato

Com o salário do emprego em que acompanha os detentos no Dagmar Feitosa, Hans Miller alugou uma casa no bairro Alvorada e deve terminar o Ensino Médio este ano na Escola Estadual Manoel Severiano Nunes. A preparação é para o vestibular. Hans quer cursar o Direito. A família segue no interior do Amazonas.

Lorenzo, o outro interiorano, recebe telefonemas dos familiares que estão em Borba, mas não o da mãe, que ele perdeu alguns dias após ser apreendido ainda na terra natal, morta pelo padrasto. “Quero sair daqui, ter uma oportunidade. Eu não sabia ler nem escrever. Tô muito feliz”, revelou.

Ele e Rafael podem ficar por até três anos nos Centros Socioeducativos. A cada seis meses eles são avaliados e o resultado pode contribuir para que os jovens sejam liberados pela Justiça. As boas ações de Hans Miller, por exemplo, culminaram na contratação após o fim da internação.

Rafael está prestes a ser avaliado pela primeira vez. “Ele estuda de manhã e de tarde. Eu nunca tinha visto um menino assim. Eu tenho gostado muito do esforço dele”, comentou comigo uma das professoras do adolescente,  ex-integrante da facção Comando Vermelho, que o acompanhava no Dagmar durante a entrevista.

- Qual a explicação para essa mudança na vida dos meninos? – perguntei ao diretor do Dagmar.

- Você tem que entender a diferença entre o ato do sujeito e o sujeito do ato. Eles já foram olhados pela Justiça por conta do ato. Ser humano é ser humano. Quando você trata ele bem, tem retorno. E quem está por trás do ato é um ser humano -, responde Antonio.

- Hoje vocês têm 10 bolsas de estágio no projeto “Ensina-me a Sonhar”, na parceria com a Defensoria. Existem planos para aumentar as oportunidades?

- A gente está procurando apoio na iniciativa privada. Ainda é preciso desconstruir a imagem que as pessoas têm com os jovens daqui. Mas a Sejusc está empenhada em aumentar esse projeto, contratar mais pessoas e procurar novos locais para dar emprego aos internos.

Depois da entrevista, enquanto conversava com o editor de vídeo Raine Luiz, que me acompanhou naquela tarde, perguntei sobre o que a mãe dele, ex-professora do Dagmar, falava sobre as rebeliões que aconteciam ali enquanto ela trabalhava.

“Era tenso. Eles (professores) tinham uma sala, onde eles ficavam trancados”, respondeu. Olhei de volta para o interior do Centro. Tudo estava tranquilo. Não consegui imaginar a cena. Qualquer imagem que eu tinha dali estava desfeita.

*Os nomes foram alterados para preservar a identidade dos internos

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