Publicidade
Manaus
Tecnologia e comunicação

Rede de boatos ganha força com a internet e especialistas alertam para notícias falsas

Incêndios, acidentes, surgimento de novas drogas sintéticas, doenças e mortes de personalidades e até assassinatos em massa estão entre as mentiras espalhadas 11/06/2016 às 16:17 - Atualizado em 12/06/2016 às 13:26
Show zcid13lu001 p01
Observar a procedência da notícia é uma forma de identificar boatos (Foto: Clovis Miranda)
Luana Carvalho Manaus (AM)

Quem nunca viu  uma publicação com a foto de alguma criança doente afirmando que a cada curtida ou compartilhamento o Facebook irá ajudar no tratamento? E quem nunca a acreditou num boato que se espalhou nas redes sociais? A expressão popular “caiu na rede é peixe” nunca fez tanto sentido. Tudo serve, tudo vale, tudo é compartilhado como se fosse a mais pura verdade na rede mundial de computadores. 

Os rumores são de temas variados e a cada dia surge uma nova mentira propagada rapidamente na internet, causando pânico aos que acreditam. Vão desde histórias de criminosos que se vestem como agentes de endemias para assaltar casas, a áudios que circulam no aplicativo Whatsapp anunciando uma “matança”, como aconteceu em julho do ano passado, após a morte de um sargento da Polícia Militar. 

Mais recentemente, outros casos de conteúdos apelativos também chamaram atenção. Em maio, uma suposta nova droga chamada “docinho”, que estaria sendo vendida nas escolas, deixou os pais preocupados, além de gerar investigação por parte da polícia. A imagem de duas alunas do Colégio da Polícia Militar de Manaus, supostamente embriagadas, foi relacionada ao boato. 

Na ocasião, o promotor de Justiça Alberto Nascimento, que há oito anos exerce atividade junto às varas de entorpecentes da capital, chegou a solicitar informações da Secretária Executiva Adjunta de Inteligência (Seai) e a Vara de Especializada em Combate e Uso de Entorpocentes (Vecute) pediu informações à Polícia Federal sobre o assunto. 
   
Moro e AVC

Mas também existem muitas mentiras envolvendo  política, como a foto que circulou nas redes sociais “informando” que o juiz Sérgio Moro estava em Manaus para participar de uma operação. Depois, anunciaram que o senador Omar Aziz tinha sofrido um AVC e estava em estado grave. O político teve que gravar um vídeo para desmentir o boato. 

Para ele, a internet tem inúmeras vantagens,  mas é preciso ficar atento a quem a utiliza de forma negativa. “Fakes, perfis falsos, notícias falsas e muita coisa ainda tem que ser combatida. Boatos podem causar danos muito sérios e as pessoas precisam filtrar o que recebem para não ampliar uma informação errada que pode ter grande prejuízo a terceiros”. 

No caso do senador,  ele conseguiu divulgar uma resposta imediata, por meio de um vídeo. “Mas nem sempre as pessoas conseguem evitar os danos”, frisou. Até sinistros são causas de boatos, como a foto de um suposto incêndio no Habbib’s da Cachoeirinha,  Zona Sul, que deixou em alerta os veículos de comunicação locais e Corpo de Bombeiros, há duas semanas. Quando os bombeiros chegaram ao local, notaram que era um boato.
 
‘Interesses’

O consultor e professor de mídias digitais Paulo Silvestre explica que os boatos sempre existiram, mas agora são enormemente potencializados pelas redes sociais. “Mudaram até de nome: agora são ‘hoax’ (palavra em inglês que significa embuste ou farsa)”. Para o especialista, os boatos podem ser uma “simples molecagem”, mas também podem existir interesses econômicos e políticos poderosos por trás.

 “E é com esses últimos que devemos nos preocupar, principalmente. Nesses casos, existe uma verdadeira ciência por trás disso. Temos visto muitas empresas que usam as redes sociais para fazer contrapropaganda, desacreditar concorrentes. E isso tem acontecido com mais frequência que imaginamos”, ressalta. 

Mas, para o especialista, é na política que isso ganha muita força. “As redes sociais se prestam incrivelmente bem à prática de disseminar boatos políticos, tanto para valorizar um candidato quanto para desacreditar. Nas redes sociais, aquilo vai se espalhando sem checagem, como se fosse fogo em palha. E os algoritmos de relevância, como os do Facebook, ampliam ainda mais esse potencial, pois a versão acaba chegando às pessoas mais propensas a acreditar nela e, consequentemente, espalhar ainda mais o boato”, finalizou.

Tema de estudo na faculdade

O boato também virou  assunto acadêmico. O doutor em linguística Sérgio Freire, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), está orientando mestrando em letras que está pesquisando sobre o boato. “O boato é uma inverdade que se sustenta em alguma verdade partilhada. No exemplo dos ‘docinhos’, a inverdade é a circulação da droga, mas que circula e viraliza porque é muito possível que isso ocorra, dadas as circunstâncias sociais de vulnerabilidade”, explica Freire.

Para ele, essa inverdade aliada às condições de verdade geram o boato. “O que leva alguém a criar um boato? Várias podem ser as razões: prejudicar a imagem de um desafeto (muito comum na política e nas relações pessoais), de um concorrente (há o boato do rato na garrafa de coca-cola) ou puro prazer perverso de ver o circo pegar fogo. Há pessoas que sentem prazer em criar pânico, o que lhes dá a sensação de poder”. 

Ele frisa que com o aumento de acesso à informação proporcionado pela Internet, aumentou também a possibilidade de boatos. “É fundamental, antes de sair compartilhando coisas nas redes, checar a informação. Há sites como o efarsas.com, que são especialistas em desmontar boatos”, disse.

Publicidade
Publicidade