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Manaus
Resgate fundamental

Documentos que estavam no porão do Estadual ganham vida com projeto histórico

Projeto de restauração, tratamento e digitalização retirou documentos antigos relegados ao porão do Colégio D. Pedro 2º e resgatando, com eles, personagens importantes como o ex-governador Eduardo Ribeiro, entre outros 04/05/2016 às 00:13 - Atualizado em 04/05/2016 às 00:17
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O professor de História, Hèlio Dantas, exibe um livro ofício de 28 de março de 1892 assinado pelo então governador Eduardo Ribeiro / Fotos: Evandro Seixas
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Prestes a completar 147 anos de fundação, o tradicional Colégio Estadual, na avenida Getúlio Vargas com Sete de Setembro, terá restaurado seu acervo documental que, antes, incrivelmente, estava relegado ao porão daquela instituição de ensino.

Por meio do projeto “Colégio Amazonense D. Pedro 2º: Memória, Patrimônio e Fontes Históricas”, capitaneado pelo historiador Hélio Dantas, 36, relíquias como a partir do século 19, como livros de portarias, atas da direção da escola, ofícios e circulares estão ganhando uma organização arquivística, com digitalização e tratamento preventivo de conservação dos mesmos, além da proposta de funcionalidade e permanência do acesso público ao acervo através de um Centro de Documentação no 1º piso da própria escola.

Entre os raros documentos que compõem o acervo do Colégio Estadual do qual A Crítica teve acesso está um livro de ofícios do Governo do Estado de 1892. Num dos despachos, datado de 28 de março daquele ano, ou seja, há 124 anos, o então governador Eduardo Ribeiro chama a atenção do diretor e demais empregados do Instituto Normal Superior, atual Instituto de Educação do Amazonas (IEA), cobrando a presença deles na referida repartição de ensino público. 

“Ao diretor do Instituto Normal Superior, tendo processado falas pelo telephone para essa repartição sem obter resposta à chamada, declaro que durante as horas regulamentares, convém à vossa presença e dos empregados na repartição para boa e regular marcha do serviço público”, diz a íntegra do trecho centenário. 

“Nesse caso, Eduardo Ribeiro ligou e ninguém atendeu. Ele disse que era necessário ter gente para garantir o bom funcionamento do Instituto Normal Superior”, explica o historiador Hélio Dantas.
“Só não sabemos porquê esse documento veio parar aqui, mas acreditamos que é pela importância da escola. Por exemplo: há documentação da escola estadual Saldanha Marinho, da escola noturna que funcionava na atual Cadeia Pública Raimundo Vidal Pessoa”, completa o especialista.

Acima, num boletim de notas de 1938 que avaliava os alunos na disciplina de tiro ao alvo, aparecia o nome do jovem aluno José Bernardino Lindoso, que anos depois se tornaria também governador do Amazonas.

Documentos de Mário Ypiranga e Vivaldo Lima

Outro documento raro, este de 1º de fevereiro de 1927, mostra  um Termo de Promessa assinado de próprio punho por Vivaldo Lima para exercer o cargo de professor catedrático de Física no próprio Colégio Amazonense D. Pedro 2º.

Vasculhando ainda um puco mais, salta aos olhos entre os vários documentos que estão sendo revitalizados uma ata de provas orais de 1953 onde o então professor de Geografia Mario Ypiranga aplica a nota 5,0 para determinado aluno.

O projeto desenvolvido pelo historiador Hélio Dantas conta com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) através do Edital 010/2013 – Pró-Acervo.
A intenção é que os trabalhos encerrem em dezembro deste ano, com a cessão dos equipamentos para a escola e a expectativa de abertura, em 2017, ao público.

Trabalho minucioso de resgate

"Esse projeto aqui no colégio iniciou em 2014. É um trabalho muito minucioso e detalhado pois havia mais de 100 anos de documentação que estava acondicionado não muito adequadamente no porão da escola.Eu diria que a parte mais rica dessa documentação é a grande quantidade de históricos escolares, que permitem, saber quem eram as figuras célebres que estudaram aqui, também mapear os ilustres anônimos que estiveram no colégio ao longo das décadas", declara Hélio Dantas, professor de História na rede municipal desde 2005 e na faculdade Nilton Lins desde 2013, além de historiador vinculado à Secretaria de Estado da Cultura (SEC) atuando no Teatro Amazonas.

"Por ser um prédio  histórico e ter sido uma importante instituição escolar no Amazonas ainda em atividade, e por ter abrigado nos seus portões  grandes nomes da política e da cultura amazonense a escola tem uma importância muito grande", pontua ele.

