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Manaus
Logística

Semed renova contrato milionário com empresário arrolado na 'Custo Político'

Dono da empresa Kinglog, Francisco Neves, já faturou quase R$ 100 milhões da Prefeitura de Manaus e foi apontado como um dos 'operadores' de esquema de corrupção que cassou José Melo 23/06/2018 às 14:22 - Atualizado em 24/06/2018 às 09:03
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Prefeitura firmou contrato com empresa de Francisco Sampaio Neves, o Chaguinha, em 2015, renovou no ano seguinte e em 2017 trocou por outra empresa do mesmo empresário (Foto:Reprodução/Internet)
acritica.com Manaus (AM)

A Secretaria Municipal de Educação (Semed) renovou contrato no valor de R$ 23,9 milhões com a empresa Kinglog Transportes Multimodais Ltda que pertence ao empresário Francisco Sampaio Neves, conhecido como Chaguinha, um dos enrolados na Operação Custo Político, deflagrada em dezembro na segunda fase da Operação Maus Caminhos. A operação investigou desvio de cerca de R$ 110 milhões de verbas da Secretaria Estadual de Saúde (Susam).

O empresário também já foi apontado, em relatório da  Polícia Federal, no pleito de 2014, como um dos “operadores” do esquema de corrupção eleitoral patrocinado pelo governador cassado José Melo, quando atuava como tesoureiro do partido do ex-governador.

Desde de 2015, as empresas de Chaguinha são responsáveis pelos milionários contratos de logística da Semed na gestão do prefeito Artur Neto (PSDB). Em quatro anos, duas de suas empresas, faturaram quase R$ 100 milhões. O primeiro contrato, oriundo de pregão presencial de 2014, foi firmado com a Aliança Serviços de Edificações e Transporte Ltda no valor de R$ 23,5 milhões com duração de 12 meses. No período de 2015 a 2017, a transportadora recebeu R$ 70 milhões da Semed de um total de R$ 78,5 milhões empenhados por conta de aditivo.  

Em 2017, a secretaria trocou a Aliança pela Kinglog Transportes, outra empresa comandada por Chaguinha e pelo filho dele, Pedro Saulo Sampaio. O contrato para serviços de logística, pelo período um ano, totalizou R$ 23,9 milhões e foi firmado no dia 1º de junho daquele ano. Foi esse contrato  que recebeu aditivo, de mesmo valor, de mais um ano, de acordo com extrato publicado na edição da última quarta-feira do Diário Oficial do Município de Manaus.

Carona

Para trocar a Aliança pela Kinglog a prefeitura pegou carona em uma ata de registro de preços oriunda de um pregão presencial da Agência de Desenvolvimento Sustentável do Amazonas (ADS) de janeiro de 2017, quando José Melo ainda estava no cargo de governador, da qual a empresa foi a principal vencedora. Essa ata prevê a contratação de firma especializada na prestação de serviços de gerenciamento da cadeia de abastecimento, compreendendo o planejamento, a organização e o transporte e serviços técnicos de locação de equipamentos necessários para viabilizar a fluidez comercial da produção rural na capital e no interior.

De meados do ano passado até hoje, a Semed já empenhou (primeira fase do pagamento de uma obrigação no setor público)  em nome da Kinglog R$ 37,9 milhões, dos quais efetivamente pagou R$ 28,3 milhões. Desse montante, pouco mais de R$ 9 milhões foram desembolsados em 2017. E o restante foi quitado nos seis primeiros meses deste ano.

Serviços

O contrato detalha como serviços de logística para a Semed: a organização, processamento físico das atividades de recebimento, armazenagem, movimentação, expedição e distribuição dos materiais da Semed (mobiliário, material de expediente e limpeza, livros didáticos, uniformes, material esportivo, merenda, incluindo gêneros da agricultura familiar e utensílios de cozinha) através de caminhões baú refrigerado e  barcos, voltado para distribuição de materiais para escolas municipais localizadas nas áreas ribeirinhas de Manaus.

No dia 2 de janeiro deste ano, a Kinglog firmou outro contrato com a Prefeitura de Manaus. No valor de  R$ 4,6 milhões, se refere a serviços de logística para Secretaria Municipal de Saúde (Semsa). Desse total, já foram pagos  R$ 1,3 milhão.

Pagamentos milionários

A Aliança Serviços e Edificações Ltda recebeu do Governo do Estado cerca de R$ 197,8 milhões nos últimos oito anos. Os contratos milionários para realização de serviços de logística celebrados pela Secretaria Estadual de Educação (Seduc) vem sofrendo aditivos ao longo dos anos e estão disponíveis para consulta no Portal da Transparência do governo do Estado.

No contrato, consta a descrição dos serviços de distribuição de materiais de expediente, limpeza, livros didáticos, fardamento, utensílios de copa e cozinha e materiais permanentes para atendimento às escolas da rede estadual da capital e do interior do Estado.

Em 2010, a Seduc empenhou R$ 6 milhões e pagou R$ 3,3 milhões para a empresa. No ano de 2011, foram empenhados  R$ 5 milhões e pagos R$ 6,2 milhões.

Já em 2012, o montante empenhado chegou a R$ 33,1 milhões sendo pago R$ 24 milhões. Em 2013, foram empenhados R$ 44 milhões dos quais liquidados R$ 31 milhões e pagos R$ 29,9 milhões.

No ano de 2014, R$ 34 milhões foram empenhados sendo R$ 31,3 milhões liquidados e R$ 29 milhões pagos. Em 2015, a empresa recebe dos cofres públicos R$ 38 milhões.

Já em 2016, foram pagos R$ 36,2 milhões e no ano seguinte a quantia correspondeu a R$ 31,2 milhões. Neste ano, só tem restos a pagar de 2017 de  de R$ 4,3 milhões. Não há registros de despesa da Seduc  com a Aliança referente a serviços de 2018.

Conduzido para depor

No dia 13 de dezembro de 2017, o empresário Francisco Sampaio Neves foi conduzido coercitivamente até a sede da Polícia Federal para prestar esclarecimentos sobre possível envolvimento de suas empresas no esquema investigado pela  Operação Custo Político. 

Há época a PF levantou alguns indícios, porém a investigação até aquele momento não havia reunido elementos suficientes para o indiciamento formal do empresário, que prestou esclarecimentos e foi liberado. 

Em outro relatório da  PF, da eleição de 2014, o empresário é apontado como um dos operadores do esquema de corrupção eleitoral patrocinado pelo governador cassado. À época o dono da Aliança, empresa que mantinha contratos milionários de logística com a Seduc, atuava nos bastidores como tesoureiro da campanha de José Melo. 

Em imagens de câmeras de segurança de agência bancárias, que constam no relatório da PF, Neves aparece escoltado por viaturas da PM enchendo bolsas com dinheiro que, segundo a polícia, serviria para “alimentar os agentes envolvidos no crime de corrupção”.  

Consta no documento que ele usou sua empresa para financiar a compra de votos.

Serviço de armazenagem

A Semed informou, por meio de nota, que a Kinglog é responsável por todo o serviço logístico da pasta, como recebimento, armazenagem e distribuição de merenda escolar para as 498 unidades educacionais da rede pública municipal de ensino, material pedagógico, mobiliários, dentre outros. 

“O contrato, que foi renovado por mais 12 meses sem qualquer reajuste, inclui toda a estrutura de logística da rede, bem como o prédio de mais 5,5 mil metros quadrados onde funciona a Central de Suprimento e Logística do órgão; 20 caminhões baús, cinco contêineres refrigerados, um barco regional com capacidade de 30 toneladas, empilhadeiras elétricas, 20 carrinhos hidráulicos, 5.250 porta-paletes, 6,9 mil paletes padrão, como também a mão-de-obra de 60 funcionários. Por dia, cada caminhão atende, em média, 10 escolas municipais”, diz a nota emitida pela secretaria.

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