O interesse de Hélio Dantas pelo Colégio Dom Pedro 2º vem desde os tempos em que o historiador fez mestrado e pesquisou a vida e obra de Arthur César Ferreira Reis, famoso historiador amazonense e ex-governador do Amazonas no início da Ditadura Militar. "Tenho interesse nessas trajetórias de intelectuais, artistas e políticos locais, como Arthur Reis, que estudou e foi professor aqui no Dom Pedro 2º. Eu sempre tive interesse de desenvolver um trabalho aqui e quando surgiu a oportunidade nós apresentamos o projeto voltado pra cá porque sabíamos da existência dessa documentação no porão e que precisava ser catalogada. Grande parte da intelectualidade, dos artistas e dos políticos amazonenses estudou aqui", explica ele.

BOXE

Dando vida aos documentos históricos

Liderada por Hélio Dantas, o serviço de recuperação e catalogação está sendo feito por uma equipe de cinco pessoas, entre elas bolsistas e graduandos de História e Arquivologia, de segunda a sexta, de 8h às 12h, e de 14h às 17h no 1º andar do próprio Colégio Amazonense Dom Pedro 2º. 

O primeiro passo do resgate histórico da documentação foi retirar todo o acervo do porão do Colégio Estadual, fazendo uma triagem preliminar que importou em tirar as coisas das caixas que eram muito velhas, seguindo-se a uma limpeza e remoção de qualquer material que estivesse deteriorando os documentos, como clipes, grampos de metal já bastante oxidados e invólucros já muito velhos e com mau cheiro.

"Depois disso seguimos para a higienização em mesas específicas para isso, para ir limpando os documentos com um pincel macio e tirando as sujidades do meio das folhas. Agora vamos para a parte de classificação de documento a documento, para guardá-los em um banco de dados visando permitir a pesquisa posterior, bem como acondicioná-los em caixas-arquivos de maneira organizada em estantes. Há alguns dias o acervo foi transferido para o primeiro pavimento onde esperamos que funcione o centro de documentação. Essa é a meta final do projeto: disponibilizar essa documentação organizada para futuros pesquisadores desenvolverem seus trabalhos aqui. O mobiliário (estantes de metal e armários), deve chegar nos próximos dias para dar andamento a esse processo", explica o profissional, destacando que "todos os envolvidos com o projeto estão usando pelo menos luvas e máscaras, que são as ferramentas mínimas para se trabalhar com documentação dessa natureza, mesmo depois dela acondicionada e higienizada; e esperamos que continue nesse ritmo, com a documentação sendo tratada com todo esse cuidado".

Voluntários

Uma das particularidades do estágio atual é agregar voluntários que possam dispor do seu tempo para atuar no projeto. Em sua grande maioria, os bolsistas que passam pelo projeto são estudantes de História e Arquivologia em formação fazendo a sua graduação. "Já tivemos pessoas da Pedagogia aqui também. Então, nesse momento de transição do trabalho estamos procurando trabalhar com voluntários", disse Dantas.

A previsão é da equipe permanecer no Colégio Estadual, enquanto projeto, até dezembro. Mas o desejo do historiador, e a próxima etapa pelo qual vai lutar, será para que esse centro de documentação permaneça funcionando com membros da própria escola.

Além da recuperação de seus documentos, o Dom Pedro 2º também terá outro legado dentro do projeto de restauração: é que todo o equipamento adquirido com verba pública e utilizado na atividade, como computadores, máquina fotográfica, scanner e mesas de  higienização vão permanecer na própria na escola, como um importante legado, com o Estadual assumindo o Centro de Documentação.

"Vamos assinar um termo de cessão para garantir que a escola vai ter a responsabilidade de cuidar e dar continuidade ao projeto. A nossa expectativa é que possamos dar uma capacitação e treinamento para o pessoal da escola principalmente para quem trabalha com a parte mais administrativa, funcionários de secretária e direção. Esperamos que a instituição reserve alguém para ser responsável, uma espécie de coordenador do Centro de Documentação".

"Esperamos ter a oportunidade de estabelecer convênios, e permanecer presentes aqui para fomentar a continuidade dos trabalhos. Talvez não possamos higienizar tudo minuciosamente, pois algumas coisas precisam de restauro e isso aí é uma fase posterior do trabalho. Mas pelo menos iniciar a prática do trabalho de higienização e classificação vamos deixar 70% encaminhado", destaca o professor, que agradece a todos os envolvidos até agora no projeto: "Gostaria de agradecer a todos que já trabalharam aqui no projeto, quer seja como bolsista, quer seja como voluntário. Foi uma ajuda imprescindível. E a colaboração do corpo administrativo funcional da escola, que foi muito solícita a ajudar".

Histórico

O Colégio Amazonense D. Pedro 2º foi criado em 1869 pelo então presidente da província do Amazonas, João Wilkens de Matos, com o nome de Lyceu Provincial Amazonense. Ao longo da história dele, a escola teve outras nomenclaturas oficiais: Gymnasio Amazonense, Gymnasio Amazonense D. Pedro II e, a partir da administração do governador Henoch da Silva Reis, Colégio Amazonense Dom Pedro II. 

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